(Continuação)
O mercado negro é que não pára de crescer e a guerra que vários governos movem ao narcotráfico não tem impedido o seu aumento, naturalmente pelos muitos milhões de dólares que movimenta, tornando-se, juntamente com o negócio e tráfico de armas, num dos mais lucrativos negócios, de tal maneira lucrativo que dá para comprar muitos dos que pertencem às forças criadas para o combater.
Mas, reparo agora, estou a esquecer a Turquia, continuando esta viagem a fazer-me divagar pelos mais variados motivos. Quem quiser desenvolver o estudo nesta matéria, tem a vida facilitada com a «internet», podendo também usar alguma bibliografia que o mercado livreiro põe à nossa disposição, como, por exemplo: BOOTH, M. Opium – A History, St. Martin´s Press. New York, 1998; GORDON, N. O Físico, tradução de Aulyde Soares Rodrigues, Ed. Rocc,. Rio de Janeiro, 2000; PATRICK, G.L. An Introduction to Medicinal Chemistry – 2ª- edição, Oxford University Press, 2001; ROBBERS, J. E. SPEEDIE, M.K. TYLER, V. E. Farmacognosia e Biotecnologia. Editora Premier, 1997 e SILVA, P. Farmacologia, 5ª- edição. Ed. Guanabara-Koogan, Rio de Janeiro-RJ, 1998. (Fonte: www.sbq.org.br). Mas talvez que a grande obra sobre esta matéria seja «Historia general de las drogas», do espanhol Antonio Escohotado Epinosa, professor de filosofia e metodologia da ciência, de que o próprio autor diz «que acabou por ocupar três volumes de letra pequena e exíguas margens», na justificação da edição, a que poderemos chamar resumo da anterior, «História Elementar das Drogas», editada em português, numa tradução de José Colaço Barreiros, pela Antígona – Editores Refractários, que recomendo vivamente. Para vos aguçar o apetite, transcrevo desta História Elementar:
“As plantações de papoila-dormideira no sul de Espanha e da Grécia, no noroeste de África, no Egipto e na Mesopotâmia, são provavelmente as mais antigas do planeta. Isso explica que o seu ópio tenha duas a até três vezes mais morfina que o do Extremo Oriente.
A primeira referência escrita a esta planta aparece em placas suméricas do terceiro milénio a. C, por meio de uma palavra que significa também «gozar».”
Mais à frente, ainda referindo-se ao ópio, escreve o nosso autor:
“O seu emprego médico remonta possivelmente aos primeiros templos de Esculápio, instituições algo parecidas com os nossos hospitais, (…) O tratado hipocrático sobre a histeria (…) recomenda o ópio como tratamento.”
No capítulo O MUNDO ROMANO, escreve:
“Diz a lex Cornelia, único preceito geral sobre o assunto, em vigor desde os tempos republicanos até à decadência do Império:
Droga é uma palavra indiferente, onde cabe tanto o que serve para matar como o que serve para curar, e os filtros de amor, mas esta lei só reprova o que for usado para matar alguém.”
E, o que merece o nosso total acordo, Antonio Escohotado Epinosa termina assim esta sua pequena história sobre as drogas:
“É do ser humano, e de modo nenhum das drogas, que depende o remediarem ou estragarem. Tal como existiram sempre, em toda a parte, e ¾ a julgar pelos dias de hoje ¾ amanhã haverá mais do que ontem, a alternativa não é um mundo com ou sem elas. A alternativa é instruir sobre o seu emprego correcto ou demonizá-lo indiscriminadamente: semear o conhecimento ou semear a ignorância.”
Vermos extensos campos de papoilas, cuja produção se destina a fins medicinais, é o aspecto positivo, mas o outro lado da questão, o mercado negro e os grupos mafiosos, também estão presentes na Turquia. Desde meados do século passado, como referem vários estudos de organismos ocidentais, grande parte da heroína produzida no Afeganistão, no Paquistão e no Irão, (no conhecido «Triângulo Dourado» – Birmânia, Laos e Tailândia – dominam as tríades chinesas), tem sido canalizada para a Europa e para os EUA através da Turquia, o que será possível com algumas conivências de membros corruptos das autoridades que combatem tal tráfico, como acontece em muitos outros países (Escócia, Inglaterra, Holanda, EUA, Canadá – vide http:/www.artigonal.com/educação-artigos/criminalidade-organizada-as-organizações-tradicionais-1224897.html), sendo muito difícil controlar palmo a palmo uma fronteira como a da Turquia, nomeadamente a extensa fronteira marítima, o que os traficantes bem sabem. O Mar Mediterrâneo é uma das portas de entrada de vários tipos de droga na Europa, quer droga vinda do referido «Triângulo Dourado», quer droga vinda do norte de África, droga em África produzida ou vinda do continente americano, do México, nomeadamente. Leia-se, por exemplo, «A Rainha do Sul», de Arturo Pérez-Reverte, talvez um dos escritores mais bem informado sobre o tráfico de droga, a que a sua experiência de jornalista não é nada estranha.
Em 26 de Março de 2011, publicou o Jornal i um artigo de André Rito, intitulado «Máfia turca. Os “martelos” nunca fazem segundo aviso», que nos informa de que «Fundada em Istambul, com base na Holanda e uma importante ramificação na capital espanhola, a máfia turca controla o tráfico de heroína por quase toda a Europa.» Mais à frente, transcreve uma explicação da Polícia Judiciária Portuguesa, que diz: «Hoje em dia já não é muito frequente, mas não há muito tempo o corte de cabeça era imagem de marca da justiça marginal turca», acrescentando o jornalista: «Normalmente, a cabeça é transportada pelos “martelos” e exibida depois aos superiores como prova de serviço».
André Rito termina assim o seu artigo: «Instalada nos principais países de destino dos emigrantes turcos, a máfia nascida em Istambul é hoje considerada a segunda mais poderosa de todo o mundo, imediatamente a seguir à italiana. Está normalmente associada ao tráfico de droga e armas, mas também a negócios relacionados com redes de prostituição e extorsão. O ópio afegão entra na Turquia vindo directamente do Irão e aí transformado em laboratório, num negócio que rivaliza há dez anos com a máfia albano-kosovar.
(Continua)
