Após as investidas do Passos/Portas, e as estupendas manifestações de sábado passado, não seria exagerado Diário de Bordo continuar pelo segundo dia consecutivo a debruçar-se sobre a grave situação do nosso país. Contudo é preciso não esquecer o que se passa lá fora. Até porque grande parte, a maior parte dos problemas que nos afectam são ramificações das altas especulações tecidas nas capitais financeiras das Europas, Ásias e Américas. Prova disso é a emigração de vários varões ilustres que nos andaram aqui tempos e tempos a amolgar o juízo (a bolsa não amolgam, porque entretanto a esvaziaram) para lugares bem retribuídos em instâncias internacionais. Dentro em breve vamos assistir a outra revoada desta emigração de elites, que nada tem a ver com a emigração de tantos portugueses que vão lá para fora á procura de uma vida melhor. Essas transferências para paraísos dourados são o pagamento dos bons serviços prestados, à nossa custa, claro.
Mas é que fora o mundo também anda muito agitado. A Primavera árabe parece muito murcha, mas a agitação nos países islâmicos cresce novamente, agora por causa de um filme feito nos EUA o qual, ao que parece, ataca fortemente a religião muçulmana. Terá sido feito por particulares. Contudo, desta vez, os levantamentos estarão a ser liderados mais por elementos religiosos, e tendem a centrar-se em protestos e ataques a representações e interesses norte-americanos. Já pereceram militares e diplomatas devido a esses ataques. Os governantes norte-americanos protestam contra os ataques e protestos, cujos responsáveis são intitulados de fanáticos.
Estas questões podem ser encaradas de diversas maneiras. Mas há que ver o seguinte: também nos países ocidentais têm ocorrido atentados que causaram vítimas em número apreciável, e vítimas civis, que pouco ou nada terão a ver com os responsáveis políticos ou religiosos, que hostilizam os norte-americanos, e preparam ataques violentos contra eles. Foi o caso do atentado cometido contra a comunidade Sikh do estado do Wisconsin, nos EUA, nos primeiros dias do mês de Agosto último, que terá causado pelo menos seis mortes. O responsável foi morto pela polícia. Tratava-se de um indivíduo próximo da extrema-direita, defensor de ideias racistas. Não se trata de um caso único.
Existe um problema de dupla moralidade na abordagem destas situações. Enquanto as manifestações e atentados cometidos nos países islâmicos são classificados pelos governos ocidentais e grande parte da comunicação social como obras de fanáticos, as acções idênticas que ocorrem nos países ocidentais são tratadas como actos excepcionais, que até terão alguma justificação devido à violência e aos preconceitos imputados à outra parte. Dir-se-á, da outra parte os julgamentos também não são equitativos.
Evidentemente que não existem bons completamente bons, nem maus que tenham de assumir a totalidade das responsabilidades por estes tristes acontecimentos. Mas o facto é que o fanatismo existe dos dois lados. E que o procedimento dos EUA justifica as revoltas que vão ocorrendo por toda a parte. Para além disso há um aspecto muito particular. A manipulação da opinião pública tende a levar as pessoas a confundir o justo sentimento de revolta existente no mundo islâmico e não só, com o fanatismo de alguns religiosos (fanatismo esse também muito frequente nos EUA e noutros países ocidentais, veja-se a matança ocorrida na Noruega). Ora o fanatismo existe por todo o lado. E no Ocidente pretende-se que existe uma separação entre o público e o privado, que, em termos práticos de ameaça para a sociedade, para as minorias, para o equilíbrio, não tem grande relevância prática. Para disseminar certas ideias mobilizam-se indivíduos e grupos, contratam-se profissionais através de lobbies, que desenvolvem acções jogando com crenças e sentimentos. Os efeitos podem ser tão violentos como no caso de uma acção orquestrada através de serviços públicos. Arranja-se, por exemplo, quem faça um determinado filme, com princípios racistas ou outros, com dinheiros disponibilizados por privados. O filme pode circular por todo o lado, mas informa-se que não corresponde aos princípios oficialmente defendidos. A defesa das liberdades públicas leva a que seja assegurada a circulação, e portanto a que não seja impedido o acesso à informação e á propaganda que contém. Mas por outro lado as entidades governamentais insistem em que nada têm a ver com o filme, enquanto pedem garantias aos governos dos países islâmicos contra manifestações, atentados, que classificam de fanáticos.
Fanáticos são os outros, não os nossos, é a mensagem que procuram fazer circular, nesta guerra de propaganda que prolonga e aquece a outra, a de fogo real.

