O LIVRO “A CIDADE DAS SENHORAS” – EMANCIPAÇÃO EM 1405? por clara castilho

Ouvi falar deste livro e não resisti a ir procurar saber mais. É de 1405 e foi escrito por Chrisine de Pizan. Foi a primeira escritora francesa a viver do que escreveu. Nasceu em Veneza, cerca de 1364, filha de um astrólogo que foi viver para Paria, para a corte do rei Carlos V. Com educação esmerada, casou com um secretário real. Aos 26 anos ficou viúva e com três filhos, pelo que começou a escrever para suportar a vivência familiar.

Ficou conhecida por criticar a misoginia do meio literário em que viveu e por defender o papel das mulheres na sociedade. Foi educada num ambiente favorável aos seus interesses intelectuais, aprendeu várias línguas, lendo os redescobertos clássicos e os inúmeros manuscritos do arquivo real, tudo dentro do espírito humanista do início do Renascimento, divulgando a obra de Dante e de Boccaccio.

Na época, a educação das mulheres dirigia-se à realização das tarefas quotidianas e domésticas. No livro “Le Mesnagier de Paris”, obra anónima do séc. XIV isto era defendido. No início do XIII era muito famoso um poema “Romance da Rosa”, de Jean de Meung. Christine criticou os termos vulgares usados para descrever as mulheres, objectando que tal linguagem não era usada por damas nobres e servia apenas para denegrir a função natural e própria da sexualidade feminina. Daí ter avançado para defender a importância das mulheres e das suas contribuições para a sociedade ou a igualdade dos sexos e a necessidade de dar uma educação igual tanto a rapazes como a raparigas.

Ao longo de sua obra observa-se a importância do saber e da educação, como elemento indispensável à formação humana. Através dela se poderia chegar à desalienação feminina.

“Se fosse costume enviar as mocinhas à escola e ensiná-las metodicamente as ciências, como é feito para os rapazes, elas aprenderiam e compreenderiam as dificuldades de todas as artes e de todas as ciências tão bem quanto eles”

 No Livro da Cidade de Senhoras, Christine imaginou uma cidade onde as várias mulheres que vão aparecendo na acção contribuem com algo para fortalecer o seu argumento de que as mulheres devem ser participantes activos na sociedade.

Hoje, na nossa sociedade, ainda ouvimos defender posições parecidas com aquelas contra as quais Christine de Pizan se insurgiu. Noutras sociedades, com outras culturas, pior ainda, como por exemplo das de influência muçulmana. A jovem Malala é um dos testemunhos actuais de uma tomada de posição semelhante.

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