Com a devida vénia e com a autorização expressa do autor,
transcrevemos do jornal Fraternizar -Edição 82,
Sexta-feira, 9 Novembro 2012 Editorial 51
Aliás, a única saída que o Poder tem para oferecer às populações, e que está já em curso, com rapidez e eficácia nunca vistas, é a extinção pura e simples de, pelo menos, duas das três partes da população mundial
Precisamos, como de pão para a boca, de seres humanos, mulheres e homens, sábios, a tempo integral, capazes de ler/interpretar os Sinais dos tempos e de ajudarem maieuticamente a transformar as mentes das populações. Para que, com eles organicamente ligados às populações, elas se transformem e transformem o mundo. Sobram, por de mais, os sabedores/doutores, todos mais ou menos escravos de luxo do Poder, que só se mantém, de geração em geração, graças ao serviço deles, desde o mais privilegiado, no topo da pirâmide, ao porteiro/motorista/mulher de limpeza, na base da pirâmide. Há escravos de luxo do Poder, a tempo integral, que até comem e dormem nos seus palácios; e há uma imensa minoria de outros, cujas mentes, como as dos escravos de luxo, a tempo integral, estão também absolutamente formatadas pela mesma ideologia/idolatria, que tem por pai o Poder. Por isso, e a seu modo, são também escravos do Poder, a tempo integral. Absolutamente cegos e incapazes de ver/conhecer a realidade, tocar/pisar a realidade, fecundar/transformar a realidade.
O mundo dos sabedores/doutores nunca foi, é, será, o mundo da realidade/verdade. Sempre e só o da ideologia/idolatria, que tem por pai/patrão/amo, o Poder que os compra/contrata como seus escravos de luxo, a tempo integral, se no vértice da pirâmide, ou de quase lixo, se na base da pirâmide. O mundo da ideologia/idolatria é o das encenações, dos meros conceitos, dos discursos e projectos vazios de Sabedoria, e carregados de veneno e de cinismo, o mais cruel e sádico. De modo que todos os sabedores/doutores, escravos de luxo do Poder, são, no mínimo, eunucos que se devoram a si mesmos, e que sempre se apresentam de mãos muito limpas, unhas reluzentes, roupas asseadas, cada dia, cada hora, a sua, e proibidos, até, de recorrerem a uma roupa, alguma vez já utilizada por eles. E tudo, porque, no mundo da ideologia/idolatria que tem por pai o Poder, as aparências são a única realidade que os sabedores/doutores conhecem e com que têm de lidar a toda a hora. Sob pena de não só serem dispensados, mas, pura e simplesmente, banidos da face da terra e da memória das populações, sem deixarem qualquer rasto.
Precisamos, como de pão para a boca, de seres humanos, mulheres e homens, sábios, a tempo integral. Que, ao contrário dos sabedores/doutores, nunca se vendem, nunca se deixam contratar/comprar pelo Poder, por mais alto que ele ponha o preço que está disposto a pagar-lhes. E cujas mentes são, por isso, totalmente abertas à realidade/verdade, e totalmente bloqueadas à ideologia/idolatria e à mentira que, como a ideologia/idolatria, também tem por pai o Poder. Só seres humanos, mulheres e homens, assim, são capazes de ler/interpretar os Sinais dos tempos; de pisar em permanência o chão da realidade, na qual as populações, com realce para os chamados Zé-Ninguém, são a sua dimensão mais substantiva; de usar as mãos e os pés, os seus conhecimentos e suas capacidades, exclusivamente, ao serviço da realidade, e da sua contínua transformação, de dentro para fora, bem ao jeito da parteira.
Ora, os Sinais dos tempos, hoje, estão a revelar-gritar aos quatro ventos, que as populações estão cada vez mais condenadas pelo Poder a ter de penar no gélido e cínico inferno planetário de solidão que ele, com os seus sabedores/doutores, escravos de luxo a tempo integral, compulsivamente está aí sempre a criar e a desenvolver, à escala global. Mas o facto, pela primeira vez na história, tão massivo e global, está, também e ao mesmo tempo, a revelar-gritar, inequivocamente, que o Poder, criador deste gélido e cínico inferno planetário, nunca mais pode continuar a ser visto, como demencialmente, tem sido, como parte da Solução para sairmos/fugirmos desse seu inferno planetário. Aliás, a única saída que o Poder tem para oferecer às populações, e que está já em curso, com rapidez e eficácia nunca vistas, é a extinção pura e simples de, pelo menos, duas das três partes da população mundial. E o Poder está já a fazê-lo, dia e noite, sem sequer ter necessidade de recorrer a guerras, como antigamente. Basta-lhe destruir, da noite para o dia, todas as leis que ainda continham alguma dimensão de humanidade; provocar a generalizada e permanente inactividade das populações; fomentar a fome generalizada, disfarçada de sopa dos pobres e de IPSSs, tornar inacessíveis os serviços públicos de saúde às populações menos abonadas em dinheiro; fomentar o isolamento, a solidão/depressão, e a multiplicação de lares de idosos cada vez mais sofisticados e preparados para fazer adoecer e morrer em poucas semanas os que neles residem, mas não dispõem de balúrdios, para pagar cada mês de internamento. De modo que, hoje, é muito mais manifesto do que ontem, que a única Saída/fuga do gélido e cínico inferno planetário, criado pelo Poder, reside apenas nas próprias populações, se, organicamente, acompanhadas/servidas, a tempo integral, por seres humanos, mulheres e homens, sábios. Ou ajudamos a dar à luz esta Saída libertadora e emancipadora, protagonizada pelas próprias populações, ou espera-nos, a breve trecho, a nossa extinção pura e simples, como seres humanos.
Onde estão, então, estes seres humanos, mulheres e homens, sábios, a tempo integral, cujas mentes vivem permanentemente abertas à realidade, Zé-Ninguém incluídos, e que tanto urge ser transformada de dentro para fora? Quem tiver ouvidos, oiça os clamores das populações, já em acelerado processo de extinção. E faça-se, por toda a vida, ser humano, mulher e homem, sábio, por isso, permanentemente orgânico entre as populações e com elas. É que nunca, como hoje, foi tão dramático ser-viver-actuar-pensar-falar-escrever humano! Ou deixamos de servir o Poder, para que ele desapareça, por falta de servidores, de luxo ou de quase lixo, e, em vez disso, convertemo-nos e assumimo-nos seres humanos sábios entre as populações e com elas, ou perecemos todos assassinados, sem chegarmos sequer a ver o sangue dos assassinados correr pelas ruas. Apenas populações inanimadas, quase cadáveres, amontoadas em vagões, a caminho dos fornos crematórios, em laboração contínua! Cabe-nos escolher e decidir!
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