EM COMBATE – 201 – por José Brandão

NOVEMBRO CHEGOU…

Definitivamente, as datas estão confirmadas. A partida para Moçambique terá lugar a 25 de Novembro. Nesse dia, a CCS e a 1ª Companhia estarão já em África. Agora, um fim-de-semana prolongado permite-nos ir a casa para a despedida. Não uma despedida definitiva, que ninguém deseja; antes, um sentido “adeus, até ao meu regresso”. E que esse regresso seja feliz para todos.

SÁBADO, 24 DE NOVEMBRO DE 1973

Ao lado da guarita, o militar observava o horizonte do vasto oceano, misturado com o azulado do firmamento, onde, o rasto esbranquiçado de um avião, traçava o rumo a seguir: para o Sul. Uma tristeza profunda invadia-lhe o ser. Também ele aprestava-se para seguir a mesma direcção, onde o calor aperta e a terra vermelha é povoada por gentios de pele negra, professando outras religiões, falando outras línguas e vivendo outras culturas. Parecia-lhe distante o dia da sua apresentação no BC 10, em Chaves, para formar o Batalhão Expedicionário 5014, e a sua integração na 2ª Companhia. E depois, as actividades realizadas ao longo de onze semanas… fazer continência aos superiores hierárquicos, marchar, correr, rastejar, fazer flexões, a instrução nocturna, a carreira de tiro, o fogo real, o juramento de bandeira,… a mobilização para África,… Ali estava ele, mais os seus companheiros de armas, com guia de marcha para a província ultramarina de Moçambique, aguardando o dia seguinte, o dia da partida, para cumprir uma comissão de serviço militar. Poderia ter fugido para a Europa. Mas para quê? Era ali que viviam os pais, os irmãos, os amigos, a namorada… Ali, era o seu lugar. Partiria, com fé e muita esperança em regressar são e salvo. E quem sabe? Talvez até a guerra acabasse…!

DOMINGO, 25 DE NOVEMBRO DE 1973

Toca a levantar, rapaziada! – gritou o sargento de dia à Companhia, ainda o corneteiro de serviço à Unidade tocava as últimas notas da alvorada. Pequeno-almoço devorado à pressa e eis-nos formados na parada. Ao lado, tossiam bufadas de fumo os motores das Berliet, numa fresca manhã de Outono. No braço, o relógio marcava as 07H10, quando foi dada a ordem para abandonar o quartel. Na estação ferroviária, despertava, da sonolência nocturna, o comboio que nos haveria de transportar até à capital do último império colonial. Um dia passado, deslizando sobre os carris do país, de norte a sul, é demasiado tempo para deixar o corpo moído pelos constantes balanços da velha carruagem. Bem no íntimo de cada um, a chaga da traição do país que optou por enviar os seus filhos varões, na flor da idade, para o palácio da morte, transformava-se numa pequena ferida que nem o jogo da sueca conseguia disfarçar a angústia depositada no âmago do ser de cada um. No aeroporto militar de Figo Maduro, em Lisboa, antecedendo a partida, a Companhia foi autorizada, por breves instantes, a confraternizar com os familiares, namoradas, noivas e amigos. Apesar da situação, os jovens milicianos procuravam aparentar a serenidade camuflada e facilitar as despedidas. Mas nem todos tiveram a possibilidade de receber os últimos conselhos dos familiares mais queridos, guardar um abraço amigo, provar o beijo amargo da partida. Os furriéis ilhéus, da Madeira e dos Açores, apenas encontraram o vão consolo da partida, no gesto solidário de uma desconhecida figura feminina que lhes ofereceu uns pastéis de bacalhau. Eram então 22H30, quando a “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, foi interrompida e uma voz masculina, grave e pausada: – Senhores passageiros do voo TAM-Transportes Aéreos Militares, com destino à Beira, queiram dirigir-se à porta de embarque. Minutos volvidos, correndo sibilante, a aeronave cinzento-escuro levantou voo, qual pássaro acabado de fugir da prisão de uma gaiola, desafiando a imensidão espacial. No ventre, levava uma Companhia de Caçadores, para as matas de Moçambique. Alguns companheiros de armas tentavam camuflar o nervoso miudinho com sorrisos disfarçados, respondendo às larachas do Primeiro-sargento. Mas a maioria deixava correr, face abaixo, uma lágrima teimosa, qual cartão de despedida. Emudecidos, alguns recusavam-se a crer na realidade, tantas vezes adiada e ruminavam pensamentos macabros. Engoliam, a seco, gritos de revolta contra os profissionais da guerra que sangra, que fere, que mutila e, pior, muito pior, que mata. Os milicianos, porém, impulsionados pelo acelerar contínuo do coração, sustentando a revolta armazenada na alma, formulavam hipóteses de sobrevivência. Mas nem o suave fresco do ar condicionado conseguiu arrefecer o calor emocional deste punhado de homens, movendo-se e removendo-se nos bancos, para “tentar esquecer”, enquanto o avião acelerava sobre o Tejo, coalhado de navios, cujas águas serenas dormitavam delicadamente nos braços do oceano. De nariz colado ao vidro da janelita, os olhos fitando o monumento ao Cristo Rei, em Almada, o soldado Sousa Silva, o SS, para os amigos, lança-lhe uma promessa, a ser cumprida mais tarde, se a sorte não lhe for adversa. – Um dia, quem sabe,…! Depois, hipnotizado pela escuridão exterior, lentamente, deixa tombar a cabeça sobre o ombro esquerdo e começa a sonhar. Acordado. Também se sonha acordado. Sonha com o seu lugar vago na fábrica em terras de França, de onde saiu para cumprir o seu dever patriótico. Sonha com a família, labutando nas terras altas de Trás-os-Montes e, divagando, antevê o dia do seu regresso triunfal ao lugar que o viu nascer, onde a terra dura e rude foi, um dia, também trabalhada pelas suas mãos, antes de ter dado o salto para a Europa à procura de melhores dias.

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