SEGUNDA-FEIRA, 26 DE NOVEMBRO DE 1973
09h15. O Boeing 707 das FAP aterrou no aeroporto de Luanda, para uma curta escala técnica. Fomos autorizados a visitar a aerogare por um período de três quartos de hora, tempo suficiente para uma revisão técnica ao avião. O furriel madeirense, Araújo, aprestou-se a ser dos primeiros a chegar ao bar. Pediu uma Coca-Cola. Era o seu primeiro contacto com aquela bebida americana, em vinte e dois anos de vida. Custava-lhe entender a razão da proibição de uso daquela marca ianque, no seu país. Portugal até era “amigo” dos States. E as Províncias Africanas não pertenciam à mesma nação? Coisas da governação salazarista! O furriel degustou com elevada sofreguidão a escurinha. De imediato pediu outra. E mais outra ainda. Era a sua vingança por tantos anos de interdição. Retornada às entranhas da máquina voadora, a Companhia reconfortou-se com uma espécie de almoço aquecido a bordo. Às 14h45m, locais, finalmente, o avião rolava na pista do aeroporto da Beira. Aberta a porta do pássaro metálico, sentiu-se bater no rosto, em fluxos contíguos, a humidade quente do clima local. Cambaleando, o cansaço tolhendo os movimentos, os militares pisaram solo moçambicano, após uma longa e extenuante viagem ao encontro do desconhecido. No terraço do aeroporto, misturados com a gente anónima da cidade, curiosa para presenciar o movimento contínuo de aterragens e descolagens das enormes naves, uma Companhia inteira, em ensurdecedora algazarra, aprestava-se a regressar ao seu Portugal.
Na euforia pelo retorno à terra materna, cantavam, gritavam e berravam. E aproveitavam o momento para, segundo a praxe militar, desejar as boas-vindas aos novatos na Província. Impetuosos, aclamavam os recém-chegados: – Sejam bem-vindos a África, chekas! – As tuas amigas, as minas, esperam-te na picada! – Vai para o mato, malandro! No trajecto para o quartel, e para descontrair a tensão nervosa acumulada ao longo dos últimos dias, – é urgente vencer o primeiro inimigo, o medo, – os mais extrovertidos lançavam piropos às mulatas, gingando o corpo esbelto, sob as capulanas de corres garridas, que lhes retribuíam, acenando da berma da estrada. – Olá, borracho! Que coisa gostosa! Ginga o mataco, ginga! – Então, coisinha bonita, tudo bem por cá? – Muana, espera por mim, amanhã, à mesma hora! Enquanto dezenas de frases telegráficas soavam no ar, os nossos olhares carregados de curiosidade varriam a beleza da paisagem tropical.
TERÇA-FEIRA, 27 DE NOVEMBRO DE 1973
Manhã cedo, depois de, pela vez primeira, vestirmos o camuflado, recebemos as espingardas automáticas G-3, as nossas novas e inseparáveis companheiras de trabalho, com a promessa de carinhosamente velarmos por elas. Novas, quer dizer, novos donos, porque elas já passaram por muitas, muitas mãos. Duas unidades de ração de combate, made in África do Sul, entupiam o bornal. Adeus cidade. Adeus civilização. Na estação ferroviária, o comboio apinhava-se de gente. Malas e embrulhos, trouxas e pacotes amontoavam-se no estreitíssimo corredor, complicando a passagem dos passageiros para os seus lugares. Um linguajar estranho, completamente imperceptível, mistura de dialectos, circula no ar. Três apitos sinalizaram a partida em direcção ao noroeste, distrito de Tete. Embrenhados pela paisagem indígena, e ajudados pela baixa velocidade da máquina, a Companhia assimilava, pouco a pouco, a realidade desta terra africana. E a contrastar o estado de espírito acabrunhado da chegada, os nossos militares tinham estampada no rosto, a vontade férrea de vencer, de dar o chuto final na sorte matreira e muitas vezes traiçoeira.
QUARTA-FEIRA, 28 DE NOVEMBRO DE 1973
A primeira noite, a caminho do interior da província, saldou-se por um acumular de insónias. O roncar grave do motor, os balanços da carruagem e, principalmente, as horríveis condições de acomodação são os responsáveis primeiros do cansaço matinal. Rói a lembrança do colchão da caserna, abandonado na Metrópole. Pelas nove horas, chegámos a Mutarara. A continuação da viagem ferroviária teve lugar noutro tipo de comboio, com paragem em Doa, onde encontrámos os companheiros da 1ª Companhia do nosso Batalhão Expedicionário 5014. Às 18 horas, pudemos, finalmente, desembarcar no cais da estação de Moatize, vila onde predomina a exploração carbonífera.
QUINTA-FEIRA, 29 DE NOVEMBRO DE 1973
A derradeira etapa deste longo percurso iniciou-se pelas cinco horas da manhã. Feita, na véspera, a integração da tropa local, dispersa pelos quatro pelotões de combate, a coluna de escolta militar às viaturas civis, com destino à fronteira do Malawi, iniciou a marcha ao encontro da coluna descendente do Nordeste, em lenta velocidade, à saída da cidade carvoeira de Moatize. No lugar conhecido por Cruzamento de Caldas de Xavier, confluência de três estradas, de terra batida, fez-se a permuta da escolta militar, sem demoras inúteis. Todos ansiavam poder regressar ao quartel e descansar da árdua tarefa da picada. Impondo um andamento mais rápido, pois a picada estava “aberta” – mesmo assim é sempre possível encontrar desagradáveis surpresas – a coluna estendia-se pela estrada, serpenteando o capim alto, esconderijo de desconhecidos mistérios africanos. No firmamento, as nuvens, também elas, por esta vez, negras, corriam velozes. O vento soprava forte, espalhando no ar o pó da terra, repleta de lombas e covas. É costume militar na chegada de novos contingentes, os mais velhos prontificarem-se a contar histórias – quantas delas verdadeiras? – de feitos bélicos acontecidos na sua área de jurisdição, não sem antes misturarem uma pitada de humor negro. É uma forma pacífica de entrar num clima de guerrilha. Entre narrações de cabeças decapitadas e fugas vitoriosas, episódios de urticária das micoses e paludismo, de minas e emboscadas, os “chekas”, título atribuído aos recém-chegados à Província, são introduzidos no seu novo habitat.
