EM VIAGEM PELA TURQUIA – 35 – por António Gomes Marques

(Continuação)

Mas a oposição também assumiu outras formas. Em 1926, descobriu-se uma maquinação para assassinar Mustafá Kemal, o que viria a ser aproveitado pelo poder para investigar actividades que, segundo a lei vigente, eram subversivas, o que levou à barra dos tribunais muitos opositores, levando à condenação de Mehemet Cavit Bey, Ahmed Şükrü e Ismail Canbulat por traição, acabando enforcados. Averiguou-se também haver uma ligação entre membros do partido opositor e a rebelião do chefe de origem curda Said Piran, não se conhecendo, durante a presidência de Mustafá Kemal, outro acontecimento semelhante.

Fosse ou não o kemalismo um regime de ditadura, e para mim terá sido um regime que visou mais o atingir dos objectivos fechando os olhos a alguns dos meios utilizados, objectivos esses que se revelaram bons para o povo turco e, naturalmente, para a Turquia.

Chocante, o que acabámos de escrever? E que democracia se vive hoje no Ocidente? E, particularizando um pouco mais, vivem hoje os portugueses numa verdadeira democracia? Não estaríamos bem melhor se tivessemos um Atatürk na presidência da república? Tentar a comparação com o inquilino que os Portugueses têm hoje em Belém, é demasiado ofensivo para uma personagem da dimensão de Mustafá Kemal Atatürk.

Se fosse Mustafá Kemal um ditador teria de esperar até 5 de Fevereiro de 1937 para fazer aprovar uma das suas reformas fundamentais, a total laicidade?

Atatürk com o seu chapéu-panamá, em 1925

 Não consigo imaginar um ditador que dissesse às mulheres do seu país o que Mustafá Kemal disse:

 «Vençam para nós a batalha da educação, e vocês farão mais pelo país do que nós já pudemos fazer. É para vocês que apelo».

 E, dirigindo-se aos homens, disse também o que nenhum verdadeiro ditador diria:

Se de agora em diante as mulheres não tomarem parte da vida social da nação, jamais conseguiremos atingir o nosso desenvolvimento completo. Permaneceremos irremediavelmente atrasados, incapazes de sermos tratados de igual para igual pelas civilizações do Ocidente.

 Mustafá Kemal procura desenvolver uma verdadeira revolução cultural na Turquia, que só pôde cimentar-se graças às reformas introduzidas na educação, sempre supervisionadas pelo Estado, reformas essas que não esqueceram a educação feminina, visando a igualdade entre os sexos, objectivo este que, só por si, nos fará pensar nas dificuldades de introdução numa sociedade em que às mulheres não era reconhecido qualquer direito e que, para se atingir, necessitaria de alguém detentor de forte poder. As transformações qualitativas ao nível do consciente, a verdadeira revolução, não se conseguem à força das armas ou do poder policial.

 A verdade é que as reformas da educação não se limitaram a formar cidadãos úteis à sociedade turca, com acesso aos vários ramos do conhecimento, tiveram também a preocupação de formar uma mão-de-obra qualificada, indispensável ao desenvolvimento de qualquer país, com introdução dos modernos métodos, onde John Dewey teve papel fundamental, não se ficando essas reformas apenas pela educação primária.

 Mustafá Kemal não se limitou a criar condições para a implantação das reformas, sendo um dos agentes no terreno, deslocando-se pelo país, tornando-se ele próprio, por vezes, nessas deslocações, em agente de ensino do novo alfabeto turco, uma variante do alfabeto latino, que viria a substituir o alfabeto árabe, como pode verificar-se na fotografia abaixo, publicada pelo jornal francês L’Illustration em 1928, ajudando a que fosse o novo alfabeto rapidamente assimilado pelos turcos.

 Criou condições para a realização de congressos sobre temas de educação, envolvendo-se mesmo na elaboração dos materiais a fornecer aos alunos, sendo exemplo o manual de «Conhecimento Cívico para os Cidadãos», de 1937, onde se especificavam as regras do governo e a forma de como aplicá-las às instituições públicas.

(Continua)

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