A sondagem que a Universidade Católica realizou para o JN revela que o PSD não iria além dos 24%., caindo 12% relativamente à sondagem anterior. Os inquéritos foram feitos nos dias 15, 16 e 17, depois do anúncio das novas medidas. De referir que o PS, com uma previsão de 31%, também desce. O CDS regista uma pequena subida – de 6 para 7%. A CDU, com 13%, e o BE com 11%, registam as maiores subidas. A conclusão em título do jornal, de que a esquerda tem maioria, é disparatada – como se pode considerar o PS um partido de esquerda?
Para além destas especulações, os sinais de que o cadáver deste executivo está a entrar rapidamente em decomposição, são muitos e elucidativos. A auto-demissão do professor Pedro Dias do cargo de Director da Biblioteca Nacional de Portugal e a recusa da escritora Maria Teresa Horta de receber o Prémio Literário D. Dinis das mãos de Passos Coelho, constituem dois desses sinais. Não nos recordamos de uma semelhante e generalizada repulsa – nem Santana Lopes, com os concertos para violino de Chopin, conseguiu um tal grau de rejeição.
No facebook Pedro Dias, ao transcrever a carta de demissão, antecedia-a desta nota: «Acabou a colaboração com o Governo, enviei hoje esta carta ao secretário de Estado da Cultura – Ser cúmplice de Passos Coelho e do seu governo, não». E na carta, culminava a sua argumentação de uma forma incisiva, após alegar motivos pessoais que o levavam a demitir-se, acrescentava: «Mais ainda, não só não me revejo na politica do Senhor Primeiro Ministro, como estou completamente contra ela, e não reconheço legitimidade ao Governo para se manter em funções, por ter renegado todas as promessas feitas ao eleitorado, e que constituem a base da sua legitimidade democrática. É assim absolutamente inaceitável ser cúmplice destas acções, enquanto Director-Geral, participando na delapidação de Portugal e dos seus recursos, em benefícios de grupos económicos, com o esmagamento das classes trabalhadoras e do domínio, no campo politico, da Maçonaria, entidade que sempre combati.»(…)«Já me desvinculei do PSD, de que já não sou militante, e não desejo voltar a ter qualquer colaboração com esta instituição, que nada tem a ver com a que, a partir de Maio de 1974, ajudei a desenvolver e a afirmar-se»
Maria Teresa Horta, não renuncia ao prestigioso prémio atribuído ao seu romance ”As Luzes de Leonor”, disse esta terça-feira não o aceitar receber das mãos do primeiro-ministro, conforme o previsto. « “Na realidade eu não poderia, com coerência, ficar bem comigo mesma, receber um prémio literário que me honra tanto, cujo júri é formado por poetas, os meus pares mais próximos – pois sou sobretudo uma poetisa, e que me honra imenso -, ir receber esse prémio das mãos de uma pessoa que está empenhada em destruir o nosso país”,
Duas posições que honram o mundo da cultura. Mas os sinais de que falávamos são mais e, de certo modo, mais significativos – Mário Soares, entende que o governo se deveria demitir. Marcelo Rebelo de Sousa, Manuela Ferreira Leite, Bagão Félix e muitos outros, dizem o mesmo de maneiras diferentes.
O PS, com o incentivo destes sinais de degradação visíveis mesmo sem sondagens, assume a atitude institucional – o governo de Passos Coelho deve ir até ao fim da legislatura – não se justificam eleições antecipadas. Pois. Com os resultados previstos, o PS só poderia governar em coligação – com o PCP? Com o BE? Com ambos? Talvez com o CDS…

Ao menos o Santana Lopes, em simultâneo com tanta asneira que fez, ainda nos fazia rir com os concertos de violino e o convite ao Machado de Assis para vir receber um prémio, ou qualquer outra coisa do género Havia mais anedotas mas já não me lembro. Ah, é verdade, e aquela da autoria de Cavaco Silva sobre o autor de “A Montanha Mágica”?! Será devido a estas dificuldades que o Conselho de Estado leva tanto tempo para reunir?
Quanto a sondagens, já não lhes ligo nenhuma. Mais ou menos ponto percentual vai sempre tudo dar o mesmo resultado. Estou a ficar niilista, não no sentido de “se Deus morreu, vale tudo”, como os Irmãos Karamazov, mas no sentido de que, enquanto a caravana passa, o que faz falta é avisar a malta para começarmos a fazer a lista daquilo que é primordial recuperar, a começar pela soberania.