Mudam-se os tempos, mudam-se as utilidades, mantêm-se fidelidades que vão muito para lá de coisas que, embora muito apregoadas são, no fundo, de somenos importância como direitos humanos, paz, democracia, liberdade de opinião, respeito pelas minorias, etc. etc.
Vejamos o caso da Turquia. Não chegará bem ao caso de impunidade de Israel mas, faça o que fizer, está a salvo de uma qualquer efetiva condenação internacional, livre de resoluções sentenciadoras, imune a ameaças de quem tem o direito de ameaçar.
Foi assim nos tempos das sinistras ditaduras miliares; é assim na actualidade quando, ao fim de complicados ajustamentos internos, os islamitas e os militares lá se entenderam para uma convivência que serve os interesses dos dois e, sobretudo, da NATO. Para que a ordem imperial se mantenha vigilante, e atuante, olhando e ditando dali para o teatro de operações do Médio Oriente.
Noutros tempos, enquanto Reagan pregava os direitos humanos treinando e pagando “combatentes da liberdade” em vários continentes, ainda que fossem combatentes da atrocidade, a ditadura militar turca fazia de polícia da NATO perante a União Soviética, naturalmente em nome da democracia e, já então, como sempre, em nome do mercado.
Agora, quando esplendorosas democracias como a Arábia Saudita, o Qatar, a nova Líbia, é verdade, alimentam a guerra civil e espalham a morte na Síria para trocar o regime existente pelo seu regime, lá está a Turquia islamo-militar e sunita, que com alguma razão alguns já qualificam como neo-otomana. Na base aérea de Incirlik, que há décadas a NATO utiliza em território turco, que serviu e serve de apoio fulcral às agressões do Iraque e do Afeganistão, reúnem-se lotes de armas, concentram-se, treinam-se e pagam-se contingentes de mercenários, muitos deles também motivados pelo extremismo islâmico, para depois injetar toda essa mistura explosiva em território sírio.
Além disso, lá está ainda a Turquia, fiel como sempre, oferecendo os seus préstimos a Washington, e também a Israel, umas vezes mais outras vezes menos abertamente, para manter a rédea curta ao terrível, ameaçador e xiita Irão.
Em troca desta disponibilidade e de tanta dedicação pode a Turquia, quando lhe convém, entrar pelo território do Iraque para caçar militantes curdos que lutam pela dignidade de serem quem são, mesmo sendo minoria. A força aérea turca pode fazer as suas incursões de espionagem na Síria porque sabe ter a impunidade garantida, como se verificou no pino do Verão quando a NATO falou grosso, pelo seu secretário geral, ameaçando Damasco por se ter defendido de um ataque espião turco.
Tudo isto se passa, não é preciso recordá-lo, em nome da democracia. A Turquia é um país do mundo livre, pelo menos com os mesmos direitos e mordomias de outros devotados regimes democráticos como os que têm vindo a ser elencados nestas linhas.
Por isso o mundo assiste, impávido e sereno, de consciência limpa, ao julgamento de mais de 40 jornalistas de nacionalidade turca e origem curda que arriscam penas entre 15 anos e mais de 22 anos de cadeia por escreverem e falarem em órgãos de comunicação onde defendem os direitos da minoria curda e na língua curda, imagine-se. A língua materna que não podem usar para se defender nos tribunais do seu país que os vão condenar por praticarem a liberdade de opinião associados “a terroristas”, como dita a acusação.
A minoria curda representa mais de 15 por cento da população da Turquia mas, na prática, é perseguida através de um segregacionismo oficial que os Estados Unidos e a União Europeia muito bem conhecem, mas sem dele tomarem conhecimento.
Em tudo isto não há qualquer inconveniente a notar; desde que seja a bem da democracia…
