Pentacórdio para Terça 6 de Novembro

por Rui Oliveira

 

 

 

   Na Terça-feira 6 de Novembro sobressai mais um dos nomes da galeria de pianistas trazida este ano pela Gulbenkian.

   Referimo-nos ao maestro e pianista alemão Christian Zacharias que já no ano passado estivera neste mesmo palco dirigindo a Orquestra e que, além de actual maestro principal da Orquestra de Câmara de Lausanne, é igualmente um pensador e comunicador com sucesso de temas musicais. No seu instrumento privilegia confessadamente a ária peri-alpina alemã e austríaca, daí o seu projecto (já no nono volume) de gravar todos os concertos de piano de Mozart (na MDG).

   Para o seu recital no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbnkian, às 19h, o seu programa é :

                 Ludwig van Beethoven  Sonata nº 12, em Lá bemol maior, op.26

                 Franz Schubert  Momentos musicais, D. 780

                 Robert Schumann  Kreisleriana, op. 16

                 Ludwig van Beethoven  Sonata nº 6, em Fá maior, op. 10 nº 2

 

   O registo mais próximo dos temas concertantes que encontrámos foi a interpretação dos Fantasiestücke op.12 (1837) (um conjunto de 8 temas como a Kreisleriana de 1838) de Schumann, tocados em 1990 nos Encontros Internacionais de Piano da Costa Basca :

 

 

   Para comparação com um registo mais recente, eis a sua interpretação da Introdução e Allegro appassionato para piano e orquestra, op. 92 também de Robert Schumann, tocando e dirigindo a Orquestra Nacional de Lyon em Maio de 2011 :

 

 

 

 

   Como temos por vezes mencionado, o Festival Temps d’Images (um projecto apoiado pela Comissão Europeia no âmbito da cultura) tem colaborado este ano desde Setembro com diversas instituições, nomeadamente em co-produção com o CCB e em parceria com a Culturgest, o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, o Museu Colecção Berardo, o Teatro Municipal S. Luiz, o Maria Matos Teatro Municipal e a Cinemateca Portuguesa.

 

   Nesta Terça-feira 6 de Novembro, entre várias dessas iniciativas apoiadas, chamamos a atenção para o capítulo “Cinema e Musicalidade” dum ciclo que a Cinemateca Nacional prossegue com o Festival  intitulado “O Cinema à volta de cinco artes, cinco artes à volta do cinema”, da responsabilidade de Pierre-Marie Goulet e Teresa Garcia, em colaboração com Ricardo Matos Cabo.

   Como anuncia o texto da Cinemateca “… trata-se agora de abordar, pela segunda vez, a musicalidade como ela se revela nos diferentes aspectos da mise en scène dos filmes. Isso leva-nos a abordar a musicalidade no cinema não apenas pela utilização que pode ser feita da música nos filmes mas também, e sobretudo, pelo tratamento cinematográfico do tempo, quer seja pela montagem, o movimento, o contraponto imagem-som, as rupturas cronológicas, o ritmo, o leitmotiv, a alternância das luzes, etc. Desde os primórdios do cinema que os realizadores reivindicaram uma forma cinematográfica mais próxima da musicalidade do que da narrativa

… Esta segunda edição dedicada às relações cinematografia-musicalidade abre pistas, daí a grande variedade de filmes propostos, desde os filmes do início do cinema sonoro – período tão rico no trabalho da relação do som e da imagem e tão pouco conhecido, aos filmes contemporâneos, passando por filmes de animação, por filmes conhecidos ou desconhecidos. São assim apresentados em 2012 filmes de Sadao Yamanaka, Jean Grémillon, Otto Preminger, Jean Renois, Mani Kaul, P.P.Pasolini mas também filmes de George Kuchar, Dudley Murphy, Humphrey Jennings, Peter Nestler, Jean-Marie Straub, Pedro Costa, Rita Azevedo Gomes, etc….”

   Iniciado na Segunda 5 de Novembro, exibe-se nesse dia, às 21h30 na Sala Dr. Félix Ribeiro, o filme “La Petite Lise” (1930) (foto à direita) de Jean Grémillon (França), a história do encontro de um pai libertado ao fim de muitos anos de prisão com a filha, que tenta esconder-lhe a sordidez da sua vida.

   Na Terça 6 de Novembro, às 19h na Sala Dr. Félix Ribeiro, os filmes projectados são “Stendali (Suonano Ancora)” (1959) de Cecilia Mangini e “Mamma Roma” (1962) de Pier Paolo Pasolini,  com Anna Magnani, Ettore Garofalo, Franco Citti. Esta segunda longa-metragem de Pasolini  é a história de uma mulher que abandona a prostituição para viver com o seu filho adolescente, mas tudo terá um fim trágico.

   Este é um clip do filme (que aliás pode ser generosamente visto integral no YouTube em http://youtu.be/3ll8h_Kv_yo ) :

 

   Na mesma Sala, às 21h30, ver-se-á “Chã de Caldeiras”, captação e montagem de Henri Maikoff e “Casa de Lava” (1994) de Pedro Costa com Inês de Medeiros, Isaach de Bankolé, Edith Scob, Pedro Hestnes, uma “história de dor e de sangue, vivida por “zombies” e outros seres amaldiçoados … na paisagem vulcânica de Cabo Verde, filmada como se toda a vida (animal, vegetal ou mineral) tivesse sido coberta por um lençol de cinzas”.

   É dele este filme-anúncio :

 

 

 

   Outra iniciativa apoiada por Temps d’Images situa-se no Museu Nacional de Arte Contemporânea / Museu do Chiado durando de 30 de Outubro até 11 de Novembro.

   Trata-se de “Violon Fase”, o primeiro solo de Anne Teresa De Keersmaeker (este ano convidada da Bienal Artista na Cidade). Foi coreografado em 1981 em Nova Iorque. Um ano mais tarde, tornou-se parte integrante de Fase: quatro movimentos para música de Steve Reich.

   Thierry De Mey filmou, em 2001, a performance de um guindaste de 20m de altura.

   A instalação mostra Anne Teresa De Keersmaeker a dançar na areia branca, os movimentos dos seus pés desenham na areia, uma forma que se assemelha a uma rosa.

 

 

 

   Ainda outro projecto apoiado por Temps d’Images pertence à artista brasileira Cinthia Marcelle e está no espaço Carpe Diem Arte e Pesquisa (Rua do Século, nº 79) de 20 de Outubro a 26 de Janeiro próximo.

  Designou-o “Cruzada” e é filmado nas terras vermelhas do solo de Minas Gerais. Dezasseis músicos surgem dos quatro cantos de um cruzamento, quatro de cada lado, trajando quatro cores: amarelo, vermelho, azul e verde. Os grupos (grupo dos pratos, grupo dos taróis e bumbos, grupo dos trompetes e trombones, grupo dos bombardinos e tubas), entram em cena, um de cada vez, ao som desencontrado dos instrumentos até alcançarem o centro do cruzamento. Quando todos se vêem na encruzilhada, frente a frente, inicia-se um duelo entre eles, embate que termina em uma coreografia na qual os músicos trocam de lugar, formando então quatro bandas de cores e instrumentos misturados. Ao som de uma mesma canção, enfim harmonizados, os músicos deixam a encruzilhada espalhando-se, cada qual no seu tempo, pelas quatro vias.

   No vídeo “Cruzada” (diz a autora), do encontro/confrontação/mistura entre cores e sons surge uma nova língua, uma mesma canção que impulsiona a todos pelos quatro cantos do mundo −  como pode ser visto abaixo :

 

 

  

   Entretanto no Hot Club de Portugal, nesta Terça-feira 6 de Novembro (bem como na Quarta 7), às 23h, Afonso Pais (guitarra), Albert Sanz  (piano) e Joana Espadinha (voz) concretizam o seu projecto “Terra Concreta”.

   Na raíz deste projecto (dizem) está a ideia de um reencontro com um momento há muito perdido, o instante em que a criação musical se torna consequente e indissociada de um meio envolvente específico que é para nós atávico: o natural.

 

 

 

   Por último, no campo do debate e da reflexão (tão necessário nos dias de hoje), tem início nesta Terça-feira 6 de Novembro na Sala 2 da Culturgest, às 18h30, um ciclo de conferências (às Terças até 27 de Novembro) sobre “História e Teoria da Crítica” pelo crítico, nomeadamente de música e cinema, Augusto M. Seabra.

   Explica ele na introdução : “A crítica está em crise? “Crítica” e “crise”, tal como “critério”, têm no entanto uma mesma origem no termo grego “kritês”, isto é, aquele que emite um juízo. Mas fazer um juízo, ou operar a “crítica da faculdade de juízo”, não é apenas emitir uma opinião, mas fundamentá-la na apreciação da arte e das obras, e na sua explanação pública … A massificação das indústrias culturais e, ainda mais, a expansão de novos suportes, designadamente informáticos, coloca em questão a capacidade de mediação reflexiva, no sentido de uma mera intermediação na lógica e na rapidez dos consumos culturais. Com a permanência de (alguns) críticos como formuladores de cânones, grelhas interpretativas e opções institucionais, ocorre também uma desqualificação do espaço próprio das apreciações críticas, colocando mesmo a interrogação sobre se a crítica ainda existe”.

 

 

(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Domingo aqui )

 

 

 

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