ECONOMIA: AGIR NA INCERTEZA – por Bertrand Renouvin

Texto enviado por  Philippe Murer, Présidente da Association Manifeste pour un Débat sur le libre échange, Membre du bureau du Forum Démocratique, a quem muito agradecemos.

Júlio Marques Mota

Não se trata de uma revelação: o homem vive na incerteza. Na esfera económica, o Estado pode desenvolver projectos e planos que reduzem as incertezas, mas, na ordem política, a acção está sujeita a tantas situações aleatórias que     é necessário sobretudo … esperar o inesperado.

 Esta filosofia de bolso é de actualidade. Os desiludidos do “Hollandisme” lamentam-se  sob os olhares sarcásticos daqueles que   afirmam ‘ eu bem avisei ‘ e  os dois grupos  são eles que trazem em conjunto a  sua contribuição para o pessimismo actual.  E, em seguida, à  esquerda da esquerda, há aqueles que se querem como o fermento na massa e que estão-se a preparar  para uma revolta popular como  outrora para a luta final . Em suma, temos de escolher entre dois tipos de fatalidade: o do repúdio  socialista e o da vitória da verdadeira esquerda.

 Tendo-se envolvido  nesses debates (1), Emmanuel Todd  desagrada ou escandaliza  pois que ele  pensa que François Hollande e os seus amigos poderiam trazer  uma mudança radical para a política: a saída do euro, as medidas proteccionistas! Recebidas  como pura provocação ou como complacência infeliz, as suas declarações à revista  Marianne tem a enorme vantagem de nos colocar em face de uma perspectiva histórica: nada está escrito, pode haver uma inversão de tendência.  Emmanuel Todd não afirma que o Presidente da República irá mudar  de projecto, de trajecto:   ele enuncia  uma hipótese, que desenvolve  de forma a que possa  ser discutida, mas seria errado exclui-la à  priori. Não se diz que François Hollande vai romper com o ultraliberalismo, mas é claro que o comércio livre, a manutenção da França na área do euro e as medidas de  austeridade  irão  colocar o governo  numa  situação perigosa por causa do aumento considerável do desemprego.   Éentão  que virá a hora da escolha, que fará do  Presidente da República “um gigante ou um anão”…

Uma vez que nada está decidido   deve-se  querer saber sobre as circunstâncias que levariam François Hollande   a saír da ganga oligárquica e a romper  com a ideologia dominante. Tendo em conta os elementos de que dispomos  nada lisonjeiro  pode ser dito. O Presidente da República tem desde Junho  todas as análises e previsões que poderiam levá-lo para uma saída concertada do euro. Ele não o fez, e uma decisão corajosa  não é de esperar . Estes são traços negativos que podem provocar um movimento  salutar : a fragilidade das convicções, a submissão às relações de força,  o medo da violência que seria de repente mais invasiva  do que o medo da Chanceler alemã e o medo de quando é que   eles o dizem.

Expus algumas possibilidades, entre outras. Elas não incitam aconfiar  em François Hollande, mas sim a cultivar a desconfiança  metódica – até prova em contrário. Elas  incentivam  especialmente a agir – não, apesar da incerteza, mas por causa da incerteza e com a intenção de a reduzir . A tarefa não é fácil. A política de recuperação nacional está claramente definida – garantimos com muitos outros a sua  promoção – mas as forças que a podem concretizar estão  dispersas ou paralisadas. A frente de esquerda continua a defender a moeda única e a manter o mito da Europa social, a oposição à ideologia dominante é ainda baixa dentro do Partido Socialista, o renascimento  do gaullismo  é frágil, os sindicatos estão na defensiva.  Haverá necessidade  de salientar que a Frente nacional é agora capaz de recuperar um número crescente de eleitores, à direita como à esquerda?

 A progressão do nacionalismo xenófobo não é inevitável, porque a Frente nacional pode ser ultrapassada pela dinâmica das lutas sociais: a luta de classes e guerra étnica, há um momento em que é necessário escolher. Os movimentos de protesto e de revolta em Espanha e em Portugal podem encontrar as suas extensões no nosso país que vai  sofrer cada vez mais duramente com as políticas de austeridade . Nada está considerado como dado , como  adquirido: as lógicas da  violência e da deslocação  podem assumir o espaço político. Nada está perdido porque as classes médias  e populares ganharam já uma compreensão real da situação – sem que se possa saber  quando e como vai ser ultrapassado o limiar  do intolerável.

(1) Entretien accordé à Marianne, n° 808 du 13 octobre 2012.

Editorial du numéro 1021 de “Royaliste” – 2012

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