HOMENAGEM AOS CAÍDOS EM COMBATE – LEVANTAMENTO DO CERCO DE LISBOA – por César Príncipe

De pé, da esquerda para a direita: Conde de Sabugosa, Carlos Lima Mayer, Carlos Lobo de Ávila, Oliveira Martins, Marquês de Soveral, Guerra Junqueiro, Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Conde de Ficalho e António Cândido.

Do séc. XII ao séc. XVIII,   o ensino era de matriz eclesiástica e monástica, confinado a servidores da   aparelhagem religiosa e alguns membros da Fidalguia e da Corte. Fora deste   circuito, a formação era ministrada nas oficinas. Mestres de humanidades,   geógrafos, cartógrafos, matemáticos, astrónomos, riscadores, pintores,   tabeliães, médicos – eram tidos e tratados como auxiliares dos formalismos do   Poder (letrados) ou peças de substituição das máquinas da Igreja e do Estado   e das suas emblemáticas (ofícios práticos e mecânicos), implicados na difusão   da Fé, na consolidação da Realeza ou da Aristocracia, na glorificação dos   Vultos da Nacionalidade ou da Ocupação, no enaltecimento das Instituições e   Empresas do Reino. Apenas alguns poetas, dramaturgos e cronistas, cientistas   e artistas lograram certo grau de autonomia. Quanto ao grosso da Nobreza, era   ignorante como a plebe. Por herdada convicção e ociosa vocação, entendia não   precisar de aprender a granjear o sustento: dispensava saber ler e escrever   como evitava conspurcar-se ou vulgarizar-se a trabalhar. Bastava-lhe saber   recontar as rendas e as pernadas ou bater-se, sob auspiciosos pendões, para   dividir saques e servos. Desde a Fundação, não faltaram reis de fero e fraco   trono e bispos da cruz ou das coisas aprazíveis, traidores de estirpe, heróis   de estátua e descobridores de além-mar – com um traço comum: orgulhosamente   acompanhados e manifestamente analfabetos.

Terramoto anti-jesuítico

No séc. XVIII, o Marquês de Pombal terminou com o monopólio dos Jesuítas no   ensino que, embora limitado em discípulos e matérias, adestrava quadros   religiosos, políticos, administrativos e diplomáticos. Apeado o Marquês, o   revanchismo conservador liquidou a base iluminista (laica e burguesa),   esboçada na Escola dos Nobres. O remanescente e incipiente parque   escolar foi confiado a uma Direcção-Geral de Estudos. Impôs-se, então,   o Verdadeiro Método de Não Estudar. No séc. XIX (1870), foi criado o Ministério   dos Negócios da Instrução Pública. Duraram um ano os negócios da   pasta. Ficou tudo mais ou menos como no tempo da Junta Directiva. Segue-se o Ministério   da Instrução Pública, cujo nome vigorou do séc. XIX ao séc. XX,   atravessando a Monarquia, a República e o Fascismo.

Escolaridade Precária e Intermitente

No último terço da Monarquia, registou-se uma expansão (modesta) de   equipamentos e do portfólio curricular, coincidindo com o surto   desenvolvimentista-fontista. Com a República, esboça-se uma primeira   cobertura territorial e social do ensino (1910-1926). Implantada a ditadura   militar-salazarista (1926), foram encerradas centenas de escolas de vários   graus e foi arrumada e caluniada uma legião de professores. Em 1936, ano de   nacionalismos exacerbados, a tutela passou a denominar-se Ministério da   Educação Nacional. O regime, para uns, corporativo e autoritário, para   outros, fascista e reaccionário, foi ampliando a rede e segmentando e   formatando os conteúdos conforme as exigências do condicionamento industrial   e da administração luso-imperial. Dentro deste objectivo, jamais descurou o   controlo (principalmente das populações rurais, operárias, coloniais),   dificultando-lhes a frequência pós-primária ou primária por carência de   instalações, transportes e meios pecuniários. Igualmente cuidou de concentrar   os estudos superiores em cidadelas universitárias, ao mesmo tempo que   censurava os conteúdos das classes médias-altas.

Depois do Livro Único

Com a Revolução de 1974, a tutela poupou pompas e palavras. A sede   burocrática e programática dos vários ciclos de aprendizagem adoptou o simplex:   Ministério da Educação. Durante o primeiro período do novo regime,   acatando a legitimidade revolucionária e as reivindicações nacionais,   regionais e locais, processou-se a maior transformação democrática da   História do Ensino em Portugal (primário, básico, secundário, politécnico,   superior). Todo o país beneficiou de redes de ensino diversificado e de   proximidade. Massificou-se o acesso e especializaram-se as competências,   sendo constituído, para regulação de rotinas e choques de interesses, uma   quadratura interactiva ou célula residencial de professores, alunos,   funcionários, encarregados de educação. Este paradigma organizacional e   paritário tem vindo a ser subvertido e desautorizado. Os programadores   governamentais têm, de ano para ano, acentuado a desactivação de estruturas,   o esvaziamento de órgãos internos, a desmotivação da docência, o desemprego   massivo e selectivo. Desde o séc. XIX que, por regra, o rompimento com o   sistema e a mudança de padrão têm ocorrido ao compasso das viragens e   clivagens de regime. Pelos indicadores ao alcance de qualquer investigador,   nunca a perversão e inversão de protótipo foi, como hoje, tão rupturante,   excludente e desfigurante dentro do mesmo quadro institucional e figurino   constitucional. O ensino deixou de ser a solução. Passou a ser o problema.   Exaltado como paixão em spots eleitorais e nos apertos   sindicais, depressa é enjeitado. Fechar ou desorçamentar escolas   recomendáveis, deixar abrir faculdades-fantasma, homologar cursos sem saída,   subfinanciar actividades e serviços, aumentar propinas, precarizar colocações   e comprimir remunerações, desesperar docentes, não dar esperança aos   discentes – eis o Apocalipse do Magistério: o estudo como área de negócio, a   instrução como assunto privado, a educação como ornamentação classista. A   Nova Política do Espírito em acção.

Yes, Mister Director

A angústia existencial de muitos professores (os que ainda conservam o posto   de trabalho) radica na situação de desencanto relativamente à política ou   polícia educativa:   por um lado, há quem tente manter a sua missão em   parâmetros científico-didácticos e de dignidade socioprofissional, defendendo   a quadratura de diálogo; por outro lado, alguns agentes do Poder Central, da   confiança do Poder e pelo Poder incentivados e resguardados, foram e vão   usurpando espaço de representação e consenso. Assim, retomam as rédeas e os   tiques de antigos reitores ou directores, marcando os que não se   amoldem à Nova Ordem Escolar ou do Senhor Director, que desprovido de   Autoridade Pedagógica e de Escrutínio da Comunidade se refugia e escuda em   argumentos e procedimentos de Autoridade Policial. Já se apontam casos de   montagem de câmaras de vigilância nas horas activas, por certo mais   tecnologicamente avançadas e fiáveis do que os bufos.

Cântico de Régio

Perante o estado de sítio imposto nalgumas escolas, tornadas lugares de   humilhação e confronto, decepção e desconfiança, intriga e incerteza,   factores educativos, a que se somam a sobrecarga de tarefas e o caos   legislativo e regulamentar, assumir o regiano sei que não vou por aí redunda   num preço de carreira e em danos de personalidade. Mas um não consciente e animoso   supera um sim inconsciente e temeroso. Compreender-se-á, em sede lectiva, o   cunho galhardo e camoniano da sentença. É que, efectuado um balanço (crítico   e cívico) de séculos de esforço para ilustrar a Grei, eis o momento para uma   petição on-line, a enviar ao n.º 107 da Avenida 5 de Outubro, Lisboa.

MINISTÉRIO   DOS NEGÓCIOS DA EDUCAÇÃO

A   partir da recepção desta carta, sufragada por mais de 100 mil professores e   milhões de portugueses, queira Esse Ministério, que tem em marcha acelerada   um Plano Anti-Escola Pública (economicista, elitista, dirigista e   centralista), mudar o nome da instituição, de forma a harmonizar a cara com a   careta, aclarando, com objectividade e frontalidade, o ponto a que chegou o   estado da Educação e a educação do Estado. Para tal, fomos buscar inspiração   ao ano de 1870, data do Primeiro Ministério e marco desalentador da Geração   de 70 ou dos Vencidos da Vida. Não divisamos nome mais ajustado e   avisado do que o acima proposto.

Nova Geração   de 70 

 No arranque   do Novo Ano Lectivo e em defesa da Comunidade Escolar (submetida a pressões e   a depressões) e realmente A Bem da Nação (ainda não vencida, mas   enfraquecida), o Grupo dos 11, de novo, se reuniu, num estabelecimento da   capital, desta vez, para mais do que jantar e fazer a digestão,   verdadeiramente indignado com os rumos da Pátria e os roubos dos apátridas,   francamente desiludido com o Rey e o Seu Governo, decididamente apostado em   repor os Ideais da Geração de 70 do Séc. XX ou da Revolução de 25 de Abril,   tomando por exemplo a Revolução de Avis. Aqui e deste modo se firma e   reafirma a vontade de contribuir para a Reposição da Democracia da   Inteligência e da Decência, no dia em que também quisemos assinalar o   levantamento do Cerco de Lisboa pelos castelhanos, vencidos pela tenacidade   dos sitiados e convencidos pela peste negra. Como se lembrará, corria e   decorria o três de Setembro de mil e trezentos e oitenta e quatro, conforme   as Crónicas de Fernão. Entretanto, soubemos de várias fontes que os   castelhanos também mudaram de nome, agora se intitulando de troikanos, mas o   assédio é idêntico, vendo-se até, entre as hostes do inimigo, como na antiga   luta pela independência e pela soberania, quem deveria acautelar as muralhas.   Todos nos levantamos do chão sepulcral, a fim de ajudar a repelir o cerco dos   homens da pasta negra. Então, o Mestre apunhalou o conde Andeiro e o povo   defenestrou o bispo Martinho. Para que se divulgue nas Portas de Cidade e   conste no seio da arraia-miúda:

António Cândido
Carlos Lobo de Ávila
Carlos Mayer
Conde de Arnoso
Conde de Ficalho
Conde de Sabugosa
Eça de Queirós
Guerra Junqueiro
Marquês de Soveral
Oliveira Martins
Ramalho Ortigão

Hotel Braganza, 03/09/2012.