Nota introdutória – por Júlio Marques Mota
Com o presente texto lembro-me da última intervenção pública de Vasco Lourenço, um dos homens de Abril de ontem e do Abril de um amanhã que se quer muito próximo, lembro-me dos comentários acintosos da imprensa a essa sua intervenção quando falou deum clima de guerra na Europa e, quanto a essa imprensa lembro o espantoso silêncio a que ela se submeteu perante a manifestação que contra Durão Barroso foi em Almada promovida. Uma manifestação clara de que se começa a reconhecer em Portugal que os principais culpados estão algures, em Bruxelas, em Washington, em Frankfurt, em Berlim, reconhecimento público que essa mesma imprensa silenciou. Porquê, em nome de quê esse silêncio? Em nome de poderem continuar a criticar Vasco Lourenço, por aquela afirmação da guerra, ou por outras, futuras, que é preciso antecipadamente denegrir ? E sobre a posição assumida por Vasco Lourenço, leiam o presente texto, escrito por um especialista dos e nos mercados financeiros e verão que Vasco Lourenço também boas razões para dizer o que disse.
Júlio Marques Mota
Link para a entrevista do Coronel Vasco Lourenço
http://videos.sapo.pt/D54IvcsBwHyvoMVAnIuZ
| Se não fosse uma crise grave e muito profunda, a crise na zona do euro poderia parecer –se com o guião de um filme sob o título ” Será que existe um piloto no avião?”. |
| Para evitarem enfrentarem os seus povos, com o medo de lhes explicar o problema ou ainda porque querem percorrer caminhos fáceis, os políticos dos países membros da zona euro decidiram festejar a zona euro por 10 anos e deixar a conta da festa para as crianças da Europa |
| Vamos aqui recordar que a última Guerra Mundial foi desencadeada como resultado de um Tratado de Versalhes que impôs à Alemanha encargos de 10% do PIB (3 vezes menos do que o que o país se está agora a preparar para perder devido ao medo dos seus dirigentes lhes dizer a verdade) |
A crise da zona da euro para os nulos, crónica de uma queda em câmara lenta
ou
Uma pequena aula para quem anda a querer aprender Economia – por Pierre Maxime
Lição nº 1, publicada a 5 de Junho de 2012.
Para aqueles que têm estado em hibernação durante estes últimos meses, ou para os neófitos em economia, uma pequena explicação sobre as razões que levaram ao rebentar da crise na zona do euro e porque é que o federalismo europeu é a melhor solução para esta crise.
Se não fosse uma crise grave e muito profunda, a crise na zona do euro poderia parecer –se com o guião de um filme sob o título ” Será que existe um piloto no avião?”. Os líderes europeus têm pecado por excesso de optimismo, de ingenuidade, de incompetência e de falta de coragem política também. Estas características estão em vias de nos garantirem o pior cenário possível digno de um filme de terror … Os pais da zona euro acreditaram que os seus antecessores tiveram a coragem de enfrentarem os seus povos para lhes explicar que a única maneira de garantir a paz na Europa seria a de construir os Estados Unidos da Europa, mas eles nunca acreditaram que iriam “dar o bebé a um conjunto de incompetentes que, em vez de nos garantirem a paz,nos estão a acelerar a guerra …
A crise da zona euro vem desde a criação da moeda única. Nenhum economista de renome alguma vez considerou que economias tão divergentes quanto a economia industrial da Alemanha e a economia da Grécia, jovem economia que festejava a sua vigésima Primavera de democracia (depois da ditadura militar que caiu em 1974) poderiam viver na mesma área sem se implementar uma convergência económica, orçamental, fiscal, social, do mercado de trabalho, da segurança social. Sem transferências fiscais que se pudessem acrescentar a estasconvergências, a sobrevivência do euro estava condenado ao fracasso.
Este conceito é chamado de zona óptima economia. Sem essa convergência, seria necessário pedir a todos os membros que tivessem orçamentos equilibrados. Isto equivaleria a pedir a várias regiões de França, por exemplo, que fossem excedentárias separadamente e que funcionassem sem solidariedade entre elas. Se este último caso parece inimaginável para qualquer pessoa que tenha olhado para as contas das Regiões, a zona do euro não pode funcionar sem uma transferência de partes da soberania e da solidariedade. Isto requer a modificação das Constituições actuais da zona económicamas em que estas não o permitem.
Para evitarem enfrentarem os seus povos, com o medo de lhes explicar o problema ou ainda porque querem percorrer caminhos fáceis, os políticos dos países membros da zona euro decidiram festejar a zona euro por 10 anos e deixar a conta da festa para as crianças da Europa. A Espanha criou uma bolha do imobiliário (duas vezes maior do que a bolha imobiliária dos EUA), em vez de tratar a rigidez do mercado interno e do mercado de trabalho. O resultado: uma bolha se esvazia, a existência de bancos falidos (eles também faziam parte da festa), e a existência de um país que se está a preparar para se juntar à longa lista de países membros que irão entregar a sua soberania ao FMI. A classe política grega (o PASOK e a Nova Democracia) encontraram uma forma fácil de se apropriar do poder. Bastava-lhes fechar suficientemente os olhos para não ver o desvio de impostos para a política à direita ou para criar uma pletora de funcionários para os políticos à esquerda (é sempre necessário manter uma aparência de ideologia. Consequência: Papandreous, o filho, teve que admitir que o sistema PONZI posto em prática desde a ascensão do seu pai ao poder não poderia durar. Os números verdadeiros são catastróficos. À força de viver para além dos seus meios, não se pode pagar as suas dívidas. O desemprego e a fuga de capitais deram as chaves do país ao FMI. A Irlanda quer ser virtuosa. Mas nenhum país pode ter uma economia aberta sem o risco de um acidente brutal como o que provoca os choques económicos nos países emergentes. Consequência: F. .. M. .. I. ..
Portugal, um países bastante virtuoso, não conseguiu sair da espiral de uma indústria de mão-de-obra que foi colocada sob pressão pela concorrência daqueles que trabalham mais e mais barato . Steve Job disse uma vez a Barack Obama que nunca mais as indústrias de mão-de-obra voltariam aos Estados Unidos uma vez que na China ele, Steve Jobs, poderia encontrar novas funcionalidades para o iPhone e que , por exemplo, às 23 horas de um dado dia conseguiram acordar milhares de trabalhadores para trabalhar na produção em cadeia[1]. Portugal não tinha nenhuma possibilidade tanto quanto alguns países poderiam oferecer este tipo de serviço (ou de escravidão). Consequência? O FMI! Sim, estasigla aparece muitas vezes e nós devemo-nos acostumar uma vez que é isto que se prepara para a França no caso da zona euro vier a estoirar devido a cacofonia actual dos seus dirigentes.
Duas vias se desenham, duas vias são possíveis.
Uma história horrível …
A Grécia vai votar a 17 de Junho. SYRIZA será maioritário, mas não terá êxito na criação de uma coligação. A Grécia estrangulada pelas despesas e pela indisponibilidade de fundos da Troika, imprimirá as suas notas de banco. O primeiro banco vai à falência. O BCE, que já registou 100m de perdas (ou seja, 20 vezes os seus fundos próprios ) não será capaz de responder sem pedir o federalismo…
Esta perspectiva desencadeará a maior fuga de capitais na história moderna (a corrida aos bancos) na Espanha, Itália e França. A Suíça irá colocar controles de capital para evitar entrar numa deflação ainda maior do que aquela em que ela já vive já (o que está relacionado com a excessiva valorização do franco suíço).
A Alemanha irá recusar alegando que a sua Constituição proíbe transferências orçamentais. A Itália vai decidir fazer de “cavaleiro solitário” . A lápide do eurovai ser colocada : 1999 – 2012. Consequência, uma diminuição dos salários em cerca de 20% França, e na Itália será de 30%. O nível de vida grego diminuiu cerca de 55%… A Alemanha vai perder 1 milhão de milhões ou seja, 1/3 do PIB. Vamos aqui recordar que a última Guerra Mundial foi desencadeada como resultado de um Tratado de Versalhes que impôs à Alemanha encargos de 10% do PIB (3 vezes menos do que o que o país se está agora a preparar para perder devido ao medo dos seus dirigentes lhes dizer a verdade)
….Ou a esperança
Depois de uma cimeira da última oportunidade que começa na sexta-feira-22 h (depois do fecho do mercado dos EUA), a Chanceler Merkel, o Presidente Hollande, os primeiros-ministros italiano e espanhol apelarão a um referendo que será realizado no mesmo dia em todos os países da zona euro.A questão: a escolha entre o federalismo e a saída da zona euro. Às 20 horas do dia da votação, em cada país vai-se saber se eles escolheram em se juntarem e se abrigarem sob a mesma força ou de cada um fazer o seu jogo à parte. . Alguns apelarão para se votar pelo franco ou pelo marco . Aqueles levarão os seus países, se deixados sozinhos, ao isolamento (daí a necessidade de votar juntos e à mesma hora e assim ninguém sabe qual é à priori a escolha do vizinho). Ao mesmo tempo, eles irão apelar a que 6 meses mais tarde se venha a eleger uma Assembleia Federal Constituinte dos Estados Unidos da Europa. Nós não poderemos voltar a fazer a guerra uma vez que nós somostodos o mesmo país.
Tudo está nas mãos de Merkel, Hollande, Monti, Rajoy, o melhor como o pior!.
Caros dirigentes europeus , sejam dignos dos vossos mandatos e evitem o pior!
Pierre Maxime, La crise de la zone euro pour les nuls : chronique d’un crash au ralenti, disponível no blog Atlántico no seguinteendereço :
Pierre Maxime, é um analista financeiro no quadro de vários estabelecimentos bancários.Escreve para o blog Atlântico sob pseudónimo. s.
[1] Este tema foi amplamente tratado no blog A viagem dos Argonautas com o dossier sobre a Apple.
