Bem sei que é apenas um cumprimento convencional que não pede uma resposta à interrogação mas quando, agora, me dizem “Tudo bem?” tenho ganas de o levar à letra e responder “Não, tudo mal. Como é sequer possível perguntar se está tudo bem e não esperar um grito como resposta?”.
Ouvido primeiro o primeiro de jure (de juras não, isso já vimos que não, afinal Pinóquios há muitos) seguido do segundo, primeiro de facto, se me perguntam “como estás?” digo estou de Alberto Pimenta.
Portanto, como é de moda dizer, partilho uma parte do seu Discurso (mas leiam o livro inteiro que merece). Segue.
Pedro Godinho
Discurso sobre o filho-da-puta, de Alberto Pimenta
(1ª edição, Teorema, Lisboa 1977; 6ª edição, Teorema, Lisboa 2000)
BALADA DITIRÂMBICA DO PEQUENO E
DO GRANDE FILHO-DA-PUTA
I
o pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que nascem
grandes
e filhos-da-puta
que nascem
pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem
uma
pequena
visão das coisas
e mostra em tudo quanto faz
e diz que é mesmo
o pequeno filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o pequeno filho-da-puta.
todos
os grandes filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os
grandes filhos-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequeno
filho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja, o pequeno filho-da-puta.
II
o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir um dia a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem
grandes
e
filhos-da-puta
que nascem
pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande
filho-da-puta
tem
uma grande
visão das coisas
e mostra em tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso,
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta,
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.

«Pois quem teria imaginação suficiente para aventar ou inventar tantas e tais variedades de filho-da-puta caso ele não existisse? Não! O filho-da-puta existe. Em todos os lugares excepto no dicionário.» AP
«É óbvio que o lugar que o filho-da-puta ocupa é muito importante para o definir, pois quase sempre o filho-da-puta ocupa o lugar que melhor lhe assenta, e conforme o lugar que ocupa, assim o filho-da-puta se comporta.» AP
«Nem todos os lugares podem ser de top, embora todos sejam de pote (ou tacho).» AP
«O que acontece é que todo o filho-da-puta, sem negar a sua raça nem perder a sua graça, se organiza em partes e partidos mutuamente complementados para poder ter um pé aqui e outro ali, e a cabeça nos dois: digamos que partidos à partida opostos se juntam na mesma sociedade, e sociedades diversas no mesmo partido.» AP
«Há filhos-da-puta vocacionados para fazer e filhos-da-puta vocacionados para não deixar fazer, e estes (desde já se pode afirmá-lo) são os dois tipos universais e eternos do filho-da-puta.» AP
É um grande livro este, é mesmo.
Ainda há mais, vou pondo aos poucos.
Atã, na havera d’haveri? Os filhos da puta são tão férteis!
«É longa, muito longa, a lista do que pode fazer um filho-da-puta especializado em fazer: desde normas e adendas e emendas de formas, até decretos oblíquos.» AP
«Pode naturalmente dizer-se que ser filho-da-puta significa primariamente tentar acumular o máximo possível de vantagens, préstimos, privilégios, etc., e que talvez esta tentativa de acumulação à custa dos outros comece por ser um modo de compensar o sacrifício que ele, filho-da-puta, acha que a vida é e deve ser. Talvez!» AP
«O lema do filho-da-puta é amar a humanidade em geral e odiar toda a gente em particular.» AP
O que me chateia é que alguém me gamou esse livro 🙂
«Se o filho-da-puta precisa de comprar o trabalho de alguém, e para isso põe um anúncio, não pede um trabalhador, não diz que precisa, diz que aceita um trabalhador, que aceita o trabalho de alguém: “aceita-se trabalhador”, dizem então todos os filhos-da-puta, e com isto já estão rebaixando o trabalho de que precisam e que dizem aceitar.» AP
«De manhã à noite, e de noite até de manhã, o filho-da-puta nunca se esquece de que é filho-da-puta; nomeadamente tem quem se ocupe das suas coisas pessoais e quotidianas, de modo que fica com o tempo e a disposição livres para as suas ocupações de filho-da-puta.» AP
«Nada atrai mais o filho-da-puta, nada o consola tanto como o relato da doença ou da crise que assola os outros.» AP
«Hoje o filho-da-puta conduz subtilmente à greve de fome aqueles que outrora executava publicamente, o filho-da-puta em tempos chamava escravos aos que hoje chama emigrantes.» AP
«O filho-da-puta, já sabemos, está em todos os lugares, mas tem hábitos e modos diversos, conforme o sítio em que se encontra.» AP
«O filho-da-puta é sempre aquilo que os outros filhos-da-puta do momento e do lugar são; é porque é isso que “convém” ser, e portanto é isso que ele é.» AP
«O filho-da-puta insere-se sempre no processo em curso, qualquer que ele seja, e esse é mais um traço distintivo do filho-da-puta. O filho-da-puta colabora, e está sempre no vento, sempre na maré, sempre na onda. O filho-da-puta é sempre no mais alto grau possível aquilo que “convém” ser no lugar e no momento em que vive.» AP