Um Café na Internet
Dou comigo feito piolho verde, a marchar pela… O quê? Ah, já te digo: por causa das camisas verdes, eram assim chamados os rapazinhos da Mocidade Portuguesa, a salazarenta. Pois eu, feito piolho verde, a marchar pela Avenida, de braço estendido. E um escaravelho, não preto, mas verde, patriótico e matulão, pergunta:
– Quem vive?
E nós, em coro:
– Portugal, Portugal, Portugal!
E o escaravelho volta a perguntar:
– Quem manda?
E nós voltamos a responder:
– Salazar, Salazar, Salazar!
Sim, sim, tens razão, esta é a vida do Afonsinho que eu já fui. Mas também consigo ouvir, não me perguntes como, também consigo ouvir o Salazar a cantar o fado: sou pobre, filho de pobres. Depois ordena ao Silva Pais, diretor da PIDE, que nunca dê tréguas aos subversivos, que lote o Aljube e Caxias e Peniche e o Tarrafal e se desfaça, como possa, dos excedentes. Sai do gabinete e declara ao Microfone da Emissora Nacional:
– Somos um povo de brandos costumes. Para defender a Pátria, aqui não é preciso usar da violência. Um safanão a tempo é quanto basta.
In LIANOR


