EDITORIAL: “REFUNDAÇÃO” OU GOLPE DE ESTADO PALACIANO?

Imagine-se um jogo, de futebol por exemplo, em que uma das equipas pudesse,  à medida que o jogo fosse decorrendo, ir alterando as regras – um golo marcado em fora de jogo? Anula-se essa lei do fora de jogo. O adversário marca um golo directo na marcação de um livre de canto? Nova regra – “os golos marcados na sequência de um livre de canto, não são válidos”

O bastonário da Ordem dos Advogados disse ontem “Quer-se alterar radicalmente a fisionomia do Estado constitucional por um Estado que corresponde aos modelos ideológicos de quem hoje tem as rédeas do poder”, António Marinho e Pinto, afirmou ainda que se está a querer “subverter” e não rever a Constituição, estando em curso no país uma “espécie de golpe de Estado palaciano”. Para o bastonário, quer-se “subverter, não é rever a Constituição”. “Porque para isso era preciso respeitar as regras de revisão que estão na própria Constituição, designadamente as maiorias da Assembleia Constituinte”.

Há muita gente que não gosta de Marinho Pinto. Razões diferentes, mas que radicam na forma desabrida com que expende as suas opiniões. Goste-se ou não, o que, por exemplo, disse a Manuela Moura Guedes sobre os julgamentos sumários que uma certa Comunicação Social, a soldo do poder económico e político, faz, com entrevistas em que o entrevistador se permite antecipar conclusões, essa entrevista é uma peça de antologia. Agora, ao classificar a questão da “refundação”, lançada pelo primeiro-ministro, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD e do CDS-PP, como «golpe de Estado palaciano», volta a pôr o dedo na ferida.

Entretanto, ao intervir em Viseu, na sessão de encerramento do XVIII Congresso Nacional da Juventude Socialista, António José Seguro defendeu que “a protecção social não é um capricho dos socialistas”, mas “uma necessidade de toda a sociedade portuguesa” para manter a coesão social e combater as desigualdades sociais. Na sua opinião, “é isso que está em causa, não é um exercício de contabilidade numa folha de excel” “Este não é um exercício de contabilidade, é uma opção política determinante para o futuro de Portugal. E desengane-se o primeiro-ministro se espera que o PS seja cúmplice da criação em Portugal de um Estado estilo ‘low cost’ para portugueses”, Claro que o PS não embarca num acordo de refundação com o PSD. António José Seguro pode, dentro de relativamente pouco tempo, ascender ao cargo de primeiro-ministro. Por que motivo iria entrar num barco que se está a afundar. Mas nesta conversa de empresa de voos charter, não diz o essencial. E não dá garantias de que este golpe de Estado palaciano desferido por esta gente que está no poder, seja desmontado e a Constituição da República seja reposta nos pontos em que Passos Coelho a violou. Como sempre tem acontecido, o futuro governo PS vai aproveitar todas as violações constitucionais cometidas pelo actual governo. E, cada vez mais, enquanto uns viajam em «executiva», a maioria apinha-se na «turística».

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