As eleições presidenciais norte-americanas costumam ser uma exibição daquilo a que chamam “o espetáculo da política”, ou seja uma encenação que apela às reações mais primárias e superficiais dos eleitores em vez de os esclarecer e os habilitar a decidir sobre aquilo que realmente lhes interessa.
Essa política de encher o olho, feita de truques em vez de ideias, de confetti, balões e lantejoulas em vez de reflexão, tem, como se sabe mas não com a transparência com que devia conhecer-se, bastidores nem sempre saudáveis, muitas vezes sujos, frequentemente perigosos também.
Estamos em período de eleições presidenciais nos Estados Unidos, coisa que, como sempre acontece, se arrasta há mais de um ano porque o espetáculo é também um negócio que alimenta uma série de actividades económicas adjacentes, sobretudo a comunicação social de um país que mandando no mundo vive olhando para o próprio umbigo. Neste caso a vertente democrática do processo dual a que chamam plural foi um mau negócio, não houve primárias, foi preciso puxar pela parte republicana, que nunca se faz rogada porque há sempre muito assunto entre aqueles que, esmurrando-se uns aos outros, nem sempre com punhos de renda e sem cuidarem de evitar ambientes de saloon do velho Oeste, alimentam aquilo a que insistem chamar a agenda política.
A indústria eleitoral não se deixou contaminar pela monotonia democrática, conseguiu, com knowhow há muito adquirido, inventar polémica onde aparentemente não haveria razões para que existisse, definiu os campos de batalha e desta vez – o que não quer dizer que tenha sido a primeira – não hesitou em brincar com o fogo. Negócio é negócio, há que procurar receitas ainda para mais em tempos de crise.
Por muito que o presidente-candidato-favorito Obama não o desejasse, foi arrastado para um tema incómodo, a situação no Médio Oriente e a respetiva correlação com a mítica bomba atómica iraniana, em vez de se concentrar nos candentes problemas sociais internos, não porque tenha especial vocação especial para isso mas porque é terreno de onde os trauliteiros e ultraliberais falcões republicanos se retiraram ostensivamente.
Embora a perigosa armadilha esteja aparentemente desativada, mas apenas em termos de calendário eleitoral, isto é, até ao dia da votação, 7 de Novembro, o contexto em que foi montada é um exemplo de política suja e perigosa. E envolveu formalmente partes terceiras, neste caso o Estado de Israel representado pelo seu primeiro ministro.
Os ingredientes, com ou sem coordenação prévia mas tendo convergência prática e objectiva, foram a mal contada história do filme insultuoso para o islamismo com oportuna antestreia no Youtube e que provocou o assassínio do embaixador dos Estados Unidos na Líbia por protegidos da NATO; as exigências vindas do nada para que o regime sírio aceite inspeções a supostos sítios onde estaria a trabalhar ou já teria trabalhado para obter a bomba atómica, caso contrário… (já conhecemos o processo); e o amuo entre Obama e Netanyahu devido à pressa deste em atacar militarmente o Irão porque a bomba estaria quase pronta, mesmo que veteranos dos experientes serviços secretos israelitas considerassem esse voluntarismo um perigoso disparate. Era imperativo, para o primeiro ministro de Israel, que a agressão fosse praticada antes de 7 de Novembro, pelo que Obama surgia como um frouxo por estar a furtar-se a essa responsabilidade pondo interesses eleitorais pessoais acima da “segurança mundial”.
Surgiu então em cena, vindo do abalado campo republicano, o cavaleiro salvador, o pistoleiro disposto a tudo, Mitt Romney, pronto a atacar o Irão, a pontapear o direito internacional instalando a embaixada norte-americana em Jerusalém, garantindo que os palestinianos não querem a paz, admitindo como natural a colonização israelita, enfim tão Netanyahu como Netanyahu.
Obama, que há muito parecia eleito, ficou em maus lençóis, principalmente porque é conhecido o peso dos lobbies judaicos na sociedade norte-americana, sobretudo na indústria da comunicação, ainda mais estratégica neste período de campanha.
Também do nada surgiu em tempo útil o contra-golpe das hostes de Obama. Um vídeo gravado secretamente por um intruso captando confissões políticas íntimas de Romney, despindo o candidato republicano de roupagens que ajudavam a disfarçar a sua cumplicidade com o que de mais conservador, reacionário e belicista existe na direita republicana. Um retrato em que Romney ficou mesmo mal perante os republicanos que não se identificam com a truculência aventureirista e que, para mal do candidato, são essenciais para que ganhe a eleição.
A reação democrática terá resultado. No seu discurso na Assembleia Geral da ONU Netanyahu fez um golpe de rins, admitiu que ainda sobra tempo para atacar o Irão depois de 7 de Novembro. Seguiu-se uma aproximação a Obama que o presidente, sentindo que somou mais pontos neste assalto do combate, impôs que se fizesse apenas por telefone. Entretanto Romney ficou a contas com os destroços provocados pelo vídeo e, aparentemente, Obama ter-se-á livrado do fantasma iraniano que destruiu a carreira política do democrata Carter e permitiu a chegada ao trono imperial de Ronald Reagan, senhor da guerra e agente do poder de dinheiro cuja herança permanece hoje viva e atuante.
Assim se pratica aquilo que dizem ser a alta política mundial.

Muito bom. Como sempre, uma análise muito bem feita.