Carlos Nejar – Brasil
( 1939 – )
MINÉRIO DA ESPERANÇA
Quem tocar no suor e no trabalho
não terá vassalagem, nem herdade,
não terá usufruto da paisagem,
nem provará o espólio.
As ferraduras se ferram
no minério da esperança;
as ferraduras se ferram
no cavalgar dos cavalos.
As ferraduras se ferram
e o sol acende o minério
de mãos batendo o martelo.
As ferraduras se ferram
e os homens forçam o ferro,
rasgando a polpa do erro
contra a bigorna do tempo,
forcejam o sol, forcejam
a noite e a desentocam,
limpa e fraterna, no escuro,
com seu larval de sementes.
As ferraduras se ferram,
entre o mais moço e o mais velho.
Quem tocar no suor e no trabalho,
pisa o peito de um homem
sob o orvalho.
(de “Canga”)
Poeta de grande projecção nacional e internacional, o gaúcho Carlos Nejar constrói uma vasta obra em que, de forma satírica ou lírica, épica ou dramática, contempla sobretudo a condição humana. Entre os seus muitos livros, cabe mencionar: “O Campeador e o Vento” (1966), “Canga” (1971), “Árvore do Mundo” (1977), “Os Viventes” (1979, acrescido com o inédito “Livro das bestas e dos insectos”, 1999), “Simón Vento Bolívar” (1993), “Aquém da Infância” (1995).

