SETE NUVENS NEGRAS SOBRE O MUNDO, SOBRE A EUROPA NESTE FIM DE VERÃO, NESTE PRINCÍPIO DE OUTONO DE 2012.

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

 

(continuação)

Segunda e terceira nuvens

(2)   Desemprego nos EUA

O emprego nos  Estados Unidos tem estado lentamente a aumentar   desde a Primavera de 2009, embora mais lento do que o esperado, dada a taxa de crescimento do PIB verificada. Novos números semanais quanto ao desemprego (com ajustamento  sazonal) têm variado  entre 360,000-400,000 desde 24 de Setembro de 2011.

Todas estas descrições seguras da  nossa “depressão” e da  iminente recessão têm consistentemente provado serem falsas.

(3)   Europa: declínio lento e de forma consistente

A maior surpresa para mim vinda da economia mundial tem a sua origem na Europa. Não o declínio lento das economias periféricas; isto era  óbvio e era um inevitável resultado das  suas políticas de austeridade (a retoma económica  permanece quase impossível  sem nenhuma combinação de desvalorização da moeda, de  estímulos orçamentais   ou de taxas radicalmente inferiores – em grande escala).

A surpresa é que as nações têm mantido a sua coesão e num contexto  de  enorme stress nestes últimos anos . Por exemplo, o desemprego na Grécia  foi de 16,3% no 2 º trimestre de 2011, de  22,6% no 1 º trimestre deste ano  e de 23,6% no 2 º trimestre. Apesar da histeria nos EUA por causa  dos  seus pequenos protestos (por exemplo, no Zero Hedge) as pessoas têm resistido muito bem às adversidades. Talvez demasiado bem (forçar a aplicação de novas políticas poderia ter sido bem mais sensato).  Ainda mais surpreendente, os americanos permanecem muito interessados no  projecto de unificação europeia.

O que é que vem em primeiro lugar: a retoma da economia, ou uma qualquer perturbação que   venha romper o tecido social nas  economias ditas  periféricas?  Na minha opinião vem uma forte  ruptura no tecido social. Isto encaixa bem. Note-se que o suporte para a unificação continua forte nos países do norte da Europa, apesar das seguras previsões de revolta pública contra a unificação.

E para confirmarmos o que se acaba de escrever, olhemos  para o que se passou na zona euro nas  últimas duas a três semanas.

A  Espanha e a Grécia estiveram envolvidos  em protestos violentos esta semana com os  cidadãos a manifestarem-se contra as medidas de austeridade nas ruas.

A maior e mais importante região  da Espanha, a Catalunha, ameaça agora separar-se  do país na base de reformas económicas controversas.

A Grécia está desesperadamente a  tentar  encontrar mais coisas que possa  cortar no seu  orçamento  e a realidade   no dia a dia torna torna-se cada vez mais comovente .

Até mesmo Portugal, um país que na sua maioria evita as grandes manchetes sobre a  crise nos dias de hoje, enfrentou grandes protestos nas ruas contra s políticas de austeridade na semana passada.

E este foi o calendário.

Então, onde é que está  aqui a  falta de ligação?

A publicação em Espanha sobre os detalhes  do seu orçamento de 2013 é hoje  um exemplo perfeito de onde a podem encontrar. O orçamento é construído em torno do pressuposto de que o PIB de Espanha vai diminuir apenas 0,5 por cento no próximo ano. Mas, como muitos analistas apontam, essa suposição é descontroladamente fantasiosa.

E se esse pressuposto  não funcionar, não há ninguém capaz de poder  salvar a Espanha. Não o BCE. Não, a  Alemanha. Não o FMI.  Simplesmente, ninguém.

O director geral de estratégia cambial da Société Générale,  Kit Juckes,  ressalta que esta é a única coisa que todo mundo sempre parece esquecer com a crise, quando se olha   como os  bancos centrais que estão finalmente a chegar  para o resgate.

Numa nota para os seus clientes,  escreve:

Os protestos espanhóis e gregos fizeram  as caixas dos  jornais  e são um sinal de aviso de que o dinheiro do BCE não vai fazer com que a recessão  se vá  embora e até que uma estratégia de crescimento seja  implementada pelos  políticos da Europa, esta crise não pode ser conduzida para um fim satisfatório . O mercado cambial  está a tentar  fazer a sua parte, vendendo o euro, e o EUR/USD a 200 dias em média móvel a  1.2830 continua a ser a porta de entrada porá uma arajem  fresca . Eu pessoalmente gosto da descida do euro face ao dólar e face à libra.

As autoridades da União ainda estão a jogar juntas, demasiado mesmo.  O Vice-Presidente da Comissão Europeia,  Olli Rehn, disse  numa  declaração hoje que  o novo orçamento da Espanha superou todas as expectativas da UE. Mas, novamente, é tudo baseado em suposições completamente irrealistas sobre o  crescimento que provavelmente não se vai materializar.

As projecções do FMI agora publicadas são um bom exemplo do que se tem estado a dizer:

E isto significa claramente, a verificar-se, que a crise na Europa vai continuar – e assim vamos assistir a mais uns tantos sinais adicionais de enorme fadiga quanto ao euro nos próximos meses e consequentemente a muitos protestos sociais, a confirmar o quadro sugerido pelo analista financeiro citado. E assim deve continuar a ser ao tomarmos também como referência as projecções do FMI para a zona, para a Espanha e para a Itália, para estes países em particular, para não falarmos já da situação em Portugal, um país verdadeiramente à beira da implosão mas a ser saudado em Bruxelas, como exemplo do bom trabalho a fazer. Como na Letónia, onde Christine Lagarde e Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI, gritavam vivas à austeridade. Tudo bem segundo eles, então, como no Índice avançado da OCDE!

(continua)

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