EDITORIAL: O CAVALO DA TROIKA

A Antiguidade Clássica tem um arsenal de mitos e de lendas que servem para todas as situações. Há também um stock inesgotável de frases de grandes filósofos atenienses e um número muito grande de locuções latinas. A propósito da situação de crise extrema em que estamos mergulhados, não sabemos se alguém já usou como metáfora a história do Cavalo de Troia. Se não estamos a ser originais, também não há problema – os direitos autorais de Homero já prescreveram. Em todo o caso, saltamos a história que Homero referiu na Ilíada e contou na Odisseia. – todos a conhecem. E a designação “Cavalo de Troia” significa engodo, presente envenenado. Actualmente é mais conhecida por dar  o nome a um vírus que nos entra no computador dentro de qualquer mensagem de aparência inocente. Há quem lhe chame, para fugir da vulgaridade, o presente grego.

A visita da chanceler alemã Angela Merkel a Portugal está a concentrar atenções, preparam-se manifestações, protestos, petições, lutos, lutas… a PSP monta dispositivos de segurança. Enfim, o trivial. O inimigo tem um rosto, a crise tem um rosto, um rosto e um nome – Angela Merkel. Não queremos dizer que ela não faz parte do inimigo – claro que faz. A dona Angela é uma megera odiosa – sem o brilho da inteligência germânica que se exprime, por exemplo, em Goethe ou em Beethoven; mas com o rigor maníaco que animava Josef Mengele a levar as suas teorias até às últimas consequências. O que queremos dizer é que no interior da nossa sociedade o inimigo tomou as posições chave.

Em 1974, pensámos que tínhamos derrotado o fascismo. Mas em 26 de Abril já quase não havia fascistas. Os milhares de pessoas que enchiam o Terreiro do Paço para ouvir Salazar (e nem todos eram pacóvios trazidos como gado) desapareceram. E, já nem falando nos torcionários da polícia política, dois dos quais Cavaco Silva medalhou num 10 de Junho passado, todo um passado de 48 anos foi esquecido – foi a grande «reconciliação nacional», parece que foi assim designada essa prova provada dos nossos brandos costumes. E não houve um cavalo de Tróia – houve milhares deles. A bem dizer, milhões. Pois dentro de cada um de nós se foi alojando o espírito do consumismo, fomos aceitando como boas todas as ideias que nos quiseram vender. Dizemos «nos», assumindo que a vontade das maiorias é soberana. Comprámos carros, electrodomésticos, casas, recorremos a créditos que os bancos nos impuseram e, o principal, elegemos quase sempre gente incapaz e desonesta. Gente que foi delapidando o património nacional, que foi enriquecendo mercê do poder que o nosso voto lhes deu… E estamos onde estamos e como estamos. Devemos vaiar a Merkel – ela merece cada ovo, cada tomate, cada impropério que em cima lhe caia. Podemos até designá-la pelo Cavalo da Troika.

Mas enquanto não tivermos um antivírus que nos impeça de deixar entrar dentro de nós a ideologia do inimigo, seremos sempre vencidos.

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