MUNDO CÃO – QUAL SERÁ A RESISTÊNCIA DA CORDA? – por José Goulão

A União Europeia, no seu formato actual determinado pela insensibilidade mercantilista sobrepondo-se à explosão das necessidades humanistas, não vai aguentar. Já se antevia pela simples lógica das coisas; agora, observando os sinais de como a paciência das pessoas se esgota, essa antevisão emerge como uma certeza.

Já conhecíamos a capacidade de afirmação dos gregos e espanhóis. O caso mais recente, a explosão de indignação na Catalunha, traz para a arena da política, por vias económicas e sem esquecer o peso do nacionalismo oportunista, questões que pareciam de incidência remota e adquiriram uma actualidade gritante.

Faltava Portugal. Os portugueses pareciam dotados de uma paciência de santos, uma espécie de resignação, aliás surpreendente, que aos senhores do governo e respetivos parceiros da troika poderiam atribuir a uma sequela milagreira de Fátima.

Mas chegou o 15 de Setembro e os dados passaram a ser outros. Acabou a paciência. A corda tanto esticou que chegou ao limite. A erradicação dos mais elementares direitos sociais, cortes selváticos em áreas básicas de sobrevivência como o emprego, a saúde e a educação, o desrespeito pela formação humana e académica, a transformação de um governo de políticos formalmente eleitos num grupo de robots desprovidos das mais básicas ligações com a realidade,  sentimentos e sensibilidade humanistas, alterou qualitativamente a situação.

Agora nada voltará a ser como dantes. Em Portugal, em Espanha, na Europa. Os cidadãos perderam a paciência, e, sobretudo, o medo. O senhor presidente da Comissão Europeia veio apresentar o federalismo como a panaceia para todos os males europeus, mas só por volta de 2014. Mas os cidadãos europeus, porém, querem comer amanhã, ter os seus filhos na escola amanhã, querem ir trabalhar amanhã. E deixaram de acreditar que a austeridade, ao contrário do prometido, lhes resolva os problemas. Baixam os salários, perdem os direitos e o emprego, descontam cada vez mais para uma segurança social da qual provavelmente, por este caminho, jamais chegarão a usufruir. Apesar disso, a economia em vez de crescer mergulha numa recessão cada vez mais angustiante. E a dívida soberana, em nome da qual tudo isto se processa para que os gananciosos agiotas sejam ressarcidos, continua a aumentar, insaciável como os próprios credores.

O caminho era previsível, mas foi preciso chegar à confrontação com os factos para que se tornasse evidente. Este percurso não leva à solução dos problemas sociais nos países mais sobrecarregados pela dívida, conduz, passo a passo, à escravatura enquanto a dívida aumenta e as desigualdades se aprofundam em nome dos interesses de uma classe empresarial de elite que exige sempre mais para a economia crescer amanhã enquanto a economia se afunda já hoje.

O 15 de Setembro marca no calendário uma fronteira que se inscreveu na sociedade e na política. A fronteira entre os defensores da troika e os que a combatem. A fronteira, na União Europeia e na Zona Euro, por muito que os políticos agentes do mercado a tentem disfarçar, entre a cidadania e o mercantilismo. Os campos da batalha estão demarcados e não têm delimitações geográficas. O futuro da União Europeia joga-se entre um neoliberalismo inconsequente e perfeitamente identificado nos seus tiques, vícios e violências; e uma alternativa cidadã que tem como referência básica a restauração de um humanismo e da democracia abolidos pelo neoliberalismo.

Esta é a lição principal da revolta em todo o Sul da Europa. Poucas vezes terá sido tão fácil definir as fronteiras da mudança, desde que os agentes políticos preponderantes para a transformação saibam acompanhar a onda dos tempos e deixem de lado dogmas que não fazem sentido pela simples razão de as pessoas reclamarem, e com razão, ser elas a razão de ser da política.

É disso que se trata agora. E sem sectarismos.

1 Comment

  1. Isto é, chegou a hora da política, a hora de ser ela a conduzir a economia e não o contrário. Agora queremos discutir estratégias, queremos reconstruir os países que as rastazanas foram roendo nos alicerces. Espero que sim, José Goulão: nada poderá voltar a ser como tem sido.

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