Três entrevistas
Desde há uns anos a esta parte, a questão da União Ibérica tem sido colocada por diversas personalidades. Os que defendem a integração de Portugal num Estado estrangeiro, isto é, que desapareça enquanto entidade nacional, não explicam como é que essa tal Espanha, crismada de Ibéria, seria governada – por uma monarquia? Por uma República? Sou republicano convicto, penso que a maioria dos portugueses o é também. Parece-me ridículo, no século XXI, haver quem se considere e seja considerado «ungido por Deus» e com o direito de estar à frente de uma Nação. Que seus filhos e netos, mesmo que sejam atrasados mentais, tenham o mesmo direito. Quando os vejo nas revistas «do coração» ao lado de play-boys, de jogadores de futebol e suas namoradas, numa palavra, do chamado jet set, dá-me vontade de rir e espanto-me por José Saramago ter podido levar a sério coisa tão risível.
Em Novembro de 2008, Arturo Pérez-Reverte escritor espanhol, defendeu numa entrevista à Lusa a existência da Ibéria como país único, sem fronteiras que separem Espanha e Portugal. Afirma haver «uma Ibéria indiscutível que está entre os Pirenéus e o estreito de Gibraltar, com comida, raça, costumes, história em comum e as fronteiras são completamente artificiais”, Para ele, o maior erro histórico de Filipe II, no século XVI, foi não ter escolhido Lisboa como capital do império. “Teria sido mais justo haver uma Ibéria, e a história do mundo teria sido diferente”. Acrescentou que a Ibéria não existe de jure, mas “qualquer espanhol que venha a Portugal se sente em casa e qualquer português que vá a Espanha sente o mesmo”. (..)”É uma realidade incontestável” que precisa de um empurrão social e não político para ser concretizada».
Também numa entrevista, em 2007 ao Diário de Notícias, José Saramago defendera a integração de Portugal em Espanha: «Não vale a pena armar-me em profeta, mas acho que acabaremos por integrar-nos» (…) «A Catalunha tem a sua própria cultura, que é ao mesmo tempo comum ao resto de Espanha, tal como a dos bascos e a galega, nós não nos converteríamos em espanhóis.» Porém, quando o jornalista pergunta se Portugal seria mais uma província de Espanha, Saramago respondeu: «Seria isso. Já temos a Andaluzia, a Catalunha, o País Basco, a Galiza, Castilla-La Mancha e tínhamos Portugal. Provavelmente (Espanha) teria de mudar de nome e passar a chamar-se Ibéria.»
Na minha opinião, é o momento mais deprimente de toda a carreira brilhante de Saramago. Não concordando com muitas das suas posições políticas, nenhuma me chocou tanto como este absurdo de comparar Portugal com Castilla-La Mancha. A posição de Pérez-Reverte, um adorador do «século de ouro» é mais compreensível. A posição de Saramago é quase tão condenável como a de Ricardo Salgado, líder do Banco Espírito Santo, que, em entrevista ao Público, defendeu a criação da Ibéria e explicou porquê – se estivéssemos integrados o seu banco teria uma previsível expansão, implantando-se sobretudo nas áreas metropolitanas de Madrid e Barcelona. Pelo menos, não aduziu razões culturais…
