24 de Janeiro de 1971. “Uma viagem de regresso incerto”
(…) As tropas já haviam desfilado defronte da tribuna apinhada de oficiais generais, ladeados por “serviçais ocasionais da caridadezinha” do MNF, e estavam agora a ser “empurradas” para o fundo dos porões daquele velho cargueiro, que há muito já deveria ter sido desmantelado num qualquer estaleiro de sucata. Eram cerca de 11,00 horas do dia 24 de Janeiro de 1971, e o Cais de Alcântara assistia ao embarque do Batalhão de Caçadores 3834 composto pela Companhia de Comando e Serviços, da Companhia de Caçadores 3309 (de que eu fazia parte) e das Companhias de Caçadores 3310 e 3311, todas elas com destino ao reforço das tropas estacionadas em Moçambique, dando continuação à ocupação colonial daquele território banhado pelo Índico.
“Não nos roubem um pedaço de nós”
(…) No Cais de Alcântara os altifalantes da Gare Marítima entoavam o hino interpretado em jeito triunfal pelo Coro da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT) enquanto que ao fundo do cais, por entre expressivos desejos de um regresso que se previa incerto, alguém mais inconformado “explodia como se fora um vulcão, expelindo toda a sua lava transformada em revolta”, por ver partir alguém que saíra das suas entranhas e até ali lhe garantira o sustento:
– “filhos da puta … vão para lá vocês!
– “o meu filho faz-me mais falta do que para guardar os vossos cafezais!
Depois de as tropas terem desfilado junto da tribuna onde se perfilaram os oficiais generais, lado a lado com as burguesas do Movimento Nacional Feminino (MNF) que exibiam os seus casacos da astracã na companhia dos assíduos representantes da igreja católica (que sempre abençoaram aquela guerra “contra o inimigo vindo de Leste”), lá em cima no terraço, por entre laivos de patriotismo misturados com expressões de revolta, agitavam-se imensos lenços brancos que acenavam de raiva (depois dos soldados terem embarcado) para todos os que entretanto agitavam as suas boinas e se penduraram nos mastros e nas amuradas do NIASSA, que aos poucos se afastava do cais e fazia soar cinco apitos estridentes, cujo roncar fazia lembrar a distância entre aquela partida forçada e o aconchego familiar cada vez mais ausente, enquanto que a PIDE, aproveitando-se da angústia, do lamento e do desespero, ia fazendo as primeiras prisões para tentar silenciar os protestos (…)
Carlos Vardasca
“Há festa no cais de Lourenço Marques”
(…) Depois de ter feito escala por Luanda em 05 de Fevereiro, nove dias depois o navio “Niassa” atracava no porto de Lourenço Marques (Maputo) a 14 de Fevereiro de 1971 pelas 10,00 horas. O navio pareceria “exausto”.
Depois de encostar à muralha, o velho navio parecia querer descansar de uma viagem prenhe de angústias, onde as incertezas começavam a avolumar-se à medida que os soldados se aproximavam da frente de batalha. Foi ali naquele porto que a todo o Batalhão foram entregues as G3 e outro material bélico ligeiro, material esse que os iria acompanhar até aos diversos destacamentos onde iriam ficar estacionadas as diversas Companhias que compunham o Batalhão de Caçadores 3834. À chegada do navio “Niassa” àquele porto, aguardava-o no cais uma fanfarra do exército e um cordão de tropas da Polícia Militar.
Os primeiros, entoavam uma marcha triunfal, que pretendia exaltar o espírito “patrioteiro” de quem há muito fora “arrancado do aconchego familiar” e se sentia prisioneiro do enjoo, e os segundos, tentando prestar guarda de honra a um amontoado de jovens que, depois de viajarem “acorrentados” nos porões, se viam agora alvo de uma cerimónia efémera, elevados momentaneamente à categoria de “celebridades” que muito rapidamente seriam esquecidas.
Sobre a população civil, nem viva alma compareceu no cais para “glorificar” aqueles militares, que a uns ia proteger alguns interesses e permitir-lhes uma vida faustosa na capital, mas a outros (apesar dos fracos recursos), garantir um ilusório “novo-riquismo” personificado na “criadagem que mantinham a troco de nada”, e a exibiam como troféus nas fotos que enviavam para a “Metrópole”.
Era frequente ouvir-se nos seus “bocejos coloniais” um total desprezo por tudo o que se passava mais a norte, dizendo, com alguma desenvoltura e arrogância, revelando um total desprezo por todos quantos foram “arrancados” dos seus lares e ali chegavam para proteger a sua opulência:
– Guerra aqui? Nós não sentimos nada! – Essa coisa das minas e das emboscadas e ataques, isso é lá para cima para norte, e além disso não é nada connosco”.
Indiferente a tudo isto, o “Niassa”, esse monte de ferro que há muito devia estar num qualquer estaleiro de desmantelamento, largou do cais de Lourenço Marques no dia seguinte pelas 21,00 horas rumo a Nacala, onde chegaria pelas 16,00 horas, já sem a Companhia de Caçadores 3311 que desembarcara em Lourenço Marques para seguir aerotransportada para Negomano, seu local de destino, onde chegou no dia 18 do mesmo mês (…)
Carlos Vardasca
