EM COMBATE – 200 – por José Brandão

Batalhão de Caçadores 5014

MOÇAMBIQUE

FORMAÇÃO DO BATALHÃO 5014

Tudo começou no Verão de 1973. Na época, o país encontrava-se “orgulhosamente só”, pois do estrangeiro, salvo raras ajudas economicamente interesseiras, as Nações Unidas veementemente vetavam o prosseguimento da guerra contra os grupos de libertação das províncias africanas. Por outro lado, o povo português, subjugado às rédeas do poder ditatorial, opunha-se à manutenção de uma luta fratricida, cujas principais consequências eram a perda e estropiação dos seus filhos e o empobrecimento acentuado da economia nacional. Aos poucos, os militares foram chegando ao BC 10, o quartel da cidade de Chaves. Uma vez acantonados, os jovens militares, distribuídos pelas quatro Companhias do Batalhão, cumpriram um período de acelerada instrução teórico-militar, dita de preparação para a guerra de guerrilha a enfrentar nas densas e perigosas matas das ex-províncias ultramarinas. Obrigados, sabíamos que tínhamos de ir combater para um continente estranho, para uma terra longínqua que não nossa, contra alguém, jovens como nós, que desconhecíamos – assim como os seus ideais políticos. Tudo suportámos para mais tarde podermos enfrentar, no nosso país, a luz dos dias, com um sorriso nos lábios, mesmo se estes sentissem o amargo paladar da dor.

BATER SOLA E… BATER SOLA

Com a entrada no mês de Setembro e a data da partida para África aproximando-se, em flecha, os primeiros tiros com fogo real, finalmente, fizeram-se ouvir. Alinhados na carreira de tiro, os soldados experimentaram o “coice” da G3 e puderam sentir o silvo agudo da música das balas, cortando o ar antes de atingir o alvo. Urgia dotar o Batalhão com uma preparação que visava, sobremaneira, a vertente física dos seus homens. Por mais que se simulassem situações dignas de um filme de guerra ianque, a verdadeira aprendizagem só poderia ter lugar no terreno, em condições naturais, com o cheiro da pólvora e do trotil, interiorizando o mistério e o perigo da mata, embrenhados na humidade quente do clima africano. Todavia, contingências políticas nacionais contribuíram para a permanência do Batalhão, em território continental, durante mais um bom par de dias.

DESPEDIDA DE CHAVES

Foi-nos dito que tínhamos sido contemplados com 15 dias de férias, pelo bom desempenho ao longo dos últimos tempos. Grande mentira! Como se não tivéssemos direito às férias de mobilização! Graças a esta deliberação, publicada em Ordem de Serviço, iniciou-se o processo de devolução do material fornecido pelo quartel. E o arrumar da mala torna-se já um hábito rotineiro. Ora arruma, em seguida desarruma, para depois voltar a arrumar e assim por diante. Desta vez, temos que aproveitar todos os momentos para revisitar os lugares e pessoas mais queridos, porque a despedida aproximasse. E quantos de nós estarão certos do seu regresso ao lugar, à terra que o viu nascer? Nenhum!

VIANA DO CASTELO

1-10-73 Atravessar a imponente ponte de ferro sobre o rio Lima, ainda que em velocidade reduzida, torna-se um verdadeiro acto de equilíbrio, com o tabuleiro aos tremeliques sob as muitas toneladas de ferro do nervoso comboio. À medida que a corrente do rio se fundia com a maré salgada, a bela Viana espreguiçava-se diante dos nossos olhos, rendilhada, com o seu casario branco em fuga para o Atlântico azulado. Chegou a ocasião de usufruirmos da derradeira preparação antes do malfadado embarque. O Batalhão, estacionado no Forte de Santiago da Barra, aprestou-se a enfrentar o IAO nas cercanias do monte de Santa Luzia. Felizmente, que a esplendorosa panorâmica citadina, observada do alto do monte, recosta-se adormecida na tela natural dos nossos olhos.

A ENTREGA DO GUIÃO

A rotina diária tem sido quartel, quartel e, à noite, ronda aos pubs locais. Hoje, foi dia de tratar a saúde. Do comandante ao último soldado da lista, em fila, todo o Batalhão aprontou o braço esquerdo para ver e sentir espetar-lhe uma comprida e torta agulha injectando o antídoto contra a varíola. Apesar de ser sexta-feira, Viana parece que parou e saiu à rua para nos ver desfilar. Alinhados, como convém, gravata composta e boina ao lado, pernas bem levantadas e braços esticados, o Batalhão caprichou em deixar boa impressão à cidade que tão bem o acolheu antes da partida para o Ultramar. Fez-se a entrega do guião que acompanhará o Batalhão, em cerimónia pública. E as principais avenidas e ruas de Viana puderam observar como os nossos militares, briosos na sua farda bem vincada, e orgulhosos no seu querer, se dispõem a enfrentar as mais inusitadas dificuldades, “lá longe, onde o sol castiga mais”, alimentando a saudade e o amor.

1 Comment

  1. Bom dia.Eu era da segunda companhia do batalhao 5014/73.Era o cabo condutor Cordeiro,estive no Zobué(tete)de novembro 1973 a Dezembro de 1974.

Leave a Reply