Quando a árvore descansa da tempestade – Ethel Feldman

(Adão Cruz)

Quando a árvore descansa

Da tempestade.

Meu homem sai para o mar

Salga seu corpo

floresce  em mim

Na vila onde nasci, os pescadores cantavam enquanto puxavam a rede.

No equinócio de Março, o mar dançava todos os dias. As sereias descansavam e os homens ficavam a salvo. As esposas agradecidas, bordavam as ondas até o sol cansar e deixar a noite tomar seu lugar.

Nas noites quentes os filhos eram semeados com amor. Do mar vinha o peixe, do campo, o arroz a decorar o prato. Da vizinha do lado, o sorriso e um bom dia a dar conta da vida.

Na vila onde nasci, os olhos viam na noite escura. Abrigavam no corpo todos os corpos. Abraçavam até que o coração encontrasse o de todos e desenhasse um sorriso no rosto.

Na vila onde nasci, um dia,  um homem  perdido de dor, incendiou-nos o corpo.

Nada restou, do lugar, onde vivi, senão a canção que a eternizou.

Venho de longe, de um mar que desconheço

Onde o homem mata tudo que nasce

Os beijos são veneno

E os abraços faca afiada

Que febre é a tua, amor

Que não te reconheço

Venho de uma terra perdida

Morta de morte matada

Seca, sem água

Vermelha de sangue

Que febre é atua , amor

Que te perco

Os meninos vivem na rua

Abandonados,

Os homens

Sozinhos, sem casa

Morrem de frio e fome

O sangue desenha o chão

Do animal assassinado.

Venho de uma terra perdida

Que me envenenou a vida

Na vila onde nasci,

um homem perdido de dor,

incendiou a vida.

Na cidade onde vivo,

há listas negras

de pobres endividados.

Ninguém vê na noite escura.

Nem semeia o amor suado.

Nesta cidade de luto,

os homens do povo

Vagueiam perdidos na rua.

De dia e noite, reza o  verbo

Do débito e do crédito

E por mais que se pague

Continuamos devendo.

De onde vens amor

Que te perco!

Quando a tempestade

Seguir caminho

E a árvore puder descansar

Vou deixar que o homem

Salgue meu corpo

Até que ele seja de novo semente

 

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