OS LADRÕES ESTÃO NO COMANDO DA EUROPA E ALGURES. Por Júlio Marques Mota

Um estranho texto. Depois de escrevermos a Europa está a morrer e Bomba de neutrões,  ficámos com a certeza de que há gente que conscientemente  é criminosa e que conscientemente  deve ser responsabilizada pela crise criada, pelos estragos já claramente identificados como também pelos estragos futuros, talvez mais graves ainda do que aqueles que até ao presente foram  gerados.

Nesta crise, a Europa tem sido sujeita a fortes movimentos especulativos quer sobre a dívida pública quer sobre a hipótese do desaparecimento da zona euro, daí o falar-se em  divisas nacionais, o euro português, o euro espanhol, o euro italiano, enfim quase tantas moedas euro como os países que compõem a zona euro, quase tantos quantas as moedas novas que de um dia para o outro poderiam aparecer. Esta posição pode ter parecido estranha a muitos leitores de A Viagem dos Argonautas, mas se dúvidas restam, que dizer então  face aos dados de que a Alemanha “paga” juros negativos, a França igualmente e, pasme-se, a Bélgica também,  pelas suas emissões de dívida  pública?

Mas o que significa  pagar taxas de juro negativas? Significa que o valor de um título, por exemplo, a nossa base 100,  à taxa de 3%,  é vendido  aos bancos, aos investidores, ao público em geral  aquando da sua emissão   bem acima do valor facial, bem acima do valor 100 de referência, por exemplo 106. Se a maturidade for de um ano, o investidor chegado o final do ano em vez de receber mais do que as  106 unidades que pagou no inicio do período, recebe apenas 100, o valor do título, acrescido dos juros devidos à sua taxa de rentabilidade, os 3% de 100, do nosso exemplo. Recebe 103 mas pagou 106. A diferença, (106-103),  o que perdeu, são os juros negativos da sua operação.  Estes  correspondem  a um pagamento por acautelamento do dinheiro na Alemanha, dinheiro que se poderia perder, que se poderia queimar, de que nos poderíamos esquecer onde o guardámos, se o tivéssemos, é claro. Deixemos a ironia,  corresponde à fuga de capitais do país em  dificuldade que poderá sair do euro, corresponde a uma espectativa de que o euro da Alemanha se aprecie face à nova moeda que no país em dificuldade venha a ser criada. Simples, portanto.

A bombagem tem sido enorme e, por exemplo, a Suiça, o eterno paraíso fiscal, mostra-o bem, com as suas reservas cambiais a ultrapassar as reservas cambiais dos bancos centrais da zona euro. Simples, mais uma vez, mesmo inacreditável.

Mas no caso suíço a questão é ainda mais curiosa. Não é um país da zona euro, não é um país sujeito a nenhuma das restrições que as cimeiras europeias tem imposto aos estados membros e no entanto corre o risco de ser uma das grandes vítimas da crise  se não há uma paragem desta cavalgada wagneriana para o abismo, se houver uma destruição da zona euro. Como? É o que me  dirão. A  Suíça como qualquer  país sujeito à OMC, face à desregulação dos mercados que esta assegura, tem também ela sido vítima da desindustrialização. No entanto soube manter uma razoável capacidade produtiva em tudo o que é mecânica fina, soube igualmente  desenvolver uma indústria química, tal como soube reagir ao Oriente com a sua indústria de relojoaria que curiosamente vale mais que as exportações de vinhos e espirituosos franceses! Com  8 milhões de habitantes  as suas exportações são equivalentes às de Espanha. Do ponto de vista do comércio externo é  pois uma economia virada para o exterior.

Com a crise do euro, a Suiça aparece como um país refúgio ideal. Daí a fuga maciça de capitais, em euros para a Suiça, decapitando-se com essa fuga ainda mais os países periféricos . Por consequência o valor do franco suíço expresso em euros sobe ou alternativamente o valor do euro em francos suíços desce. A pressão é enorme para a valorização do franco suíço. O governo suíço vê-se obrigado a não deixar subir mais a cotação do franco suíço levando-o a fixar uma taxa de referência de 1,20 CHF  por um euro,  com os industriais a exigirem  a taxa de 1,30 para salvaguardar  a indústria suiça ameaçada ela pela subida do valor da sua moeda que torna os produtos suíços mais caros no exterior. A situação é tão grave com o acesso de capitais a fugirem para a Suíça  que esta  compra diariamente 100 euros por habitante  no mercado monetário. Um muro de dinheiro para  defender a indústria, pura e simplesmente, é disto que se trata, pois esta poderia  sair gravemente lesada no quadro das economias globalizados, no quadro dos mercados  mundiais. Entretanto, os euros seguem um outro trajecto. Com estes euros, os suíços compram  títulos alemães ou franceses, mas sobretudo alemães, e a Suiça torna-se assim também ela sem o querer num elemento desestabilizador da zona euro, por actuar e pesar na diferenciação das taxas das de juro  entre os países da zona euro. Ganham pela “renda” dos títulos, ganham pelos direitos de portagem ao guardarem o dinheiro dos outros, podem perder na sua capacidade industrial e nos volumes de emprego e certo é que podem criar também eles uma situação social e política insustentável, por causa da crise do euro As políticas de austeridade, a desregulação dos mercados, a fuga de capitais, o prémio de risco cambial, tudo está portanto a concorrer  para a morte da Europa e estamos todos prisioneiros do mesmo mecanismo, como nos dizem os Eagles em Hotel Califórnia, mesmo os que não pertencem à zona .

Era a nossa tese nestes dois textos. A Europa estava a morrer pelas políticas impostas, a Europa estava a ser bombardeada por uma bomba de neutrões, onde se matam as pessoas mas se salvam as coisas, era pois a nossa tese nesses dois textos.  Eis que esta tese é agora bem validada pelo super Mário, Mário Draghi, quando afirma  que o BCE está agora disposto a aplicar quantidades ilimitadas de euros  para fazer desaparecer nas taxas de empréstimo de certos Estados um “prémio de convertibilidade ” um seja prémio de risco pela variação cambial que o investidor admite que pode vir a ocorrer . Admitem-no estes, os investidores, pagam-no aqueles, os Estados soberanos deixados ao abandono perante o que pensam os mercados  e como os países estão afinal com a corda ao pescoço que Bruxelas fabricou  e que aos mercados entregou, é aquilo que os investidores imaginam que marca o ritmo desta Europa.  Criminoso, dizemos. O texto de Draghi, confirma-o.

Nesses dois textos pensámos ter sido muito agressivos para a escória de todos aqueles que compõem  o bando que está ao assalto da Europa mas eis que me vem parar às mãos um texto publicado por Mediapart  sobre o mesmo tema. Sublinhe-se que Mediapart é um dos mais importantes jornais electrónicos, jornal pago por assinatura,   cuja equipa tem muitos antigos  jornalistas do Le Monde, o que confirma a sua qualidade. Neste texto, os dirigentes europeus são acusados de terem aplicado à Europa um esquema de Ponzi para a destruir, um esquema do tipo Dona Branca como se diz em Portugal, assente na arquitectura do FEEF e do MEE que aguarda aprovação pela Alemanha em que este último é considerado como um verdadeiro esquema de Ponzi. Os seus  autores têm nome, chamam-se Barroso, Juncker, Mário Draghi. Os restantes, Rajoy’s, Passos Coelho, Luis de Guindos, Álvaro Santos Pereira, Cristóbal Montoro, Gaspar, são peças menores e sem coluna vertebral para merecer o nosso respeito ou mesmo a nossa crítica. Neste texto os dirigentes europeus são acusados de  terem atitudes ainda mais reprováveis que  as do próprio Madoff e a merecerem igualmente prisão. Na opinião de Mediapart   estas três personalidades são ainda mais criminosas que Madoff pois este só prejudicou os privados enquanto estes senhores destroem um continente, destroem tudo o que é público, destroem igualmente muitíssimo do que é privado quer relativamente ao presente quer relativamente ao futuro.

Genericamente podemos concordar com as teses do jornalista do Mediapart. Porém ao trio dos apelidados bandidos acrescentava mais um, o de Pascal Lamy, Director-Geral da OMC, o organismo internacional encarregado de zelar pela desregulação do comércio internacional de bens e serviços.  Não nos  devemos esquecer que crise de subprimes significa crise de créditos concedidos aos pobres, que se quer assim que sejam os responsáveis pela crise, acusando-os, culpabilizando-os de serem pobres! Não nos querendo perder por aqui a todos os neoliberais devemos lembrar que muitos dos que não podem pagar não o podem fazer porque a crise os lançou nessa situação de incumprimento e que portanto por detrás dessa situação  está também, e de que maneira, o facto das multinacionais, das PME, das PMI, terem acelerado as suas deslocalizações, de terem criado maciçamente milhões de desempregados, de terem lançado milhões de pessoas para a situação de incumprimento. Mas a livre-troca manda, o mesmo é dizer, a OMC manda, Pascal Lamy manda e desta forma os desequilíbrios brutais nas trocas comerciais à escala mundial estão bem  à vista .

Prisão, diria eu, para este bando dos quatro, mas prisão marcada pelo ritmo da História, da Ética, da consciencialização política com esta a ser transparente nas greves, nas ruas, nas fábricas, nos campos,  nas escolas, em suma  nas urnas. E desses senhores, que nunca mais.

O texto de Mediapart que agora aqui vos apresento implicitamente acusa-nos de sermos brandos na linguagem utilizada. Talvez!

Fui  professor, vício que ainda não perdi. O texto de Mediapart fala-nos de Clearstream, de câmaras  de compensação e portanto faremos acompanhar o texto de Mediapart por um pequeno  texto da Attac sobre o  papel das Câmaras de compensação no capitalismo global, para que assim se torne mais facilmente compreendida a referência a Clearstream . Com este texto da Attac é também uma visita aos centros nevrálgicos de um capitalismo selvagem assente na ganância que iremos visitar e mais uma vez nos devemos interrogar como é que deixámos que tudo isto fosse  possível,  como é que deixamos que tudo  assim  continue ainda  a ser!

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixar uma resposta

%d bloggers like this: