GIRO DO HORIZONTE – 15 DE SETEMBRO DE 2012 – por Pedro de Pezarat Correia

 Ao fim de 45 dias de ausência regresso a bordo e regresso a uma nave que navega num mar revolto. Estamos no meio se uma tempestade e com a sensação de que a frota em que nos inserimos está à deriva sem que haja alguém ao leme. Mas pode e deve ser uma tempestade retemperadora.

Não vou aqui recapitular nem destacar a imensidão de casos, de factos, de sinais, de omissões, de discursos e de silêncios que, dia-a-dia, elevaram a temperatura deste verão escaldante. A verdade é que, quando o verão já está a chegar ao fim, leva com ele o governo. Para mim é óbvio, o governo Passos Coelho/Paulo Portas tutelado por Cavaco Silva, acabou. Teve uma síncope em 7 de Setembro, entrou em coma em 15, em 16 Paulo Portas deu-lhe o tiro de misericórdia. Aguarda-se a autópsia e o funeral.

Do governo moribundo já nada se esperava, mesmo aqueles que ainda chegaram a esperar alguma coisa, o que nunca foi o meu caso. O primeiro-ministro, claramente impreparado e pouco inteligente, geria e digeria com manifesta dificuldade as “ajudas” cruzadas que supostamente lhe iriam chegando de Borges, Gaspar, Portas, Relvas ou Correia (Ângelo). Resultado, descoordenação absoluta, ministros ausentes ou na clandestinidade, amadorismo, prestações públicas desastrosas mas que não deixam de denunciar sinistros preconceitos ideológicos. Os membros do governo, incluindo o seu chefe, já se viam obrigados a visitas pelo país com entradas pelas portas das traseiras!

Senti-me numa república das bananas quando, afastado dos centros mais informados, dou por mim a ouvir o presidente da República afirmar (reiterar) que só admitia mais sacrifícios se fossem dirigidos aos que até aqui a eles tivessem sido poupados – reconhecimento paradoxal de que, afinal, a equidade na repartição dos sacrifícios não tem passado de uma fraude que o mais alto responsável pelo cumprimento da constituição resolveu ignorar –, para logo a seguir ver o primeiro-ministro anunciar novo assalto aos bolsos dos portugueses que menos têm sido poupados e, pasme-se, uma manobra de alteração contributiva que se traduz na transferência directa de rendimentos do trabalho, mesmo dos mais exíguos, para os cofres do capital, particularmente das grandes empresas. Para além do escândalo social, da inutilidade prática segundo os especialistas, do reaccionarismo ideológico, é um confronto directo, uma ofensa frontal às preocupações (?) na véspera expressas pelo presidente. Sem que este esboçasse uma reacção. Uma semana depois, face ao clamor popular e às denúncias avolumadas na comunicação e nas redes sociais, convoca o Conselho de Estado que se reunirá mais uma semana decorrida.

Não há em nada disto um sinal de urgência, de emergência e tudo se vai cozinhando num ambiente institucional em que predominam vozes comprometidas com a troika. O presidente não teve a grandeza de assegurar a presença no Conselho de Estado de uma voz à esquerda do PS, como fizeram os seus antecessores. As personalidades por si nomeadas são todas do seu núcleo de amigos. Para ouvir os amigos não precisa do Conselho de Estado, ouve-os em privado. No Conselho de Estado do que se precisaria era de um leque de vozes que reflectisse a diversidade da sociedade portuguesa. E convoca parceiros sociais mas apenas aqueles que no Conselho de Concertação Social se vergaram à troika. As opiniões discordantes não interessam. O presidente da República tem uma dificuldade genética em confrontar-se com opiniões que o contrariem. É uma falta de cultura democrática é chocante e não consegue recuperar de intervenções públicas suicidárias.

O PS tarda a fazer valer o seu peso como partido mais votado da oposição apesar de ir beneficiando nas sondagens do desgaste do governo e da maioria que o apoia. Continua demasiado condicionado por ter sido obrigado a apelar à troika por aqueles que agora lho atiram sistematicamente à cara, PR, PSD, CDS.

Os partidos à esquerda, minoritários e afastados do “arco do poder” por, lucidamente denunciarem os malefícios das receitas e dos tratamentos para os males que nos atingem, podem ganhar margem de manobra com o clamor da contestação e da revolta popular. É fundamental que se lhe juntem, sem tentações manipuladoras e sem confundirem espaços de intervenção.

Tenho esperança na viragem da página do dia 15. A revolta popular apenas deu o primeiro sinal. Este governo já foi. O importante é edificar o futuro e construir a alternativa que não seja mais do mesmo. Alternativa que no mundo de hoje não pode construir-se num recanto isolado da Europa. Está provada a idiotia dos slogans “nós não somos a Grécia”. A construção da alternativa tem de ser partilhada, para já com a Grécia, com a Irlanda, com a Espanha. E outros se juntarão.

Ainda posso estar a tempo de sacudir o pesadelo de envelhecer a suportar esta gente que desbaratou a esperança que Abril abrira.

17 de Setembro de 2012

1 Comment

  1. Muito céptico quanto à utilidade das manifestações, é evidente que esta movimentação que, a nível nacional, se verificou no passado dia 15 – os últimos cálculos apontam para mais de 800 mil manifestantes – representa um dado novo: a confirmação de que se pode fazer política fora do labiríntico cárcere da democracia parlamentar. Totalmente de acordo com a afirmação de que «Os partidos à esquerda, minoritários e afastados do “arco do poder” por, lucidamente denunciarem os malefícios das receitas e dos tratamentos para os males que nos atingem, podem ganhar margem de manobra com o clamor da contestação e da revolta popular. É fundamental que se lhe juntem, sem tentações manipuladoras e sem confundirem espaços de intervenção.» Sem essa unidade na acção e isenta de ideologismos cediços, aí teremos mais folclore eleitoral e um novo-velho executivo que nos irá espoliar e mentir (e vice-versa).

Leave a Reply