O MEMORANDO MERKEL. De The Economist.

Enviado por Domenico Mario Nuti. Tradução e introdução de Júlio Marques Mota.

Parte V

(CONCLUSÃO)

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XXIV. Já foram alcançados alguns progressos, mas tal como numa maratona, é a segunda metade da corrida que é a mais angustiante. O desemprego está a aumentar e a atingir níveis perigosamente elevados: cerca de 15% da força de trabalho na Irlanda e em Portugal e cerca de 25% da força de trabalho na Espanha. A Irlanda tem funcionado com um pequeno excedente de  conta corrente e os défices  têm geralmente caído (embora permaneçam  muito altos em Chipre e na Grécia), mas seria muito pior  se as economias periféricas não estivessem em tão forte recessão, o que lhes reduziu a procura de  importações.

XXV. O que tudo isto  sugere é que se a Grécia tem de sair, esta não deve saír  sozinha. Tal como a Grécia, os outros quatro países resgatados ganhariam  com a rápida melhoria de competitividade que as desvalorizações da moeda lhes permitiriam alcançar, desde que foram prosseguidas políticas credíveis para garantir que a desvalorização não se transformasse  em inflação galopante. E se a política pode superar a lei para a Grécia, então o mesmo deve ser verdadeiro para todos os cinco países, permitindo-lhes permanecer na UE e manter o acesso ao mercado único. Politics can trump the law for Greece

XXVI. Um tal movimento poderia  claramente aparecer  como um choque tremendo, e seria essencial proteger a Itália e a França ao mesmo tempo que se iam fazendo concessões a longo prazo  que levariam  a restante zona euro a caminho da  mutualização da dívida e da criação de uma União de bancos. Mas isso seria menos um revés para a Alemanha do que antes, porque em princípio, deve haver menos necessidade de partilha numa União Monetária mais viável. Na verdade, o mais importante benefício potencial desta maior ruptura é que esta poderia levar a que se encontrasse um fim definitivo para a crise da zona  euro, restaurando a confiança numa área de moeda única, mais pequena  mas mais resistente.

XXVII. Além disso, uma linha de referência poderia ser traçada  quanto  a custos potencialmente muito maiores, impedindo que os resgates se tornem num fluxo permanente de transferências. Isto foi o que aconteceu na Alemanha depois da  reunificação e ainda continua a  acontecer. Um estudo recente do FMI mostra que o fluxo de dinheiro para os lander mais pobres da Alemanha criou uma forma de dependência dos subsídios. O grande medo do povo alemão é que se esteja perante o mesmo resultado, em larga escala, através da zona euro. Por exemplo, uma União de transferência entre os países da actual zona euro  com base no modelo canadense procuraria fazer com os rendimentos dos Estados fossem menos díspares. Ao  transferir-se dinheiro de tal forma que os  governos mais pobres (incluindo a Grécia e Espanha) obtenham  um nível de rendimento próximo ao de um país intermediário, mas ainda abaixo da média de países como a Irlanda poderia envolver transferências anuais de €250 mil milhões — dos quais €80 mil milhões seriam transferidos da  Alemanha, ou seja, cerca de 3% do PIB.

XXVIII. No curto prazo, no entanto, o custo de uma saída de cinco países seria claramente muito mais pesado do que a saída somente da Grécia. Embora os outros quatro Estados estejam à partida numa condição menos desesperada do que a Grécia, eles também podem precisar de alguma ajuda para lhes  suavizar o caminho — qualquer coisa globalmente como  €100 mil milhões, digamos, em que da  parte da  Alemanha sairiam  cerca de a €33 mil milhões. A exposição adicional através de empréstimos oficiais seria suportável, porque os outros quatro resgates seriam individualmente muito menores do que o da Grécia. Embora os governos da zona euro tenham assumido compromissos se aproximando dos €200  mil milhões — o mesmo que para a Grécia — mas os actuais desembolsos foram menos de metade daquele. A grande exposição situa-se no sistema do euro. O BCE é estimado deter  um adicional de  €80 mil milhões de títulos irlandeses, portugueses,  e espanhóis  comprados nos  últimos dois anos para acalmar os mercados. Além disso, ele tem créditos sobre os  outro quatro países através do sistema Target2, em  cerca de €600 mil milhões.

XXIX. O que traria os custos decorrentes de uma saída de todos os cinco países para  cerca de €1.15 milhão  de milhões, dos quais a parte que caberia à  Alemanha seria de €385 mil milhões ou seja seria 15% do seu PIB. As despesas adicionais de  resgate dos bancos  aumentaria esse valor  para €496 mil milhões, ou seja para 19% do PIB, o que faria subir o valor da  dívida do governo alemão de 81% do PIB em 2011 para cerca de  100% e colocando em perigo o rating de crédito de tripoe-A da Alemanha. Os alemães e as empresas não-financeiras alemãs levariam também um grande prejuízo no valor dos seus activos em  mais de €200 mil milhões em cinco economias.

XXX. O maior risco associado a este cenário é o de que os movimentos no sentido de mutualização de dívida e de uma União bancária podem não, afinal, ser suficientes  para estabilizar a área restante da zona euro, resultando numa ruptura  total da zona euro e provocando uma recessão selvagem com consequências económicas extremamente prejudiciais. Os mercados invariavelmente perguntarão “quem é o país que se segue?”, e não há uma resposta óbvia. A Itália talvez não precise de deixar o euro em razão de seu passivo externo líquido  e do seu orçamento primário (ou seja, antes do pagamento do serviço da dívida) que está sob controle. Mas o seu peso da dívida pública de 120% do PIB é o segundo maior (depois da Grécia) na zona  euro. E a Itália  está novamente atolada numa  recessão. Tal como a Grécia, a Itália tem encontrado dificuldades em  viver com a moeda única. O crescimento foi decepcionante  na última década (Berlusconi foi uma calamidade económica) e os custos unitários do trabalho aumentaram fortemente.  A tarefa de restaurar a competitividade italiana seria muito mais difícil uma vez que as cinco economias a abandonar a zona euro adoptaram novas e  muito mais baratas moedas. .

XXXI. O que é mais preocupante para os mercados sobre a Itália é também  o que mais os pode também preocupar relativamente a França,  dadas as suas ligações fortes comerciais e financeiras com a Itália. Dado tudo isso, seria muito difícil para a Alemanha obter apoio no Conselho Europeu para este plano mais drástico. Os obstáculos políticos para a coordenação de uma solução que mantenha  intacta a zona euro podem parecer intransponíveis, mas obter um  acordo quanto a uma expulsão planejada de cinco países seria ainda mais assustador.

Conclusão

XXXII Das duas opções, a nossa ideia é de que a ruptura mais ampla  faz mais sentido económico globalmente  do que uma saída da Grécia sozinha. Mas devemos salientar que os riscos económicos e financeiros de o fazer vão ser muito maiores, e podem mesmo atingir uma ordem de grandeza bem mais difícil do que coordenar a saída da Grécia sozinha. Finalmente, uma desvantagem associada com ambas as opções, mesmo que sejam realizadas é a que muitos dos benefícios que se podem encontrar só se sentirão  no futuro (por não se ter de fazer transferências para a Europa da periferia) enquanto os custos seriam sentidos aqui e agora — e culpam-na a si e aos eu governo.

Uma nota anexada ao presente memorando por um membro de sua equipe indica que, depois de o ter lido,  a Chanceler Merkel pensou  muito sobre como responder. Ela é uma cientista por formação, uma política por vocação e, mais importante de tudo, uma pessoa cautelosa por temperamento. Depois de muita reflexão e discussão  ela concluiu que, apesar das vantagens do plano B, em comparação com sua estratégia actual, não estava disposta a aceitar os riscos que lhe estão associados — pelo menos por agora. Ela ordenou que o memorando fosse destruído, considerando que se a zona euro se vai fragmentar, isso não será por decisão sua. Mas a pessoa a quem  foi dito para destruir a nota pensou  que poderia ser útil manter o plano b em reserva, pelo menos por agora. Evitando a sua destruição em vez disso arquivou-o algures. Ninguém precisa mesmo de saber que o governo alemão tinha estado disposto a pensar  o impensável. A menos que, naturalmente, o relatório ….

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