EM COMBATE – 195 – por José Brandão

Companhia de Artilharia 3503

MOÇAMBIQUE

1972-1974

  Como eu me Enganei

Janeiro de 1971, dia 12. Quatro rapazes num mini que foi reparado para esse fim, arrancaram da nossa terra com destino ao serviço militar.

Chegados ao destino por volta do meio-dia, almoçamos num restaurante cá fora e só entramos no quartel por volta das três da tarde, onde nos foi dada a farda que tinha um cheiro a naftalina que só desapareceu quando no ultramar deixei de ser checa.

Passados estes anos todos, ainda recordo aquele primeiro dia de tropa, onde á noite deitado na cama a olhar para as telhas da caserna iluminadas com a luz de plantão, e com os olhos em lágrimas, a perguntar a Deus se iria sair dali com vida e inteiro. Foi uma pergunta sem resposta, mas conforme o tempo ia passando, ia-me convencendo que sim. Mas por vezes, e muitas, pensei que não.

A recruta foi feita, deram-me a categoria profissional de atirador de infantaria, e fui destacado para Tavira, para o velhinho quartel da Atalaia CISMI; aí reparei que além de outros rapazes da minha idade, havia um que estava a fazer justamente o mesmo percurso que eu, era o Camões, isso veio a confirmar-se porque dali fomos para Aveiro dar recruta, embora ele tenha ficado cá em cima no R.I.10 e eu lá para baixo para o 5 onde não havia chicalhada, e por isso mesmo, andávamos mais á vontade.

Foi ali, numa tarde de um belo dia de sol que tive conhecimento que estava mobilizado para o ultramar, para província de Moçambique. Um dia de sol que nesse momento ficou negro, mais negro que o negro do luto.

E foi nesse instante também que pensei: – Bem, deve ser melhor que ir para Angola ou Guiné, porque não se fala tanto. Mal eu sabia o que me esperava.

Após a instrução, e com a ordem do dia cá fora, fui procurar os outros companheiros para saber qual a situação deles, que não era melhor que a minha, pois estávamos todos mobilizados para as províncias ultramarinas. E mais uma vez o Camões iria fazer o mesmo percurso que eu pois íamos apresentar-nos no mesmo quartel em Penafiel, com destino a Moçambique, pertencendo ao mesmo batalhão, embora não à mesma companhia.

Mais tarde fomos para Viana do Castelo, ou seja para o velhinho quartel da Barra, e foi o que se passou aí que deu origem a esta minha recordação e a este texto.

Estávamos a 7 de Janeiro do ano 1972, com o embarque marcado para o dia 9 e eu de serviço, sargento de dia à companhia, na CArt 3503. Na CArt 3501, o Camões e na CArt 3502, o Pinto. Aquela era a última noite que iríamos passar ali, a seguinte seria passada no comboio em viagem para Lisboa, para embarcarmos para o ultramar no paquete “Niassa”.

Tudo correu às mil maravilhas, e assim nos vimos dentro do paquete “Niassa”. Quando este desatracou do cais, quem estava numa das suas repartições acenando para os familiares num adeus e até breve? E num desses momentos a acenar às famílias eu disse em voz alta:

– ESTAI DESCANSADOS QUE VAMOS REGRESSAR TODOS SÃOS E SALVOS!

Pois, caros amigos, como eu me enganei: o Pinto, passados cinco ou seis meses, ficou sem um pé; o Camões faleceu passado ano e meio de lá estarmos, e de uma maneira que só de pensar até me arrepio; o Candeias, a faltar poucos dias para os dois anos de lá estarmos também faleceu, foi um dos que morreram no dia 1 de Janeiro de 1974, quando levavam o pão ao pessoal da CArt 3503, que estava nas Bananeiras.

Dos quatro, só eu posso dizer que regressei são e salvo, com a graça de Deus, e vos digo como é tão fácil a gente enganar-se quando pensa ou imagina saber o destino de cada um.

Publicado por José Caseiro

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