Vou directo ao grão – Marcos Cruz

(pormenor de quadro de autor desconhecido)

Vou directo ao grão: o movimento que estamos a criar une, por enquanto, gente do mesmo círculo de amigos, mas com uma heterogeneidade considerável em termos de experiências profissionais.

O denominador comum, além da indignação e do ímpeto participativo, é a criatividade. Depois de uma reunião anárquica para despejar activos (e passivos) tóxicos uns sobre os outros, definimos no segundo encontro dois pilares para um desenvolvimento equilibrado desta intenção comum: acção e informação. O propósito inicial decorre de uma ignorância política que caracteriza a minha geração (40 anos), fruto de vários pós (pós-25 de Abril, pós de talco e, nalguns casos, outros mais estupefacientes), da protecção parental, das promessas cavaquistas, do hedonismo pré-milenar e de tudo quanto se quiser acrescentar para dourar o que será, na essência, a pura irresponsabilidade. Queremos, então, dar passos seguros para combater o (nosso) défice. Só depois poderemos ater-nos ao outro, que também é nosso, mas em menor parte, creio. Porém, como há nisto muita gente fervorosa, é preciso integrar dinâmicas diferentes: uma mais sentada, outra mais de pé. E então temos já acções planeadas para o imediato, à medida, e não acima, das nossas possibilidades. O filtro para cada acção será a honestidade: não mandar o barro à parede; fazer só aquilo que temos a certeza de que conhecemos a ponto de saber se é justo. Claro que, neste processo, a crescente informação do grupo vai aumentando a consistência e a ambição das acções, pelo que isto é uma espécie de roda de bicicleta que na sua rodagem vai crescendo para roda de mota e depois de carro e depois, se preciso for, de tanque. Uma das primeiras etapas, já em marcha, será fazer um fanzine, disponibilizado em pdf para todo o País de modo a que as pessoas possam descarregar em suas casas, além de ter também uma tiragem em fotocópia para distribuir em sítios mais recônditos, onde a informação não chega – ou seja, em todos…  Nesse sentido, gostaríamos de efectuar sessões de esclarecimento a cada segunda-feira, pelas 22.00, em espaços do Porto que vão sendo anunciados por email. Cada uma dessas sessões seria ministrada por um especialista no tema que venhamos a eleger para ela. O desejo é começar na próxima segunda-feira com um especialista em economia, para nos esclarecer sobre o euro e a dívida: como chegámos aqui, prós e contras da auditoria, vantagens e desvantagens de sair do euro. Após a sessão, cada “professor” disponibilizar-se-ia a escrever para o fanzine um texto que resumisse essa sua intervenção e repercutisse algumas das dúvidas que dela surgiram nos “alunos”. Isto, claro, tem a ver com as linguagens excessivamente técnicas que foram, até hoje, usadas pela economia e pela finança, de modo a que o povo não detectasse nem a cor nem o verbo do dinheiro. E pronto: qual bola de neve, isto deverá crescer. Eu, pessoalmente, embora pessoalmente pouco importe para o caso, sempre preferi que as coisas me dissessem o que queriam de mim a dizer-lhes eu o que queria delas. Gosto de perceber os outros, de ouvir, de ir fazendo à medida do que vou conhecendo. Por isso, estamos um pouco nos antípodas do manifesto acabado. São sessões – é pensamento em acção: criatividade.

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