Amedeo Modigliani – Anna Akhmátova

(pintura de Olga Della-Vos-Kardovskaya, 1914)

(tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

Quero acreditar naqueles que o descrevem de modo diferente do meu, e isto pelas razões que se seguem. Em primeiro lugar, talvez tenha conhecido apenas uma qualquer faceta da sua per­sonalidade (o lado luminoso) — é que eu era simplesmente uma mulher na casa dos vinte anos, estrangeira, desconhecida e, por meu lado, possivelmente pouco transparente; em segundo lugar, eu própria notei que se operara nele uma grande mudança quan­do nos voltámos a encontrar em 1911. Como que ensombrecera, tinham-se-lhe cavado as faces.

Em 1910 vi-o muito poucas vezes. Apesar disso, todo esse In­verno ele me mandou cartas *. Não me dissera que escrevia poesias.

Ao que parece, nem eu nem ele compreendíamos o essencial: tudo o que acontecia era para ambos a pré-história das nossas vi­das: da dele — muito curta, e da minha — muito longa. O háli­to da arte ainda não carbonizara, ainda não transformara as nos­sas existências, aquela era, talvez, a leve e clara hora da alvora­da. Mas o futuro que, como é sabido, lança a sua sombra muito antes de entrar, batia à janela, escondia-se atrás dos lampiões, atravessava-nos os sonhos e assustava-nos com a terrível Paris de Baudelaire, escondida algures por perto. Tudo o que era divino em Modigliani apenas cintilava através das trevas. Não se pa­recia com ninguém no mundo. A sua voz ficou-me para sempre na memória. Conheci-o na miséria, e não podia compreender do que vivia. Como pintor, nem por sombras granjeara qualquer re­conhecimento.

Modigliani vivia então no Impasse Falguière. Era tão pobre que, no Jardim do Luxemburgo, nos sentávamos sempre nos bancos e não nas cadeiras pagas como era devido. Em geral, não se queixava da sua evidente pobreza, nem da não menos eviden­te falta de reconhecimento. Apenas uma vez, em 1911. me disse que no Inverno anterior estivera tão mal que nem conseguia pensar no que lhe era mais querido.

Parecia-me cingido pelo anel apertado da solidão. Não me lembro de o ver saudar ninguém no Jardim do Luxemburgo ou no Bairro Latino, onde toda a gente mais ou menos se conhecia. Nunca o ouvi mencionar qualquer nome de conhecido ou amigo, ou de qualquer pintor, nem da boca dele ouvi qualquer piada. Nenhuma vez o vi bêbado, ou a cheirar a vinho. Pelos vistos, te­rá começado a beber mais tarde, mas o haxixe, de certa maneira, já figurava nas histórias que contava. Aparentemente, na altura também não tinha namorada. Nunca falava do seu namoro ante­rior (o que, hélas, todos fazem). Comigo não conversava de na­da que fosse terreno. Era cortês, de uma cortesia que não lhe vi­nha da educação de família mas da elevação de espírito.

Nesses tempos dedicava-se à escultura, que praticava num pá­tio ao lado do seu atelier: no beco deserto ouvia-se o bater do seu martelinho. As paredes do atelier estavam cobertas de retratos de uma altura incrível (como me parece hoje, chegavam do chão ao tecto). Nunca vi em lado nenhum reproduções desses retratos — não sei se sobreviveram. Chamou à sua peça de escultura la chose — foi exibida, salvo erro, no Salon des Indépendants em 1911. Pediu-me que fosse ver a exposição mas, lá dentro, não se aproximou de mim porque eu não estava sozinha mas com ami­gos. Entre as minhas coisas desaparecidas, perdeu-se também uma fotografia dessa chose, que ele me oferecera.

Na altura, Modigliani tinha a mania do Egipto. Levava-me ao Louvre para ver a secção egípcia, assegurando que tudo o resto (tout le reste) não merecia atenção. Desenhava a minha cabeça com enfeites de rainhas e bailarinas egípcias e parecia completamente enlevado pela grande arte do Egipto. O Egipto foi, de­certo, a sua última paixão. Muito depressa se tornou tão singular que não podíamos associar as telas dele com nada. Hoje, este pe­ríodo de Modigliani é chamado de période nègre.

Dizia: «Les bijoux doivent être sauvages» (por causa dos meus colares africanos) e desenhava-me com eles. Levava-me a ver le vieux Paris derrière le Panthéon. pelas noites luarentas. Conhecia bem a cidade, mesmo assim perdemo-nos uma vez. Disse-me: «J’ai oublié qu’il y a une île au milieu.» Mostrou-me, assim, um Paris verdadeiro.

Sobre a Vénus de Milo dizia que as mulheres muitíssimo bem feitas, a quem vale a pena esculpir e pintar, parecem sempre de­sajeitadas quando vestidas.

Com chuva (em Paris chove muito) Modigliani andava com um guarda-chuva preto, enorme e muito velho. Às vezes sentávamo-nos debaixo desse guarda-chuva num banco do Jar­dim do Luxemburgo, sob a tépida chuva estival, ao nosso lado dormitava le vieux palais à l’italienne, e recitávamos juntos o Verlaine que sabíamos bem de cor, contentes por nos lembrar­mos os dois dos mesmos versos.

Li numa monografia americana qualquer que, provavelmente, tivera grande influência sobre Modigliani uma tal Beatrice Hastings*. essa mesma que lhe chamou «perle et pourceau». Posso e acho necessário testemunhar que Modigliani já era assim ilumi­nado antes de conhecer Beatrice Hastings, ou seja, em 1910. E é pouco provável que uma dama que trata um grande pintor de porco seja capaz de iluminar seja quem for.

Pessoas mais velhas do que nós mostravam-nos por que alameda do Jardim do Luxemburgo Verlaine passava, com uma chusma de admiradores atrás, para ir do «seu café», onde todos os dias se esmerava em eloquência, para o «seu restaurante», on­de almoçava. Mas em 1911 já não era Verlaine quem passava por aquela alameda, mas um senhor alto, de sobrecasaca impecável, cartola e fita da Legião de Honra; e os vizinhos sussurravam: «Henri de Régnier!».

Esse nome não nos dizia nada. De Anatole France, Modigliani (como aliás outros parisienses cultos) nem queria ouvir falar. Ficou contente por eu também não gostar dele. Quanto a Verlai­ne, já só existia no Jardim do Luxemburgo em forma de monu­mento. E sobre Hugo, ainda Modigliani, que disse simplesmen­te: «Mais Hugo, c’est déclamatoire?»

*Lembro-me de algumas frases das cartas dele. Uma delas: «Vous êtes en moi commne une hantise».
*Uma cavaleira de circo do Transval (ver artigo de P. Guillaume «Lês arts à Pa­ris», 1920. wó, pp. 1-2). Decerto se pode ler nas entrelinhas: «Como é que um ra­paz judio da província podia, profunda e multilateralmente, ser um iluminado?»

(in Anna Akhmátova, Prosas Escolhidas e Poema Sem Herói, Relógio d’Água)

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