Os jornalistas, mesmo os bons, têm tendência para as frases que sintetizam situações complexas. Tem talvez a ver com as regras do marketing que determinam que as ideias sejam concentradas em poucas palavras. Os chamados slogans. Segundo o The Economist, Passos Coelho, nos 15 minutos em que anunciou as novas medidas de austeridade, «deitou fora dezasseis meses do trabalho de recuperação da economia do país». Esta análise sumária feita pela revista The Economist ao momento político que se vive em Portugal desde que o primeiro-ministro anunciou um novo pacote de medidas que transfere custos do trabalho dos patrões para os trabalhadores», dando uma boa frase jornalística é uma apreciação errada.
Passos Coelho não deitou fora coisa nenhuma – apenas fez transbordar a taça da indignação. O artigo afirma que «os portugueses vinham caucionando a estratégia de austeridade imposta desde a assinatura do memorando de entendimento com a troika para um plano que tem na sua base um empréstimo de 78 mil milhões de ajuda à recuperar a situação económica e financeira de Portugal. Um consenso ferido de morte…» Os portugueses não caucionaram coisa alguma e não se pode ferir de morte um consenso que nunca existiu.
The Economist é uma publicação séria e a cuja informação na sua área de especialização recorremos com frequência, mas esta análise parece ter sido feita noutro país. O relativo silêncio e passividade dos portugueses não significava acordo. Somos um povo lento a tomar decisões colectivas. Porém, que o correspondente do The Economist se tenha equivocado é normal. Grave é o equívoco de Passos Coelho, que foi acumulando as chamadas «medidas de austeridade», levando-as a um ponto que despertou o animal sonolento a que chamamos povo.
Agora que o bicho indolente acordou e faz vigílias e atira tomates, petardos, ovos e garrafas de cerveja, agora vai ser difícil continuar com as patranhas estúpidas com que este executivo lamentável, grotesco e desonesto tem vindo a tentar convencer uma opinião pública com um sentido crítico pouco apurado. É melhor que Passos Coelho e a sua comitiva faça as malas. O pior é que o que virá a seguir pode ser, como se diz agora, «mais do mesmo». Um clone de Passos Coelho, está a ganhar pose de primeiro-ministro. E muitos dos que fazem vigílias, gritam palavras de ordem ou atiram tomates, vão ajudar o clone a trepar.
E lá vamos nós outra vez. A não ser que…

