REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930.

ESTAMOS NAS ANTÍPODAS DE RICARDO, por Júlio Marques Mota.

(continuação)

Parte II.

ANEXO ou Como os factos  não correspondem ao que deles dizem os neoliberais

Alguns números que bem podem ser tomados como ilustração do que se tem estado a dizer, sobre os desequilíbrios mundiais em termos de comércio:

  1. Portugal e a China

Em  2007 tínhamos uma balança comercial deficitária, com um ratio de cobertura (Export/Import) de 17% apenas, com um ratio de cobertura de 13,7% em 2008, de 19,9% em 2009, de 14,9% em 2010 e de 26,6% em 2011. De sublinhar que de Janeiro a Junho de 2011 o ratio de cobertura era de 21,7 % e este mesmo ratio em Janeiro a Junho de 2012 atingiu 63,6%, variação esta que se deve ao facto de terem aumentado as exportações, de 155.556 para 440.641 milhares de euros, e de terem diminuído fortemente as importações vindas a China, de 715.359 para 692.407 milhares de euros, ou seja em que o défice da balança comercial de um período ao outro desceu de 559.793 milhares de euros para 251.766 milhares de euros. Esta descida de importações vindas da China é um outro aspecto da crise a denotar quanto esta está a ser forte. Um facto que se verificou em todos os países é que com a descida de rendimento nas famílias estas tentaram reagir baixando na sua gama de consumos e portanto aumento as importações destes produtos vindos do Sueste Asiático, em particular da China. Apesar de em Portugal se ter dado o mesmo mecanismo de mudança, de switching como se diz em economia, as importações estão a baixar fortemente, a mostrar por aqui que a austeridade está a atingir limites insuportáveis.

        2. A Alemanha face aos seus principais parceiros comerciais, entre os quais a China

As importações da Alemanha em 2011 tiveram como principais países de origem os seguintes países e por ordem decrescente (em milhares de milhões de euros):

Holanda (82), China (79), França (66), Estados Unidos (48), Itália (48), Reino Unido (45), Federação Russa (41), Bélgica (38), Áustria (37) e Suíça (37).

Devemos sublinhar, um dia falaremos disto, que a Holanda funciona como um verdadeiro paraíso fiscal e não será de estranhar que a importância da Holanda aqui expressa tenha a ver com mercadorias em transito vindas de algures, em particular da China.

As exportações da Alemanha em 2011 tiveram como principais países de destino os seguintes, por ordem decrescente e em milhares de milhões de euros):

França (102), Estados Unidos (74), Holanda (69), Reino Unido (66), China (65), Itália (62), Áustria (58), Suíça (48), Bélgica (47), Polónia (43).

Deste quadro verifica-se que a Alemanha é deficitária contra a China, contra a Holanda, pelas razões já apontadas, e excedentária contra todos os países Estados membros da União Europeia. Dito de forma mais simples ainda, a Alemanha ganha a força que tem a partir da fraqueza dos seus parceiros da União e claramente sente-se a China a ganhar força neste terreno. Aliás todos os países da zona euro são deficitários face à China.

Longe portanto das balanças comerciais equilibradas do mundo de Ricardo, claramente situados agora num mundo de desequilíbrios comerciais globais onde não há nenhuma regulação quanto às taxas de câmbio que no entanto são um elemento fundamental para se poder ter uma concorrência não falseada, expressão que a União Europeia tanto gosta de utilizar.

A leitura destes dados é imediata: a Alemanha ganha com um euro forte pois mantém fora de competição os seus principais compradores, os Estados-membros da zona euro, e fora de competição tanto no mercado europeu como no resto do mundo e ganha adicionalmente porque se abastece no mercado mundial a preços mais baixos. No que se refere a um grande parceiro, a China, que por seu lado defende a sua moeda subavaliada, a questão do euro caro para a Alemanha será de somenos importância, pois o grosso das suas exportações para este país depende mais da concorrência externa eliminada como se disse, do que da produção local da China, ou seja depende muito pouco dos seus preços absolutos praticados devido à estrutura das suas exportações, de fraca elasticidade da procura relativamente ao preço. É esta a situação das suas exportações quando falamos dos seus Audi, dos seus Mercedes, da sua indústria mecânica pesada, da sua indústria química.

No quadro das suas exportações, cerca de 60 por cento do seu valor é obtido em 5 grandes sectores, indústria automóvel e material rodoviário, máquinas e equipamentos industrias, química e produtos químicos, material eléctrico, material electrónico e produtos ópticos. Tudo dito portanto, quanto à estrutura das exportações alemães.

Podemos assim dizer que o grosso das exportações da Alemanha são de produtos cuja procura externa é relativamente inelástica, pouco sensível à variação dos preços. Compreende-se portanto que, face ao exterior, a Alemanha dependa mais da sua inserção nos mercados externos e da conjuntura económica dos seus principais parceiros compradores do que propriamente da concorrência via preços. A política de concorrência via preços é importante sim mas face aos seus próprios concorrentes na Europa e para a Europa. É também por causa desta estrutura de comércio externo que se compreende uma certa aliança com a China na defesa de um yuan fraco e de um euro forte. Até quando?

No entanto, o yuan fraco faz-se sentir e bem nas importações alemãs, como se faz sentir fortemente em toda a Europa. O que será quando a China for considerada uma economia de mercado de parte inteira? Será por isto que os chineses esperam para depois entrarem no mercado europeu com os seus automóveis a baixo preço e de qualidade idêntica? Como se sublinhou, não há nenhum organismo internacional que olhe seriamente pelas práticas corretas, não falseadas, da concorrência, não há mesmo quem zele pela não manipulação das taxas de câmbio sequer, quando esta é um elemento vital, não há inclusive, nenhum conceito operacional para proteger sectores de importância nacional quando arrasados por este tipo de concorrência e entendida esta como o resultado de preços mais baixo, independentemente das formas como estes são alcançados. Mais uma vez longe de Ricardo, portanto.

Face à quebra do crescimento na zona euro, face às políticas de austeridade impostas país a pais, mesmo para a Alemanha, pensa-se que o crescimento só poderá vir dos países emergentes e mais precisamente dos chamados BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China). Vale a pena sublinhar a importância que assumem os BRICS para a Alemanha. Em 1996 os alemães exportaram 403 milhares de milhões e deste valor os BRICS compraram 17.5 milhares de milhões e deste último valor 5,7 referiam-se à China e em 2011 a Alemanha exportou 1.060 milhares de milhões e deste valor os BRICS compraram 121,2 milhares de milhões de exportações alemães e deste último valor 64,8 referem-se às importações s chinesas vindas da Alemanha que representam assim mais de 50% das exportações da Alemanha para os BRICS.

Pelo lado das importações alemãs, a Alemanha importou em 1996 353 milhares de milhões, dos quais 21,7 dos BRICS e destes 9,2 vieram da China. Em 2011 a Alemanha importou 902 milhares de milhões de euros, dos quais 138,8 dos BRICS e neste último valor 79,5 milhares de milhões vieram da China. Com estes dados mostra-se assim a importância dos BRICS para a Alemanha e em particular a importância que a China assume neste grupo de países para a economia alemã.

Ora o nosso antigo colega Joaquim Aguiar, antigo conselheiro de Ramalho Eanes e de Mário Soares também, considera que a crise em Portugal se deve basicamente às pessoas que na rua se manifestam por melhores condições de vida, por mais empregos, por mais condições de saúde, por melhor educação, se manifestam também contra a venda de um país e ainda por cima em situação de saldo aos grandes capitais internacionais. Curiosa justificação quando a teoria em que assenta a globalização, com os seus pressupostos, não resiste à mínima análise que se confronte com os factos, sendo certo que os nossos factos não são os deles.

(continua)

Leave a Reply