Nascer para a vida – Adão Cruz

A ordem ética inicia-se no núcleo familiar. Na educação familiar nasce o primeiro alento e reside o primeiro impulso ético para a conquista da vida. O juízo ético, baseado em emoções, sentimentos e raciocínios produzidos pelo cérebro, não pode ser considerado independente da história evolutiva deste órgão dentro da nossa espécie. Biliões de neurónios, seiscentos milhões de conexões por milímetro cúbico de cérebro que se multiplicam constantemente e configuram as estruturas funcionais do cérebro, constituem a base fisiológica das formações psíquicas condicionantes das aprendizagens, nomeadamente da aprendizagem ética. Dado que o crescimento de sinapses neuronais é quase ilimitado na infância, diminuindo por volta dos sete oito anos, e dado que em adultos vivemos as conexões formadas na infância, já podemos avaliar a importância da aquisição dos princípios éticos desde que nascemos.

Esta educação visa estabelecer os alicerces fundamentais para a edificação do carácter, da responsabilidade dos actos, da consciência e do desenvolvimento das faculdades críticas. É fundamental, nos dias de hoje, os pais serem capazes de ajudar os filhos a aprender a valorizar, a criticar o uso dos meios de comunicação social e a pôr em prática as suas capacidades de discernimento, como espectadores, ouvintes ou leitores, tentando evitar o caminho fácil da passividade, da ausência de espírito crítico e da permeabilização à exploração mental. Os pais têm de ver nos filhos uma semente da educação para a liberdade. Tenho muita dificuldade em lidar com normas morais, pelo seu relativismo e por causa das suas, por vezes perversas, contingências.

Dentro do multiculturalismo e mesmo dentro da nossa cultura, há comportamentos que parecem moralmente justificados, quando nada têm de ético ou moral, se olhados de um ponto de vista racional. Todos nós estamos cheios de ver a enorme falsidade e hipocrisia de que se faz o tecido de tantas das nossas instituições tidas como sacrários da moral. Daí eu pensar que a virtude é a capacidade permanente de fazer bem feito o trabalho da liberdade, e o bem é aquilo que essa virtude elege livremente no seio deste trabalho. De qualquer forma é-me difícil não considerar, desde já, como virtudes, hábitos de diligência, seriedade, sinceridade, lealdade, competência, responsabilidade, coragem, perseverança, altruísmo, disponibilidade, solidariedade. Quero dizer-vos, no entanto, que há virtudes estabelecidas que podem não o ser.

A tão propalada tolerância, que parece um termo eticamente atraente, pode ser uma palavra injusta, já que quem tolera se pode sobrepor, verticalmente, ao que é tolerado, em presunção de superioridade. A tolerância não passa de uma virtude passiva se não aceitar o outro e a diferença. À cultura da tolerância, onde muitas vezes a ética se confunde com egocentrismo disfarçado, penso que devemos contrapor a cultura da diferença e da diversidade, altruísta, policêntrica e horizontal, esta sim, uma virtude activa. A diferença sou eu próprio, a diferença é cada um de nós. A conciliação entre o respeito pelas diferenças como riqueza cultural e a promoção da equidade e a defesa da coesão social, nada têm de antagónico, antes contribuem para a clara consciência do valor das dimensões intercultural, interlinguística, inter-religiosa, em que terão de se desenvolver as relações entre os povos.

Nestes tempos em que a mobilidade provoca o aparecimento de condições de multiculturalidade, a identidade torna-se uma questão com forte componente emocional, e, desta forma, as questões relativas à unidade, identidade e interdependência adquirem uma relevância especial dentro da cultura da diferença. Nenhuma cultura pode ser independente de outras nem pode ser considerada superior a outras. O factor humano e o chamado coração grande são indispensáveis para o êxito de uma educação intercultural. Também não sou a favor do consenso pelo consenso, especialmente quando este significa o acordo acima de tudo, a subalternização da diferença, o patamar acima das consciências, a posição acomodatícia, a hipocrisia, a cobardia, o marasmo, a desistência, a segurança dos inseguros, a roda desdentada que rola bem mas nada produz.

5 Comments

  1. A palavra tolerância e o comportamento que lhe está adjacente são coisas deploráveis, falsamente positivas, cheias de arrogância, de assumida atitude de superioridade e de humilhação infligida ao tolerado. Continua a haver quem se sinta endeusado para considerar que a sua elevada tribuna lhe dá a autoridade de conceder aos outros o direito de também poderem ter um bocadinho de razão. Os pobres toleradores…

  2. A conciliação do respeito pelas diferenças é o caminho para a civilização que se escondeu algures numa ilha perto do infinito…mágnifico texto Adão e muito bem acompanhado, Augusta. Bjos sem marasmo e livres como qualquer afecto é!

  3. Nada do que é humano é linear, simples e redutível a um único ponto de vista, por mais “profundidade de campo” e “dimensão panorâmica” que assuma, como é o caso deste excelente texto do Adão que, mais do que apresentar soluções, equaciona questões. As próprias palavras raramente têm uma acepção única, indiscutível e perfeitamente delimitada. E também não carregam, em si mesmas, qualquer culpa, melhor assacada – se necessário – a quem as usa. Esta ressalva foca-se apenas numa parte do texto do Adão e do “acrescento” da Augusta, não no todo e muito menos no “espírito de abrangência” que neles se procura.
    Não tenho tantas reservas como as expressas, quanto à palavra “tolerância”. É que, na minha opinião, tolerância não se confunde com “aceitação”, já que se pode tolerar e não aceitar, como aceitar não tolerando.
    Objectivamente, não é meu igual quem se caracteriza por uma ignorância que se afasta demasiado da minha acumulação cultural (expressão mais rigorosa que “de conhecimentos”) ou, no polo oposto, por uma sabedoria que já não alcançarei: cabe-me “tolerar” a existência de ambos, procurar as razões que, em grande parte, justificam a, infelizmente, tão alargada área da ignorância, e situar os mais sábios (que não confundo com “eruditos”, que podem ser vazios de conteúdo em tudo o que ultrapasse essa erudição), tendo em conta que, por maior admiração que me suscitem, não deixam de permanecer sujeitos à condição humana, tão frágil nos seus fundamentos, cruzamento indecifrável de uma imensidão de combinações genéticas, de resultantes tão frequentemente imprevisíveis.
    Por outro lado, só aparentemente as características do neo-liberalismo, que está a tomar conta das sociedades “modernas” e que também faz parte de uma “cultura” que – como vemos – nada tem de uniforme, se integram na mesma “cultura” a que eu pertenço, como pertencem o Adão e a Augusta: os seus valores denegam, na prática, os valores civilizacionais que reivindicamos como nossos, isto é, do que tendemos a crismar de “civilização ocidental”, de que é património fundamental um cânone, dolorosamente gerado pelo cruzamento entre os ditames do Iluminismo e a violência concrecta da Revolução Francesa que, desembocando não mais que no triunfo da burguesia ascendente, vem a integrar algo de tão basilar como a Declaração Universal dos Direitos do Homem e tudo o que, no sentido de esclarecer o conteúdo intrínseco do que eles enunciam (por causa, justamente, da tal flutuação de sentidos das palavras), de mais justo e rigoroso se lhes vem acrescentando.
    Por tudo isto, o debate sobre o “multiculturalismo” está bem longe de se aproximar de um patamar alargado de consenso (aquele que não vale só por si, como refere o Adão). Cada “cultura” é feita de avanços e recuos civilizacionais: quem se lembra da série televisiva sobre o célebre chefe zulu Tchaka, recordará que o protagonista “revolucionou” o método que algumas tribos haviam encontrado para resolver os conflitos, transformando algo parecido com uma exibição ou jogo – em que raramente alguém ficava ferido – numa “guerra a sério”; muitos retiveram, decerto, a valia da criatividade guerreira de Tchaka (considerado um herói do anti-colonialismo), que proporcionou uma forte oposição ao avanço e instalação do colonialismo europeu… Mas, civilizacionalmente, qual era o método de resolução de conflitos mais avançado, onde estava a maior sabedoria e clarividência: em Tchaka ou na civilização que produzira o tal método não-violento?
    Considero um dado adquirido a aceitação, a nível geral, das culturas diferentes da minha como estando numa mesma “horizontalidade”: o reconhecimento, com pouco mais de um século, da existência de uma Arte africana e do valor da Arte oriental (e, depois, das dos povos indígenas americanos, dizimados pelo “homem branco”, em nome do “progresso”… e do “Senhor”, claro!), bem como a sua interpenetração crescente com a Arte ocidental, de raiz europeia, é um exemplo reconhecível de que outra atitude é irracional. Porém, o ciclo de avanços e recuos civilizacionais que, por vezes, desemboca em usos intoleráveis e inaceitáveis, à luz do referido cânone e do que de mais justo e humanista foram produzindo civilizações e filosofias, conduz-nos a enfrentar o desafio de proclamar o anacronismo e a desumanidade desses usos, não raras vezes defendidos como “tradicionais e culturais”.
    Uma atitude demasiado “compreensiva e horizontal” em relação, por exemplo, ao estatuto “concedido” às mulheres pelos machos virilóides dessas “culturas” – como é o caso de várias das ramificações do Islamismo ou, mesmo (convém não esquecer!) das comunidades ciganas – significaria respeitar o que deve ser energicamente combatido, sem tergiversações (e é, para mim, irrelevante que algumas mulheres se juntem, na ignorância e no fanatismo, às posições machistas, o que a nossa civilização tão bem conhece sem, por isso, lhe reconhecer validade). Até porque, se não o fizermos, as “novas” correntes ideológicas “ocidentais” (de facto, o culminar do percurso do capitalismo, antes do “cul-de-sac” final), com a preciosa ajuda da linha oficial da “santa madre” Igreja Católica Apostólica Romana e outras fiéis depositárias das posições mais reaccionárias da religião cristã, se encarregarão de recuperar o “lugar tradicional” da mulher, perante cuja liberdade e igualdade plena de direitos os tais virilódes milenarmente se acobardam até ao mais insensato e vil dos terrores. Já tivemos exemplos recentes desta “convergência”, em manifestações conjuntas “de protesto” de crentes monoteístas, por pretensas ofensas “blasfemas” a Maomé, manifestações que foram, na realidade, contra a liberdade de expressão e a Democracia, procurando, como é habitual, impor as ideias e práticas desses “crentes” a toda a sociedade, isto é, incluindo quem não pensa nem “crê” como eles, sem qualquer tolerância ou sombra de aceitação do outro!

  4. Pois, na minha opinião, tolerar também não se confunde com aceitar. Acho mesmo é que tolerar encerra já o propósito de não aceitar. Considero-o, para além da atitude de superioridade que pressupõe em relação ao outro, um comportamento um pouco cobarde. É como quem diz lá no seu interior: – “fala pr’á aí!”. Aceitar sem tolerar é-me muito difícil de imaginar. Confunde-se mais com hipocrisia.
    Também acho que reconhecer a diferença de grau em que várias pessoas se encontram relativamente a experiências várias, seja experiências vivenciais, de saber, culturais, daquilo a que apelidas de “acumulação cultural”, etc., etc., etc., é apenas a percepção dum facto, não tem nada a ver com tolerância. Não gosto de interpretar o pensamento dos outros, mas creio haver na “tua” tolerância algo semelhante a empatia que me parece espelhar melhor o conteúdo do teu discurso.
    Lê lá este texto que escrevi há pouco onde, embora menos elaborado do que a tua exposição, creio ter conseguido explicar o que penso sobre essa questão da diferença de acumulação cultural.
    http://aviagemdosargonautas.net/2012/09/18/falar-de-todo-o-jeito-augusta-clara/
    E volto a perguntar: porque não perdes a preguiça e escreves textos sobre as tuas opiniões? Levam o mesmo tempo a escrever do que estes monumentais comentários.
    Um abraço

Leave a Reply