TEMOS DE MUDAR O MUNDO – por Mário de Oliveira

Editorial 50 do jornal Fraternizar (transcrito, com a devida vénia e com a autorização expressa do autor)

 

Temos de mudar de mundo. E, para isso, temos de mudar de Deus. O mundo que criamos e no qual vivemos é um inferno. Porque é um mundo fundado na idolatria. E dizer idolatria, é dizer mentira. O mundo que criamos e no qual vivemos é um mundo de pernas para o ar. Desde logo, porque é um mundo em forma de pirâmide, uns poucos, muito poucos, em cima, a abarrotar de privilégios, e todos os mais, em baixo, a comer as bolotas reservadas aos porcos, ou já nem sequer as bolotas reservadas aos porcos. Todos cientificamente anestesiados. Por overdoses de novelas rascas. De futebol, o dos milhões. De religiões, quanto mais esotéricas e patetas, melhor. Mais um pouco, e já nem há mais, entre o topo e a base da pirâmide, uma imensa minoria de segunda categoria, amortecedora de conflitos sociais, chamada classe média (afinal, sempre há classes!). Mais um pouco, e todos, à excepção daqueles muito poucos que vivem no topo, viveremos na base. Nos escombros. Entre as ruínas. Nas periferias, mesmo que estas se encontrem no centro das grandes cidades.

 As chamadas religiões do Livro – judaísmo, cristianismo, islamismo – são as grandes responsáveis pelo tipo de mundo que temos. Há outras religiões que também não estão isentas de culpa, mas, até essas outras estão a ser progressivamente substituídas pelas três religiões do Livro. Ora, todas as religiões são perversas e fonte de perversão. Ainda que os filósofos e os teólogos digam que não, e que elas são o que há de melhor sobre a terra. Não é verdade. Todas as religiões são perversas e fonte de perversão, porque, na sua génese, está um Ídolo que, há milénios, se tem feito passar por verdadeiro Deus. É o pai da mentira e do Poder, mas chamam-lhe Deus! É este o Ídolo que está na génese do mundo em que vivemos. E nós, que nele nascemos e o habitamos, somos todos educados/formados/formatados para o reconhecermos como Deus e o adorarmos.

 O ateísmo, nos séculos e milénios passados, carregados de deísmo, sempre foi considerado e tratado como uma postura politicamente subversiva/conspirativa/perversa. Mas hoje, terceiro milénio, já nem sequer o ateísmo é visto e tratado assim. Pelo contrário. Hoje, é de bom-tom, sinal de progressismo, ser/dizer-se ateu. Ou agnóstico. Porque o ateísmo/agnosticismo mais não é do que a outra face da idolatria. O Deus que o ateísmo nega nunca existiu. Tal como o Deus que as religiões do Livro proclamam, crêem, adoram, propagam através das Missões, também nunca existiu. É um Ídolo/Mentira, nada mais que isso. Mas um Ídolo/Mentira que sempre nos foi apresentado como Deus, o verdadeiro Deus. E sobre este Ídolo/Mentira, está edificado este mundo que temos e onde vivemos.

 

Temos de mudar de mundo. Mas para isso temos de mudar de Deus. Passar do Ídolo/Mentira, para Deus Abba-Mãe, que nunca ninguém viu. Nem o Moisés do judaísmo. Nem o Cristo ou o Jesuscristo do cristianismo. Nem o Maomé do Islamismo. O Deus das religiões do Livro é o Ídolo dos ídolos. Por isso, o pai da mentira, da idolatria, que está na origem do mundo em que vivemos.

 

Mas como fazermos a experiência de Deus Abba-Mãe, se nunca ninguém O viu, nem Moisés, o do judaísmo, nem Cristo, o do cristianismo, nem Maomé, o do Islamismo? Só há um caminho, uma porta. Que está aí sempre bem diante de nós, dentro de nós, entre nós e connosco: O caminho, a porta, somos nós, os seres humanos, maieuticamente religados uns aos outros, e sempre ao modo de vasos comunicantes.

 

Há dois mil anos, um ser humano, chamado Jesus, o filho de Maria, diz, no pleno da sua fragilidade humana maiêutica desarmada, que é o Caminho, a Verdade e a Vida. E que fora do humano, que ele é, que todos nós somos, não há salvação, pelo que o mundo edificado fora do humano é um inferno. Os dirigentes máximos da mais antiga religião do Livro – judaísmo – seus concidadãos, acharam que aquele judeu Jesus, camponês-artesão de Nazaré, só podia ser um louco. E, pelo sim, pelo não, decidiram matá-lo. Desde então, nunca mais quiseram saber dele, nem da sua boa notícia. E com o passar dos anos, em vez de acabarmos de vez com a mais antiga religião do Livro, ainda fomos a correr dar corpo a mais duas religiões do Livro: o cristianismo e o islamismo.

 

Pois bem. Ou regressamos a Jesus e à sua boa notícia, e, nele, a nós próprios e uns aos outros, em ininterrupta reciprocidade maiêutica, vasos comunicantes, e damos corpo a um mundo outro, ou acabamos todos abaixo dos porcos, sem sequer bolotas para comer. Depois, no desespero da fome, tornamo-nos antropófagos, comemo-nos uns aos outros. E desaparecemos do universo.

 

Escolher é preciso. E escolher já. Amanhã, é tarde de mais!

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