Lisboa, 11 de Novembro de 2012
No dia 12 de Novembro, passam duzentos e cinco anos sobre a data em que a Europa central – sempre a Europa – por intermédio do exército do estado francês, às ordens do chamado Imperador Napoleão Bonaparte, começou a sua Primeira Invasão do território português, uma tarefa cometida com a ajuda do nosso velho inimigo castelhano.
Foi a primeira de três que, convêm destacar, qualquer delas, nunca correu bem ao invasor e foram, como é histórico, o começo do esborrar de mais um sonho imperial que os francos pretenderam instituir na Europa continental.
“Le sergent La Tempête”, ao chegar a Lisboa à frente dum bando de esfarrapados não foi ao Alto de Santa Catarina para ver navios mas foi a Belém donde viu a consumação indiscutível da derrota imperial do seu amo. A presa apetecida e, à época, julgada fundamental – o Rei de Portugal – fazia o seu recuo para outra terra de além-mar e fazia-o em boa consciência na conformidade dum projecto de autoria nacional. Na verdade irrecusável – pese embora a maledicência habitual – tudo foi feito, sem qualquer ajuda minimamente significativa e, sobretudo – isso é indesmentível – sem que, na ida, houvesse qualquer espírito de retirada.
Se, face ao perigo duma invasão do território nacional, muitos anos atrás, e por mais de uma vez, a ida do monarca português para uma das colónias era uma hipótese que já fazia parte do pensamento defensivo nacional foi, desde a época da Guerra das Laranjas, em 1801, que a essa possibilidade foi reconhecida com muito maior premência e probabilidade. A previsão do invasor querer retaliar, em directo, sobre a chefia do estado português fez com que, nesse ano de 1801 e, depois, no de 1803, tanto o, mais tarde, 3º Marquês de Alorna como, também, Rodrigo de Azevedo Coutinho – ambos Secretários de Estado – já tivessem elaborado, em documento histórico, a decisão inteligente duma manobra táctica defensiva como fosse a de, caso extremo, recorrer-se a um exílio da corte para o, então, mais rico de todos os territórios possuídos fora da Europa, o Brasil, que, por essa época, sem discussão, era considerado português.
Foi uma decisão política muito arrojada, completamente inovadora no panorama europeu e, reconheça-se, uma obra com exigências estruturais de grande fôlego que, deve dizer-se, só foi possível graças a haver uma Armada nacional muito grande e, de facto, poderosíssima.
Depois do esbulho castelhano de 1640, no primeiro decénio do século XIX, Portugal voltou a ser vitima dum atropelo político alienígena, desta feita, ordenado pelo império napoleónico na sua fantasia de querer colocar toda a Europa sob a sua batuta e, assim, imaginar derrotar a Inglaterra.
A historiografia dá conta que quaisquer das sucessivas invasões francesas foram, de facto, os ensaios duma brutal e desapiedada guerra total como, anos após, ficou exibido na campanha napoleónica da Rússia. Para além de tudo quanto a tropa napoleónica roubou aos haveres portugueses e cujas marcas ainda agora fazem sentir-se, foram provocados sacrifícios brutais com as muitas mortes causadas e, também, em última análise, a presença malquista do invasor havia de provocar a desarticulação da organização social nacional, consequente ao desvio, em favor do Brasil, de quinze mil cidadãos e cidadãs nacionais que, no seu todo, englobava o escol da sociedade portuguesa. Como tudo tem o seu reverso e há males que vem por bem, ao Brasil, foi possível transformar-se no único Estado do Continente americano que, por albergar uma Corte europeia, começou melhor apetrechado.
Mas a História ensinou – disso nenhum português pode arredar-se – que Portugal, nação marítima – sejam quais forem as circunstâncias – nunca pode ou deve ceder às pretensões expansionistas das potências continentais, antes sim, tudo fazer para diminuir-lhes a influência. Compare-se a atitude política actual com aquela assumida no século XIX. A intransigência vigorosa de outrora sobreleva com vantagem nítida, mau grado os sacrifícios impostos, a submissão confrangedora dos nossos dias face ao imperialismo germânico.
Se 1640 e 1808 são datas políticas cuja recordação não pode perder-se, também, não podem menosprezar-se as suas consequentes evoluções políticas, por desígnio feliz, os desastres militares que, com todo o merecimento, os continentais europeus aqui começaram a colher. Seja qual for o desenvolvimento político, económico e social da História, esperemos que o futuro português possa ver repetida a derrota de quem, agora, aqui exige mandar.
Bom grado, nos tempos actuais, não faça sentir-se a máquina devoradora dos exércitos invasores, Portugal – a população portuguesa – vive, mais outra vez, uma indubitável situação de falência política, económica e social em que a responsabilidade vinda do exterior tem um enorme contributo. A população portuguesa está a viver numa subalternidade política que é fruto duma dependência política e económica imposta pela força económica da União Europeia e facilitada pela conivência declarada dos “gauleiteres” que por cá abundam, lado a lado, em parceria – tem de ser dito – com um contingente numeroso de colaboracionistas adstritos a várias áreas do legislativo nacional.
Nesta Europa, vive-se, mais uma vez, sob a alçada renovada do eterno expansionismo imperialista dos continentais centro-europeus e, tem de insistir-se, entre nós, é conduzida pela mão dócil, submissa, reaccionária, revanchista e hipócrita duma maioria politica que enxameia S.Bento e que manifesta uma insensibilidade social consubstanciada na ideologia neoliberal.
“Mesmo que tenha de atravessar-se uma depressão profunda, mesmo com os dramas sociais, fome e miséria que ela acarreta, para que a sua cura seja duradoura é preciso deixá-la acabar naturalmente”. Assim escreveu F. Hayek, o guru dos que por cá estão a mandar. Assim pode ver-se o futuro que querem destinar aos portugueses.
Se em 1640 e em 1808 a opção acabada por tomar foi – e muito bem – a duma aliança contra os centro-europeus, agora, pelo contrário, ao arrepio da estratégia marítima e universalista dos portugueses, vê-se e ouve-se um endeusamento constante da vontade expansionista do centro da chamada união europeia e, por igual, do seu neoliberalismo desenfreado, um e outro, com o comando efectivo da já velha ambição germânica.
A Roma Imperial, o Papado, Napoleão, Bismark e Hitler, sucessivamente, séculos após séculos, alimentaram o onirismo de conseguir obrigar as várias Nacionalidades europeias a serem seus súbditos e, para tanto, não hesitaram em usar o ferro e o fogo sobre quem – populações – ousasse recalcitrar. Agora, como actuam?
Os impérios centrais, depois da Segunda Grande Guerra de 39/45 e da presença consequente e constante, talvez inopinada mas decisiva, do expansionismo ilimitado dos Estados Unidos da América do Norte, por fim, haveriam de reconhecer-se incapazes dum qualquer sucesso expansionista que não fosse concebido numa associação, a todo o custo, dos interesses políticos das velhas heranças imperialistas franco-germânicas mesmo que tenham de viver numa aliança – leiam-se os tratados – eivada da mais pura das hipocrisias políticas.
Bismark, Hitler e Cavour, pela mão estulta dumas descendências governamentais de pacotilha – nenhum manto diáfano conseguirá escondê-lo – apostaram num concentrado de estados que, depois dum período de promoção política das virtudes atribuídas às famigeradas Comunidades Económicas Europeias (CEE), haveria de resultar na União Europeia – uma antecâmara do indesejável federalismo europeu – em que, germanos e francos, à vez, tentam ludibriar-se na disputa da hegemonia.
Continuará a política portuguesa a prestar vassalagem contínua aos centro-europeus e, nessa condição, a levar o País para o caos?
Pois se nem os chamados oposicionistas, mau grado a sua inutilidade manifesta, não prescindem dos benefícios de parlamentar, que outro fim pode esperar-se?
No dia 12 de Novembro de 2012, precisamente duzentos e cinco anos após a primeira invasão napoleónica, Merkel, a chanceler germânica, vem ao nosso País para simbolizar o poder duma invasão germânica.
