E quando um dia Palhita, o toiro, cansado de olhar em vão para a outra margem, guardava ainda a secreta esperança que Olhos Mansos, a vaquinha, aparecesse. O Tejo chamou-o e disse-lhe ao ouvido:
– Escusas de esperar Palhita, escusas de esperar, Olhos Mansos não vem mais.
– Mentira, Olhos Mansos há-de vir.
– Não, Palhita. Aqueles que amam de verdade não esperam que os outros se resolvam a amar como se tratasse dum favor. Não, Palhita, tu perdeste Olhos Mansos com a tua indecisão.
Desde aí Palhita passou a andar tão desolado pela lezíria, que a roseira de rosas vermelhas começou a dar rosas brancas e nas margens do Tejo apareceram umas árvores tão tristes que os homens lhes deram o nome de chorões.
In PALHITA, O TOIRO
A ÁGUA E O OURO
Fernando Correia da Silva
Depois de cada longa tempestade de areia, Ben Tarik carregava dois camelos com odres da água do oásis e saía pelo deserto em busca de mercadores perdidos.
– Adeus minhas pombas (dizia ele para as esposas). Alá quer que eu saia agora a fazer negócios.
Dois, três dias depois, encontrava sempre um mercador prestes a morrer de sede.
– Água! (pedia o desgraçado).
– Que Alá te proteja!
– Água, em nome de Alá, água!
– Quanta queres, meu irmão? Um odre custa um saco de moedas de ouro.
Beirando a morte, o mercador tentava ainda resistir argumentando que, no oásis, a água era de graça.
– Isso é no oásis! Ali, tu vendes sedas. No deserto, eu vendo água. No oásis as minhas esposas pagam o preço que tu pedes pelas sedas, mas aqui as tuas sedas nada valem. No deserto, ou pagas o preço que eu peço pela água, ou não beberás da minha +agua.
Evidentemente, o negócio fazia-se sempre.
Ben Tarik, homem rico por assaltos à mão desarmada.