EDITORIAL: PRECISAMOS DE UM MOVIMENTO DE PENSIONISTAS E REFORMADOS

 

No passado fim de semana houve um levantamento em Coimbra, a que demos voz aqui em A Viagem dos Argonautas. Uma senhora de Coimbra, Maria do Rosário Gama, lançou um apelo para se organizar um movimento de pensionistas e reformados, pedindo a quem tivesse possibilidade que estivesse presente numa reunião que decorreu ontem naquela cidade, para se preparar o lançamento de um movimento de pensionistas e reformados, para responder às pesadas medidas de que estes têm sido alvo  nos últimos tempos, e que serão muito agravadas se o Orçamento para 2013 for aprovado nos termos em que há dias foi presente à Assembleia da República.

Não sabemos ainda quais os resultados práticos da reunião. Pela reportagem que vimos na televisão parece ter sido muito participada. E aqui no nosso blogue recebemos numerosas visitas e comentários orientados para os posts sobre o acontecimento. Os comentários dão bem a ideia do interesse que as pessoas sentem pela ideia de haver um movimento social importante que defenda os seus interesses.

É ainda cedo para previsões. Mas não para salientar que este movimento (pró-movimento como por enquanto lhe quer chamar Maria do Rosário Gama) vem certeiramente ao encontro de uma das situações mais críticas da sociedade portuguesa. É verdade já muito divulgada que a nossa sociedade conheceu nas últimas décadas um processo de envelhecimento com contornos muito próprios. Começou com a grande emigração dos anos 60-70, e os efeitos traumáticos da guerra colonial, ainda tão pouco analisados. Estes dois factores, se assim se pode dizer, em conjunto com a constatação de que a grande pobreza requeria um planeamento familiar maior e melhor, levaram à situação actual. Nunca se terá pensado que iria ocorrer uma mudança tão grande em tão pouco tempo.

Se uma boa parte da população portuguesa conseguiu uma vida melhor nos anos a seguir ao 25 de Abril, embora com padrões ainda longe dos países do norte europeu, ou das classes mais favorecidas dos EUA, essa melhoria foi completamente posta em causa a partir da crise de 2008. E agora vêm ao de cima problemas nunca ultrapassados na nossa sociedade. Desde a economia portuguesa sempre frágil, que nunca tivemos governantes capazes de a lançar noutras bases, de uma excessiva concentração de riqueza, até uma adesão europeia errada e, ainda por cima, mal negociada, associada a uma mentalidade dominante que dá prioridade ao curto prazo, às obras de fachada para encher o olho e muito influenciada pelo que se vê (melhor dito, pelo que se julga que se vê) lá fora, chegámos a um ponto em que nos querem fazer pagar pelas modestas melhorias que tivemos nas últimas décadas.

É o tal empobrecimento, para as classes médias e baixas contribuírem para a recapitalização da banca e da oligarquia sua detentora. O grande peso vai recair sobre os mais desprovidos, como sempre, mas também sobre quem pensava que, trabalhando duramente trinta, quarenta anos e mais, tinha ganho o direito a uma velhice tranquila. Por isso, este movimento se justifica amplamente.

Existem organizações de idosos localizadas, que prosseguem objectivos que interessam aos seus associados. Contudo é necessário um movimento ao nível nacional que faça sentir o seu número e o peso das problemáticas que os afectam. E exprima uma das suas preocupações principais: o seu enfraquecimento vai dificultar em muito uma das suas principais razões de viver, se não a principal: apoiar a(s) geração(ões) seguinte(s).

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