EM COMBATE – 175 – por José Brandão

Homenagem obrigatória

Quando um dia destes vasculhava, uma vez mais, no meu Baú das Lembranças, deparei com uma espécie de folha de papel, já gasta e amarelecida pelo tempo, com anotações ainda muito visíveis, que me deixaram durante largo tempo a olhar de olhos fechados para uma distância de aproximadamente 12 mil km e de 40 anos. Essas simples notas têm só o valor de que foram escrevinhadas praticamente na hora dos fatídicos acontecimentos, assim a modos como os repórteres de guerra. Vou copiá-las para aqui, tal e qual eu as escrevi na época, com a mesma necessidade e o mesmo sentir e pesar:

5 Maio 69Morreram Sarg. Carvalhito e o Furriel Santos. Emboscada que NT sofreram na Cantina do Belo, picada entre Catur e Lione, perto do célebre Caracol.

21 Junho 69 – Desastre do Zambeze, morreram os soldados Vitorino e o Cantoneiro.

23 Junho 69 Ataque ao destacamento de Luatize às 18h35, que durou cerca de 15 minutos. Morreu o 1º cabo Marcelino.

11 Outubro 69 – Emboscada à nossa coluna na picada Nova Viseu, quando vínhamos para Tenente Valadim. Eram cerca das 8 horas da manhã. Tivemos 1 morto, o 1º cabo Rodrigues e 5 feridos graves.

30 Outubro 69 – Quando NT picavam a picada até Luatize e a cerca de 25 km de Valadim, rebentou uma mina na ultima viatura um Unimog a gasolina, onde morreram os soldados Peniche e Corado e ainda um enfermeiro da CCS do Batalhão. Nessa mina ficaram bastante feridos mais 4 camaradas, entre eles o meu amigo Moreira, radiotelegrafista, que ficou todo queimado.

Como atrás disse, jamais deixarei a perplexidade. Com a maturidade que a idade nos dá, olho agora com outros olhos e outra mentalidade, estes fatídicos acontecimentos e interrogo-me: Porquê? Quem é que fez mal e a quem para merecer o pior dos castigos?

E a única resposta que consigo encontrar é que morreram 8 seres humanos, jovens, sem qualquer culpa formada, no simples espaço de 6 meses.

Por acaso, alguém já pensou que também poderíamos fazer parte desta lista?

Publicada por Américo Artur Castro

PALÁCIO DO GOVERNO EM LIONE

A propósito da referência do amigo Paulo à Cantina do Belo (estrada do Caracol), lembro-me da minha primeira “aventura” à séria, precisamente uma ida ao Catur e que é assim:

Após a chegada a Lione, poucos dias depois o nosso capitão enviou  ao nosso Batalhão no Catur algum pessoal  numa “Berliet”, fazendo eu parte da comitiva. A minha missão era algo “difícil”, tipo 007, pois levava, numa pasta preta  bem encostada ao peito, documentos “top secret” para a troca.

A minha cabeça fervilhava ao lembrar todas aquelas “patranhas” com que nos amedrontavam na Trafaria: “Códigos desaparecidos é guerra perdida”! E, por isso, não deixava de pensar na eventualidade dum confronto com os “turras”  e  estes levarem-me a mim e aos  secretíssimos códigos!

Para defesa pessoal foi-me distribuída uma FBP (um dia contarei como o cano se dilatou) que mal sabia manejar!

Ao abrigo de sermos “checas”, e porque ainda se encontravam a dar as últimas em Lione, a fim de nos darem protecção, a anterior Companhia decidiu enviar alguns, muito poucos, “velhinhos” numa viatura mais ligeira, que agora não me lembro qual. Talvez  “Unimog”?

E lá fomos nós enfrentar a picada. Os nossos paizinhos “rambos” até à zona do Caracol ainda tiveram a paciência q.b. em nos acompanhar naquela velocidade de caracoleta imposta por quem ainda era “medroso”. Mas, a partir daí piraram-se e deixámos de os ter na mira.

Eis, senão quando, os nossos ouvidos apuradíssimos, apesar do roncar da “Berliet” ouvem um tiro e, ainda por cima, com aquela enorme experiência de quem já tinha 3 ou 4 dias de guerra, alguém entendeu que o estampido escutado por nós todos,  não era nada parecido ao da companheira G3, mais se assemelhando ao da inimiga “kalashnikov”.  Isto é que era experiência, digo eu, agora!

Meus senhores, aconteceu o pânico. A “Berliet” foi direitinha afocinhar na berma da picada. A debandada foi geral, o pessoal espalhou-se, ainda vi alguns a correr (qual rastejar?) por entre o primeiro arvoredo ali mais à mão! E quanto a mim? Perguntam os meus amigos. Pois é, o “meducho” levou-me a saltar da viatura e esconder-me no pior sítio, precisamente debaixo da viatura, atrás dum pneu, julgando que era o melhor que tinha por perto.

Foi “fogachada” até dizer mais não! Se, por acaso, houvesse inimigos à vista, tínhamos lhes pegado um “cagaço” do caraças!

Entretanto, passado pouco tempo, surgem os “rambos protectores” que a alta velocidade fizeram meia volta, assim que começaram a ouvir, lá ao longe,  tanta guerra duma vez só! E, espantados e curiosos ainda nos encontraram bem “acachapados” no terreno à espera vá-se lá saber de quê!

Eu, ainda bem entrincheirado com o pneu e sem largar o “tesouro” e com a FBP bem agarrada mas que não serviu para coisa alguma!

Lembro-me de me chamarem a atenção de nunca por nunca, em casos idênticos, me esconder debaixo ou próximo duma viatura  pois, normalmente,  o inimigo tinha tendência de mandar “morteirada” ou qualquer coisa pesada contra as ditas.

Sabem, afinal, a proveniência daquele tiro que originou aquela guerra? Foi alguém dos “velhinhos” que na viatura mais à frente se lembrou de puxar da “Walter”, à cintura, e disparar para o ar demonstrando, assim, a satisfação do regresso à “peluda” e à metrópole.

Foi o meu baptismo e a minha primeira lição de guerra mas a sério.  Na Trafaria ensinavam outras guerras que não aquelas!

Publicada por Américo Artur Castro

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