POESIA AO AMANHECER (30) – por Manuel Simões

Carlos Nejar – Brasil

( 1939 –    )

MINÉRIO  DA ESPERANÇA

Quem tocar no suor e no trabalho

não terá vassalagem, nem herdade,

não terá usufruto da paisagem,

nem provará o espólio.

As ferraduras se ferram

no minério da esperança;

as ferraduras se ferram

no cavalgar dos cavalos.

As ferraduras se ferram

e o sol acende o minério

de mãos batendo o martelo.

As ferraduras se ferram

e os homens forçam o ferro,

rasgando a polpa do erro

contra a bigorna do tempo,

forcejam o sol, forcejam

a noite e a desentocam,

limpa e fraterna, no escuro,

com seu larval de sementes.

As ferraduras se ferram,

entre o mais moço e o mais velho.

Quem tocar no suor e no trabalho,

pisa o peito de um homem

sob o orvalho.

(de “Canga”)

Poeta de grande projecção nacional e internacional, o gaúcho Carlos Nejar constrói uma vasta obra em que, de forma satírica ou lírica, épica ou dramática, contempla sobretudo a condição humana. Entre os seus muitos livros, cabe mencionar: “O Campeador e o Vento”         (1966), “Canga” (1971), “Árvore do Mundo” (1977), “Os Viventes” (1979, acrescido com o inédito “Livro das bestas e dos insectos”, 1999), “Simón Vento Bolívar” (1993), “Aquém da Infância” (1995).

 

 

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