Aqui continua a transcrição deste Catálogo.
AVISO AO PÚBLICO POR CAUSA DOS CRÍTICOS E VICE-VERSA
De entre os três possíveis pontos de vista de não saber do Surrealismo, que são: a ignorância, a estupidez e a bem-pensância, este último, por óbvia carência, é menos usado pelos críticos de arte em Portugal. E, quando usado pelos dois possíveis críticos que ultrapassam o nível estereotipado da notícia jornalística, sempre ali se mistura, pelo menos, a ignorância necessária ao sossego próprio.
Daí vem o Aristotelismo (sabido ou não, negado até, à cautela) dos vários caminhos dessa bem-pensância, e as estranhas confusões, então ali adicionadas – o “Philosophus additua aartifici”, por conta de Croce, a “Arte de conteúdo”, por conta de Engels.
Quer isto em resumo dizer que os senhores espectadores desta Exposição terão que ter cuidado com as críticas que sobre a mesma venham a ler e nelas não deverão procurar respostas aos problemas que aqui se lhes possam levantar.
Também quer dizer que, ao mesmo propósito, os senhores críticos não deverão enganar, quer voluntária quer involuntariamente, os seus leitores, dizendo algumas das coisas que se seguem:
SÍMBOLO é a primeira delas e em face destas mulheres atravessadas por espadas, daquela mulher com um saco vermelho enfiado na cabeça, daqueloutra com asas – é bem compreensível que se seja logo atraído por tal termo. A partir da instrução primária destas coisas de Arte passa-se a usá-lo com frequência e êxito. Simplesmente, acontece que nada aqui êle tem a fazer – as asas ou o saco ou as espadas, em si, não simbolizam nada: são expressões poéticas, quer dizer involuntárias, quer dizer não representativas de uma ideia, quer dizer alógicas, quer dizer radicadas num imprevisto desejo subconsciente, quer dizer libertadoras, quer ainda dizer não nascidas de um apetite de beleza plástica.
Sobre ARTE ABSTRACTA (em vez de “não figurativa”) também algo se dirá. Não se acredite em tal: há quadros que representam um objecto e há quadros que são um objecto. Uns funcionam pelo que representam, outros funcionam em si. Não há outra distinção válida.
MENSAGEM, outro termo de sucesso, poderá ser admitido se se derem boas garantias de idoneidade na sua valorização, dentro do sentido preciso de “O que tem que se dizer, tem muita força”.
MISTÉRIO já é uma palavra de boa vontade. Mas cuidado! Ao mistério dos ambientes românticos e “symbolistes”, é a maravilhazinha mística, opõe-se a Maravilha dos acasos Surrealistas.
Depois, haverá toda a boa vontade dos que compreendem a “coisa” imparcialmente – Freud aqui, Dadaismo para acolá, sonambulismo, paranoia, um pouco de história, todo o ar de lição aprendida com Maurice Nadeau e arrumada em prateleiras piores ainda. Não são de aceitar pelos leitores tais erudições empasteladas e confusas, fora da vida do Surrealismo, alheias a uma Exposição que está qui e que como Exposição livremente funciona.
A par desta boa vontade há a outra má vontade. É a daqueles que também leram ou não o Nadeau mas que tinham lá em casa outras prateleiras. Dali virão as acusações de: ultrapassado, nihilismo, reacçao, falta de consciência do mundo, etc. São inteiramente de analizar tais acusações, mediante certas perguntas honestamente fundamentais: 1) – Conhece mesmo os manifestos de Breton? Com certeza? 2) – O que leu de Sade, e de Engels, e de Freud? 3) – Leu “Les Foyers d’Incedie” de Calas? 4) – Viu, folheou ou leu: “La Révolution Surréaliste », « Le Surréalisme au Service de la Révolution », « Minotaure » ? Marque-se um ponto por cada resposta satisfatória e só se contar nove ao fim, valerá a pena saber que tais acusações existem.
Outros termos empregáveis são ingenuamente vagos, conforme o vocabulário escolhido que se passa a oferecer: iconoclastas, disparate, jovens, mau gosto, irreverentes. Ocioso, gratuidade, extravagante, originalidade, pretensão, teoria das imagens frustradas, etc. Outros serão termos de caricatura – os jornais próprios os empregarão com a troça requerida.
Num outro plano, vêm as apreciações da Técnica, – a do desenho, a da luz, a da cor. Serão justas ou não, discutíveis, é claro. Deste ponto de vista, a pintura surrealista pode ser ou não ser um beco sem saída. Depende dos seus pintores.
Simplesmente, note-se que não foi por acaso que se misturaram na Exposição os óleos com os objectos, com as colagens com os desenhos, com os poemas. É que, pintores ou não os autores de óleos, (e aqui pode dizer que, por exemplo, o “Pic-Nic” – Nº 40 – não tem nada a ver com “Déjeuner sur l’herbe” de Manet) na Expposição, todos os expositores funcionam como poetas Surrealistas – com a sua libertação, com a sua excitação, com as suas intenções, com o seu choque.
Choque – exactamente choque.
Donde, o termo possível “EPATER”. Antes do seu emprego, reivindicamo-lo nós. Entre outras coisas, está exactamente nas nossas intenções, “épater” os senhores espectadores – tirar-lhes as santas quietações da sua vida serena, farta e respeitável de público da burguesia. Não lhe damos o gosto de lhes pendurar, nas suas casas de rendas caras, paisagens com boisinhos estilizados ou imagens de meninos famélicos para que sirvam de exemplos estéticos ou morais a imbecilidade consequente dos seus filhos. Outrossim, está bem nas nossas intensões procurar que os raros espectadores que não entraram ainda nessa burguesia quieta, não desejam vir a ter nas suas paredes os mesmos meninos esfomeados que agora são os seus filhos e amanha sejam os dos outros.
E há ainda o mais importante – de que não é uso falarem os críticos de arte: o gozo que nos deu fazer estas coisas. Saberão os senhores espectadores e os senhores críticos, da profunda seriedade que é este gozo? O que ele representa de liberdade, quer dizer, de alegria, quer dizer de consciência do mundo, quer dizer de responsabilidade, quer dizer de acção?
Fica pois este aviso – para que os senhores críticos evitem as palavras usuais ao seu métier de críticos, aqui provadamente descabidas, e para que os senhores espectadores, de antemão delas informadas, melhor desconfiem, se quiserem.
Haverá, é claro, a possível atitude de silêncio dos críticos – o que evita tudo o mais, e que copia, dez anos depois, o que, entre as duas guerras, se fez e França. Também nessa atitude se não deve acreditar.
Janeiro de 1949
JOSÉ AUGUSTO FRANÇA

