Um Café na Internet
Ilustração: quadro de Dorindo Carvalho
Era noite, mas não fazia silêncio.
Como poderia? A humidade quente misturava-se com o odor a suor emanado pelos corpos negros deitados, e os irmãos mais pequenos – aqueles que não tinham ainda dentes – inquietavam-se numa desarmoniosa e infinita sinfonia.
Makena também não dormia. Não que lhe faltassem dentes – excetuando um ou outro buraco, orgulhava-se já de um grande (desmedido, mesmo) sorriso branco.
De olhos bem abertos na densa escuridão, Makena olhava a Lua, acordado, mas não porque se sentisse incomodado com o cheiro. Nem tanto pela constante barulheira que o rodeava. Para dizer a verdade, essas eram das poucas coisas capazes de despertar nele a sensação de conforto; o aconchego de ter um lar; a consciência do amor incondicional entre ele e todos os irmãos.
Ainda assim, Makena não dormia; olhava a Lua.
Na sua cabeça, ecoavam gritos, mas não eram de incómodo: antes de desespero. A lembrança de, numa noite semelhante àquela, os homens de capacete, entrando pela porta débil daquela que havia sido, outrora, a sua casa. A recordação de o expulsarem como um cão daquilo que era seu, minutos após terem arrancado as roupas da mãe à força, espancando-a até ao último suspiro; até à última lágrima; até ao último grito.
Thabo, seu irmão de sangue, mais velho, dissera que se tratavam dos mesmos homens que haviam levado o papá algumas colheitas antes, prendendo-o num lugar de onde as pessoas não voltavam. Era, pois, o que acontecia aos que se atreviam a pensar de maneira diferente.
Makena estremeceu e voltou à realidade. A hipótese dos seus pensamentos não serem livres assustava-o. Não tinha a certeza se lhe era permitido pensar em tudo o que pensava.
Contudo, Thabo, que ao contrário de papá sempre respeitara as regras impostas pelos senhores do bolso grande, tinha também sido levado pelos mesmos sujeitos. Algumas semanas após terem encontrado um novo lar junto de centenas de irmãos negros, os homens do capacete haviam regressado sem aviso, colocando uma arma comprida nas mãos de Thabo, num ato que quebrava, irreparavelmente, o único laço que ainda ligava a família dos dois.
Makena suspirou só para si, quase que imperceptivelmente.
Todavia, as imagens do passado não cessavam de fluir, formando-se e dissipando-se no ar abafado, a não mais de duas dúzias de centímetros do seu nariz. A memória de, nos tempos em que papá trabalhava na terra de dia e mamã fazia a sopa de noite, o professor de pele branca o ensinar a escrever o seu nome, tal qual as pessoas do bolso grande faziam.
Makena ainda se lembrava de como era – praticava todas as noites, antes de ir dormir, no chão, com as unhas. De facto, lembrava-se de tudo.
O professor sabia coisas que chegavam para encher um livro grande, talvez dois.
Dissera-lhe uma vez que éramos feitos com os mesmos ingredientes com que se faziam as estrelas: estávamos apenas misturados de forma diferente.
Era fascinante.
Makena perguntava-se se, tal e qual as estrelas, também ele brilhava ao luar. Se lá ao longe, numa outra zona do mapa, as crianças das casas feitas de tijolo o conseguiam ver; se sabiam que ele estava ali…
E a Lua! Aquela Lua para a qual ele olhava – sim, essa mesma! – podia ser vista por qualquer irmão, em qualquer parte do mundo! E mais: permanecia naquele local, lá no cimo do céu impenetrável, como que imóvel, desde o tempo em que as vovós ainda nem dentes tinham! Talvez até antes!
No entanto, Makena não deixava de se perguntar se todos os Homens a veriam da mesma maneira.
E a resposta aparecia-lhe como uma imposição: claro que não.
Se vissem a Lua tal e qual ele a via, os avós não teriam morrido pela independência; o papá não teria sido preso em nome da liberdade; e os senhores do bolso grande: esses não fariam chorar nem mais um irmão.
Porque o que é facto é que Makena via os seus irmãos lutarem hoje por aqueles direitos que pretendiam ter alcançado com a independência. O contexto mudara, mas as razões eram as mesmas: a injustiça da desigualdade entre os irmãos que detinham moedas em abundância, e aqueles que chegavam a casa famintos, acordando na manhã seguinte sem trabalho nem rendimento; entre aqueles que estavam determinados em manter os seus privilégios e poder a todo o custo (mesmo derramando sangue para esse efeito) e aqueles que não exigiam mais do que respeito pelos seus direitos como humanos.
Sentiu-se pateta por colocar, sequer, a hipótese. Claro que a Lua, sendo a mesma, não era igual. E não o seria – pelo menos enquanto nem todos entendessem que os países eram linhas abstratas, dividindo um único planeta; as raças não passavam de cores que pintavam a espécie humana, as equipas de camisolas diferentes, usadas por quem jogava o mesmo jogo.
Não; Ela não era igual, e não o seria, até que cada homem no globo jurasse – como ele, Makena, rapaz já com dentes, o fizera – não trair o seu planeta, honrar a sua raça, jogar até ao último grito.
Era noite, mas não fazia silêncio.
Marta Xavier


