Um galego Galego

Ricardo Carvalho Calero é um nome forte na literatura, língua, cultura e política galegas.Foi também um combatente. Por isso, sofreu na ditadura franquista. A clareza e frontalidade das suas opiniões tornam-as incómodas para muitos, acomodados com uma submissão ao castelhanismo. Talvez por isso, a relutância oficialista em reconhecer-lhe institucionalmente o devido valor nas letras galegas.

 

O reintegracionismo filho político do galeguismo
“Algumas pessoas desinformadas tendem a apresentar-me como um inovador, como um revolucionário polo que se refere ao conceito da nossa língua, mas as minhas opiniões, expressadas naturalmente conforme aos meus próprios parâmetros pessoais, são sem embargo aquelas opiniões, aqueles critérios que tradicionalmente se professam dentro do galeguismo. Uma doutrina revolucionária é, por exemplo, a de que o Galego é uma língua que deve ser considerada absolutamente independente dentro das Línguas da Românica. Isso sim pode ser considerado inovador, ainda que com um tipo de revolução completamente contrário à realidade da experiência histórica […] eu realmente não creio que se me pode considerar um dos pais do reintegracionismo. Mais bem sou um dos filhos, por que o reintegracionismo nasce cientificamente com o Romanismo, e politicamente com o Galeguismo.”

em “O português na Galiza”, em Letras galegas, AGAL, 1984 (texto de 1983)

Um galego que seja galego
“De nada nos serviria que todo o mundo falase e escrevese en galego se ese galego […] era realmente un castellano agalegado […] Non abonda con que se fale galego, é que é preciso que ese galego sexa galego, é dizer, que non sexa un produto que con nome de galego nos apresente un dialecto do castellano. Asi que esta é a significazón que ten o esforzo que están realizando muitos intelectuais galegos en pro dunha reintegrazón do noso idioma no seu sistema próprio […] apesar do decreto de unificazón ditado para impoñer unha normativa oficial, existe un sector importante do país […] que insisten na necesidade de ter en conta o galego histórico, e que non cren que se poda normativizar e normalizar a nosa língua sobre a base da realidade dialectal dos tempos modernos, que é consecuéncia dun proceso de degradazón do noso idioma, producido por circunstáncias históricas de sobra coñecidas.”

em Conversas em Compostela com Carvalho Calero,1986

Nom sei se matei

do livro Futuro Condicional

Nom sei

se matei.

Estivem

na trincheira.

Nom vim

o meu

inimigo.

Disparei.

Nom sei

se matei.

Fum ferido.

Mas

nom

sei

se

matei.

Toupa cega,

nom tenho outro olho

que o olho

do meu fusil.

Se quadra o tem visto

o meu

inimigo?

Olhadas de fogo

cruzam-se entre os dous:

eu

e o meu inimigo.

Fum ferido.

Eu

nom

sei

se

matei.

Saudade dumha voz

do livro Pretérito Imperfecto

Assi,

assi cantava ela.

Polo meu coraçom

passa tam fugitivo o seu cantar,

que a lembrança

nom o pode apreixar.

Assi cantava ela,

com aquela voz que era monlho de flores

molhado na água morna da tristeza.

Que cabelos, que vam, que beiços tinha?

É do esqueço. Somente

a sua voz morta fica

no cadaleito do meu peito, acesa.

Perdêrom-se-me os olhos, e o cabelo, e o vam.

Ficou-me só a sua voz,

o eco da sua voz,

sem verba, sem contido.

O seu cantar que cantar era?

Polo meu coraçom

pasa como umha maina bris de outono

remexendo coas asas a arboreda.

Como canta essa bris,

assi cantava ela,

assi era a sua voz.

Aquela voz que era feixe de estrelas

esparegidas polo céu da dor

Conhecermos Carvalho Calero

Versão digital do caderno publicado pela Fundaçom Artábria, reproduzindo textos, biografia e bibliografia de Carvalho Calero.

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