EM COMBATE – 172 – por José Brandão

4.º O aldeamento

Muito perto do quartel existia um aldeamento de alguma dimensão no qual viviam largas centenas de autóctones, na sua maioria de origem maconde. Povo de artistas e de mãos sábias. Local de visita obrigatória, onde podíamos admirar as suas belezas naturais, o batuque e, se possível adquirir algum frango cafreal e uns ovos. Coisa rara e difícil de obter por estas bandas. Os homens dedicam-se ao artesanato, à dança, serventes e pouco mais. As mulheres vestidas com capulanas vistosas, de cesto à cabeça e filho as costas eram o centro da vida no aldeamento. Admirava a sua valentia e coragem pelas responsabilidades nos trabalhos domésticos, no afecto aos filhos e nos cuidados como amanhavam a machanva, fonte alimentar das suas subsistências…

5.º O social

Passado algum tempo Mueda passou a ser o nosso “mundo”, o espaço físico por onde nos movíamos de quartel em quartel, de caserna em caserna, de visitas periódicas à Base Aérea, para beber a cervejinha fresquinha, ver chegar e partir aviões militares, num passatempo que leva a mente para bem longe dali… o percurso entre o quartel e a base deveriam distar uns 2/3km. Foi nesta picada que pela primeira vez segurei num guiador, ao conduzir um Unimog, que o amigo Furriel Andrade, me impôs e meteu nas mãos. Que loucura e audácia ao pegar naquela máquina infernal, que deslizava a alta velocidade, cujas rodas rodavam encaixadas nas entranhas dos socalcos da picada, era como existissem carris. Pela primeira vez perdi o medo e dei azo à libertinagem irresponsável. Como sempre…tudo correu bem. Digamos que a partir daí foi geralmente sempre assim…

Nem tudo era guerra, procurava-mos levar uma vida normal dentro dos condicionalismos impostos, o jogo de cartas passaram a reinar e desde a sueca passando pelo king, lerpa e o 7/5 vieram para ficar e transformar-se em obsessão continuada. Os copos e uma boa patuscada, acompanhados por um fadinho, preenchiam também esse tempo. A prática desportiva passou a fazer parte da nossa vida e mais concretamente o futebol. Várias equipas foram criadas que jogavam entre si. Os jogos eram realizados durante o dia. A experiência dizia-nos que o “inimigo” não atacava entre as 09h da manhã e as 15h da tarde. A guerrilha gostava de atacar ao amanhecer/entardecer do dia. Sempre foi para mim uma incógnita esta estranha opção. Tiveram tantas e boas oportunidades não aproveitadas durante o dia. Eles lá saberão porquê…

Os fins-de-semana eram de tranquilidade militar quase certa, os guerrilheiros também teriam os seus fins-de-semana tranquilos, suponho. Aproveitávamos então para dar azo a certas extravagâncias, como vestirmos a melhor farda, visitarmos o aldeamento falando com os seus habitantes, assistirmos as batucadas festivas, como passearmos pela estrada que corria entre os correios (fechados) e Torre de Água, por aqui praticávamos a nossa condução com o patrocínio do Furriel Andrade, contavam-se histórias de vida, subíamos ao topo da Torre de Água, lá do cimo a vista panorâmica sobre o imenso e vasto vale de Miteda era fantástica, surreal até pela sua imensidão cheio de segredos ocultos, com uma linha de horizonte de um azul cintilante – transmitia-nos a sensação de podermos caminhar sobre as copas das árvores em tons e cores sem fim. A realidade era bem mais terrível e perigosa…neste imenso vale encontravam-se os militares da base Miteda.

Pela tardinha recolhíamos à flat 2, olhava-mos uns para outros e num encolher de ombros… o que fazer? Alguém sugere …canta Adolfo e, de voz forte e melodioso o Adolfo trauteia a cantiga do costume o ” fado do embuçado”, por algum tempo há o regresso à nostalgia…só ultrapassado por algum excesso de frescas cervejas numa boémia que termina pela noite dentro e nos conduz a outras paragens…

6.º O ataque

Certo dia pela manhã, não me recordo da data, estava eu de cama e nu (sempre tratado com enlevo pelo amigo Furriel Enf.º Eurico a um surto de micose entre pernas), estava um dia lindo com muito calor, de forma violenta e brutal ouvem-se rebentamentos de morteiros por todo o lado e alguns tiros, meio aturdido pelo inesperado do ataque, sou forçado a levantar-me, pego na G3 abro a porta e de arma em riste, coloco-me por detrás do muro de protecção fronteiro à flat e aguardo o que fazer. A resposta é dada através de vários disparos de obuses e de morteiros. Vejo soldados a correr em várias direcções, carros de combate saem pela porta de armas em direcção à base aérea, alguém grita… é do fundo da pista que a guerrilha atacou. Passados minutos, como o tempo debaixo de fogo é longo, o “inimigo” cala-se e abandona rapidamente o local. É o habitual. A pronta reacção é eficaz e incute-me confiança. Não dou um tiro. Regresso ao local de partida…quando dou por mim numa figura dantesca, nu de pernas abertas, arma na mão, entro, penduro-a à cabeceira da cama, deito-me… a normalidade regressa por mais algum tempo…

Felizmente nunca dei um tiro, outros deram por mim e muitos. A sorte de ter companheiros militares excelentes, audazes e valentes, contribuíram de sobremaneira para que eu e muitos outros tivéssemos passado por Mueda sem que sentíssemos na carne os horrores da guerra. Sentimos sim outros horrores…o isolamento, a chegada constante de feridos e mortos ao hospital, os ataques ao quartel, as insuficiências alimentares e as saudades familiares, alias, comuns a todos nós…

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