
(Adão Cruz)
Nas noites quentes de verão, Robin desenha a lua no pátio. Em silêncio conta as estrelas.
– Vou pedir à águia cobreira que me leve até ao céu. Quando chegar no limite das nuvens, salto entre as estrelas cadentes até conseguir encontrar uma que me abrace. De longe verei o mundo pequenino. Os homens que hoje me assustam serão tão minúsculos que não me perturbarão mais.
Vou cantar alto de braços abertos e dançar como se o céu fosse parte de mim. Entre as nuvens serei mais uma que se dilui na chuva, até ser nuvem de novo. Nas noites frias escondo-me do outro lado do mundo onde o sol vive todo ano. Se a saudade apertar meu peito, desenho um poema até que a dor seja apenas a lembrança do sofrimento.
De vez em quando, peço à águia cobreira que me leve ao oceano e fique comigo até que eu canse meu corpo e queira regressar ao céu antes do sol raiar.
– Este ano a águia não apareceu. Tens de esperar que o mato seja aparado e as cobras fiquem a descoberto. A águia precisa de as ver à distância. Voar com destreza até que as cace inteiras. Umas são vermelhas e pretas, outras tão verdes que nem a cobra as distingue. Quando a terra estiver castanha elas mudam de cor. Temos de cortar o mato, descobrir as cobras, antes que elas nos mordam as pernas e nos envenenem por dentro.
– A águia vai aparecer. Faz parte da vida dela, esteja o mato aparado ou não. Por isso é a águia cobreira. Depois quando o perigo não for senão o perigo, voarei com ela…
– Anda agora, que a noite é quase manhã e a águia foi-se deitar. Amanhã aparo o mato, dou-te um abraço apertado, escuto teu coração e te beijo com amor, para que possas voar em liberdade…
Nas noites de lua cheia choro a saudade que tenho dele. Não sei se foi a águia que o levou, se foi o mar que o abraçou.
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Muito bonito Ethel. Parabéns
É mágico e muito bonito. O quadro, também.
Obrigada Adão, – belo quadro, como sempre. Beijinhos, Augusta.