Selecção, tradução e nota de leitura por Júlio Marques Mota
Nota de leitura ao texto de Wolfang Münchau
Ainda a propósito do milagre alemão, do modelo alemão, do modelo que, pelos vistos, o senhor Hollande quer agora copiar para a França e quando se está em plena crise, aqui temos um texto de Wolfgang Münchau referido no Eurointelligence de hoje e que se enquadra na temática quer das duas cartas abertas ontem editadas quer dos restantes textos de economia a publicar hoje. Um texto que francamente recomendo.
Júlio Marques Mota
A competitividade não vai salvar o euro
Wolfgang Münchau
Tradução livre, por Júlio Marques Mota
A seguir às eleições de 2002 na Alemanha, o governo eleito iniciou uma série de reformas económicas, principalmente nas áreas da legislação laboral e da Segurança Social. A economia alemã continuou estagnada até cerca de 2005, e a partir daí começou a ter uma recuperação sólida e contínua, interrompida pela recessão de 2009. Estes são os factos. Mas a história contada em toda a Europa é que as reformas causaram um novo milagre económico alemão.
O argumento é uma falácia lógica da variedade de post hoc ergo propter hoc: depois disso, portanto, por causa disso. Primeiro as reformas e, em seguida, o crescimento, portanto, um nexo de causalidade, de universal aplicação. Cada governo europeu parece ter aceite esta cadeia causal, esta cadeia de argumentos. E agora estão já a querer aplicar esta sua lógica falhada em França.
Preste atenção ao que lhe dizem as sirenes para acabar com esta fixação sobre a austeridade. Na semana passada um relatório elaborado por Louis Gallois, antigo presidente da EADS, sugere um conjunto de medidas para tornar a França mais competitiva. O relatório e o debate que o acompanhou reflectem uma confusão intelectual bem mais ampla sobre a natureza das próprias reformas. Pessoalmente vejo nisto um triplo erro de diagnóstico – acerca dos efeitos das reformas na Alemanha; sobre o tipo de reformas que são necessárias agora em França, na Itália e na Espanha; e sobre a importância da competitividade.
A primeira das três falácias tem a ver com a Alemanha. Durante todo o período de pós-guerra, a economia alemã apresentou-se fortemente estruturada e apoiada nos mecanismos de taxa de câmbio fixa. O seu primeiro milagre económico ocorreu durante a era de Bretton-Woods, de 1950 e 1960, onde ela conseguiu desvalorizar a sua taxa de câmbio real contra os outros membros do sistema. Os factos mostram que parece não ter havido nenhuma surpresa de que a Alemanha prospere na zona euro, fazendo exactamente a mesma coisa, [ou seja, depois, na zona euro – veja-se o nosso post de hoje sobre a Alemanha]. A recuperação que se seguiu à crise financeira no início da década passada foi causada por um longo período de moderação salarial.
Assim, haverá alguma ligação entre as reformas e a moderação salarial? Se assim fosse, poder-se-ia estabelecer o nexo de causalidade entre as reformas de há 10 anos atrás e a consequente melhoria dos resultados económicos.
Para responder a esta questão, é preciso olhar para a natureza dos trade-off entre as políticas salariais, o desemprego e com os outros factores que estão presentes. Enquanto os sindicatos alemães aceitaram salários mais baixos para evitar perdas de emprego, a natureza do trade-off entre inflação e o desemprego – a chamada curva de Phillips- tem‑se revelado estável ao longo do tempo.
Os sindicatos alemães e as organizações patronais aceitaram mover-se ao longo da curva para uma posição onde os salários são mais baixos e há um mais elevado nível de emprego, mas as reformas não alteraram a natureza do próprio trade-off. Sendo assim, poderiam então as reformas ter contribuído pelo menos para o movimento ao longo da curva – fazendo com que os sindicatos aceitassem em primeiro lugar um tal trade-off? A esta questão é bem mais difícil de responder, mas a minha explicação intuitivamente é a de que o processo de externalização (outsourcing) para a Europa central, um verdadeiro choque externo, foi a principal razão para que os sindicatos tenham aceite actuar como o fizeram. Num país com baixa mobilidade regional do trabalho, o encerramento de uma fábrica produziria necessariamente um desemprego persistente.
[A abertura total da Europa ao Sueste Asiático que se verificou depois de 2005, com a China já de pleno direito na OMC pode ser entendida como um choque equivalente para a Europa e sobretudo para os países do Sul como Portugal e a Espanha pode ser entendida. A Alemanha passa a comprar mais barato à China produtos que anteriormente importaria dos países da periferia, um desvio de comércio portanto para a zona euro, passa a exportar bem mais para a China, criação de comércio para a Alemanha e dinamização da economia alemã enquanto os países do Sul eram batidos nos seus próprios mercados internos assim como nos mercados externos onde passaram a ser substituídos por produtos chineses. Batidos em toda a linha, portanto e esse facto é igualmente reconhecido num texto do FMI por nós referido extensamente no texto Estamos nas antípodas de Ricardo…. Parece-nos óbvio que esta realidade não tem nada a ver com o discurso oficial nem com as medidas por ele expressas e, sendo assim, as medidas oficiais propostas, porque resultado de uma visão completamente errada do mundo, estão longe de com conduzir para a saída da crise. Antes pelo contrário, agravam-na como se tem estado a ver. Nesta mesma linha pode ser entendida a declaração do Comissário Barnier que nos vem dizer agora que a Comissão Europeia tem sido ingénua neste processo, o da globalização, e é neste, isso sim, que assentam as verdadeiras razões da crise. Mas o desenvolvimento deste tema levava-nos muito longe…, por isso, voltemos a Munchau]
Em segundo lugar, para corrigir os problemas económicos da França, deve-se procurar ter uma abordagem lúcida e bem precisa nos seus objectivos, nos seus meios. A França e a Espanha sofrem de elevada taxa de desemprego dos jovens, [sobretudo nos jovens entre os 16 e 25 anos, sendo esta taxa em França de 25,7% e em Espanha de 54,2, segundo os dados de Eurostat de 31 de Outubro de 2012]. O problema está bem estudado, compreendido. É provocado por um mercado de trabalho fragmentado, que protege os trabalhadores com um contrato de trabalho permanente, mas discrimina os candidatos externos e os jovens. Com o desemprego juvenil em 52% Espanha, [54,2 % agora], esta deve ser a prioridade na reforma económica. Nós, portanto, devemos distinguir entre as reformas que servem um objectivo bem específico e bem definido – tal como a introdução de um único contrato de trabalho, ou uma reforma da Segurança Social – e não a partir de reformas com efeitos não provados. Deve-se também separar as reformas específicas daquelas que provêm de uma pura ideologia de direita.
Por último, porque nos devemos estar sempre a centrar na questão da competitividade? Os empresários falam interminavelmente sobre isso, mas é um conceito menos útil à escala macroeconómica. Ele funde dois outros conceitos: a competitividade macroeconómica, que é expressa pela taxa de câmbio real, e a produtividade total dos factores ou TFP, uma proxy para o dinamismo tecnológico de um país. Um corte nos custos unitários do trabalho é apenas um ganho se um país, uma empresa, um sector, um ramo, o conseguir sem que mais ninguém concorrente o consiga. Uma vez que esses cortes sejam defendidos como uma política para todos os cidadãos da zona euro, acabamos afinal num jogo de soma nula, de soma zero. Nós não podemos estar todos a desvalorizar ao mesmo tempo. Se dizemos que a zona euro deverá reduzir os seus custos laborais unitários ao nível da Alemanha, porque é que pensamos que a Alemanha não vai fazer o mesmo?
É assim que se abandona a análise centrada na TFP. Isso poderia ser óptimo, mas, entretanto seria bem melhor se nos concentrássemos nela, e especificamente, em vez de andarmos a falar e a distrairmo-nos com a utilização de um nebuloso conceito de competitividade. Mais ainda, podemos inclusive não saber tanto como pensamos sobre a TFP.
As reformas específicas podem ser úteis, mas ninguém se deve enganar a si-mesmo com a ideia de que as reformas estruturais poderiam resolver o que, em última análise, é uma crise de balança de pagamentos. Teremos que resolver esta crise primeiro – em vez de andarmos a procurar refúgio num debate que já vem de muito longe e em que os europeus gostam de desperdiçar o seu tempo a falar de reformas institucionais e de reformas estruturais. Estas são ambas não irrelevantes, mas elas são irrelevantes para a resolução desta crise.
Wolfgang Münchau, Competitiveness will not save the euro, Eurointelligence, 12.11.2012. Tradução livre.
