REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930.

ESTAMOS NAS ANTÍPODAS DE RICARDO, por Júlio Marques Mota.

(CONTINUAÇÃO)

Parte III.

ANEXO ou Como os factos  não correspondem ao que deles dizem os neoliberais

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Análise da globalização actual a partir de um  texto publicado pelo FMI

Curiosamente depois do nosso texto ter sido escrito e publicado, tivemos conhecimento de um grande texto publicado pelo FMI com o título External Imbalances in the Euro Area, um trabalho de Ruo Chen, Gian-Maria Milesi-Ferretti, and Thierry Tressel1e, um trabalho do FMI que francamente recomendo, o que é raro, muito raro mesmo, aos estudantes de economia que devemos ser todos nós.

Neste trabalho sobre os famosos desequilíbrios de que tanto se   fala e à custa dos quais se justifica a DESTRUIÇÃO da Europa como espaço integrado,  e não só, e se dúvidas há, veja-se o reavivar dos nacionalismos em Espanha, na Itália, na Bélgica, na Escócia, na Alemanha, na Bélgica, os  especialistas do FMI dão uma explicação coerente para a existência dos desequilíbrios da economia real que estão também na base da crise  dita da dívida soberana.

E com as análises dos especialistas do FMI citadas estaremos também nas antípodas das explicações propostas por muitos dos Joaquim Aguiar que por essa Europa fora e pagos a peso de ouro pela banca ou pelas próprias Instituições Europeias andam a vender-nos como uma verdadeira mistificação ideias sobre as razões que estão por detrás desta crise. Desta forma, por esta Europa fora andam a desviar as nossas atenções das verdadeiras razões dos males que a todos nós, povos europeus nos atingem e nos afligem.

Vejamos pois alguns dos excertos do texto publicado pelo FMI.

A crise reflecte o entrelaçado da dívida pública e as fragilidades do sector bancário tornando ainda piores as perspectivas de fraco crescimento, e ela reflecte também uma substancial dívida externa bruta e líquida — por exemplo, o passivo líquido externa a ser cerca de 100 por cento do PIB na Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha. Este artigo centra-se sobre a dimensão externa da crise área do euro e visa caracterizar os factores que contribuíram para os crescentes desequilíbrios da balança de pagamentos na área do euro. Centramo-nos sobre os 5 maiores “devedores líquidos” na área do euro (Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha) reconhecendo as diferenças significativas entre os países.

No presente trabalho defendemos que os grandes desequilíbrios da balança corrente dos países da zona do euro tomado individualmente reflectem uma importante dimensão do impacto assimétrico dos choques comerciais provenientes de países fora da zona euro, assim como o financiamento sustentado a baixas taxas feito pelos países do núcleo da zona euro aos países mais largamente devedores líquidos. Em particular, o crescimento económico da China gerou uma forte procura por máquinas e outros bens exportados pela Alemanha, enquanto as exportações dos países devedores da zona euro foram nos mercados internacionais substituídas pelas exportações chinesas. Além disso, os termos de troca associados aos preços mais elevados do petróleo contribuíram para os défices comerciais crescentes, mas também aqui os mais elevados rendimentos dos países exportadores de petróleo geraram uma forte procura por máquinas e equipamentos exportados pela Alemanha. Finalmente, as empresas alemãs continuaram a sua integração nos mercados mundiais através da criação de plataformas de produção nos países emergentes da Europa de Leste para tirarem vantagens da [alta competência técnica e baixos salários de Leste] obtendo uma maior rentabilidade sobre o capital e mais baixos salários o que impulsionou a sua competitividade e as suas exportações vindas da Europa emergente para os países endividados da zona euro… O contínuo financiamento a baixa taxa (até que a crise eclodiu) permitiu que os países deficitários se mantivessem com uma taxa de câmbio efectiva real sobre-avaliada o que, por seu lado, ainda era mais agravado pela apreciação nominal do próprio euro e por esta dupla via se atrasou o ajustamento necessário para acabar com a crescente divergência nas performances comerciais entre os países no âmbito da União Monetária.

Divergimos da literatura existente ao longo de duas principais linhas de análise. Em primeiro lugar, damos conjuntamente grande importância às ligações comerciais e à dinâmica dos preços relativos entre os países da zona euro e entre estes e o resto do mundo. Nós mostramos que, enquanto os movimentos de preços relativos da zona euro contribuíram para as apreciações das taxas de câmbio reais dos países endividados, a parte de leão da apreciação da taxa de câmbio real efectiva do euro entre 2000 e 2009 foi devida fundamentalmente à apreciação nominal do euro contra as outras divisas moedas, mesmo para países como a Grécia e Portugal que entraram no euro com uma taxa de câmbio real potencialmente sobre-avaliada. Apresentamos dados que nos mostram que essa sobre-valorização terá prejudicado o comportamento das exportações dos países devedores, para além do impacto médio sobre as exportações da zona euro. Nós também mostramos que os choques sobre o comércio provenientes de países externos à zona euro contribuíram para o alargamento dos desequilíbrios nesta zona e mostrámos igualmente que a contribuição do comércio bilateral face à China, face aos países exportadores de petróleo e face aos países emergentes da Europa de Leste muito contribuiu para a criação dos excedentes crescentes dos alemães e para a criação dos défices igualmente crescentes dos países devedores.

A nossa análise dos défices na balança corrente e as posições externas dos países endividados também ajudam a clarificar a relação entre a dívida pública e os passivos externos. Em particular, nós mostrámos como é que o aumento de défices nas balanças correntes e o passivo externo entre o início do euro e a crise mundial reflectiu principalmente um agravamento das contas do sector privado, com dívida líquida das famílias a aumentar significativamente.

Este agravamento das contas do sector privado foi financiado directamente ou indirectamente (e em grau diferentes, dependendo do país) pela venda ao exterior de dívida pública dos respectivos estados soberanos, anteriormente nas mãos do sector privado nacional, bem como pelo crescente recurso dos bancos dos países devedores ao financiamento externo. Como um resultado desta dinâmica, a detenção pelos investidores externos da dívida pública nacional aumentou substancialmente, sobretudo na Grécia, mesmo que não tenha havido nenhum aumento percentual relativamente ao PIB na dívida pública de muitos países devedores em percentagem durante o período de 2000-2008.

(continua)

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