Saine daie – Adão Cruz

(Calinadas ouvidas e lidas na Comunicação Social – TV, Rádio, Jornais e não só…)

(Pormenor de quadro de Adão Cruz)

A fim de nos levar a parar um pouco para pensar e a reflectir sobre esta moléstia crónica que tanto fere a maior riqueza que temos, que é a nossa língua, aqui deixamos algumas daquelas pedradas que produzem dores de barriga:

Interviu, em vez de interveio (frequente).

Metriologia e metereologia, em vez de meteorologia (diária).

Pancadinhas de Molier (ê), em vez de pancadinhas de Molière).

Vestido fruta-cores, em vez de vestido furta-cores.

Tem hàver com, em vez de tem a ver com (horrível).

Comprimidos efeverscentes, em vez de comprimidos efervescentes.

Praias parasidíacas, em vez de praias paradisíacas.

Vila Velha da Roda, em vez de Vila Velha do Ródão.

Rio Cavádo, em vez de Rio Cávado.

Haverão outros meios, em vez de haverá outros meios (corrente).

Tu Fizestes mal, em vez de tu fizeste mal (corrente).

Os diabetes, em vez de A Diabetes (vulgar)

Duzentas gramas, em vez de duzentos gramas (corrente).

Inguerdientes, em vez de ingredientes.

Ingrediente, em vez de gradiente.

Detiorado, em vez de deteriorado (frequente).

Clausterfobia, em vez de claustrofobia.

Prepretar, em vez de perpetrar.

Reinvindicar, em vez de reivindicar.

Aurea misteriosa, em vez de aura misteriosa.

O doente está sobre medicação, em vez de o doente está sob medicação.

O tumor que o doente foi operado, em vez de o tumor a que o doente foi operado.

Aquela que o filho era músico, em vez de aquela cujo filho era músico (corrente).

A mulher que o cabelo era vermelho, em vez de a mulher que tinha o cabelo vermelho ou a mulher cujo cabelo era vermelho (corrente).

Foi um dos que fez exame, em vez de foi um dos que fizeram exame (corrente). (Apesar de soar a dissonante falsete, há, no entanto, quem argumente que está correcto).

Perseverância, em vez de perseverança.

Poribido, em vez de proibido (corrente).

Acorbacia, em vez deacrobacia.

Guardaríamo-lo, em vez de guardá-lo-íamos.

Mussogorsky, em vez de Mussorgsky (…e na Antena 2).

Descrição em vez de discrição.

Previdência, em vez de providência.

Competividade, em vez de competitividade.

Acessor(í)o, em vez de acessório.

Soborne, em vez de Sorbonne.

Quem propor, em vez de quem propuser.

Promenores, em vez de pormenores (corrente).

Decidimos se o comêmo-lo, em vez de decidimos se o comemos.

Se o pai se opor, em vez de se o pai se opuser.

Quer quereis quer não, em vez de quer queirais quer não.

Deteram-no, em vez de detiveram-no.

Transmitíveis, em vez de transmissíveis.

Verosímel, em vez de verosímil.

Imperetrivelmente, em vez de impreterivelmente.

Em deterimento, em vez de em detrimento.

Precalços, em vez de percalços.

Transfega, em vez de trasfega.

Geriartria, em vez de geriatria.

O vinho é vertido em túneis, em vez de o vinho é vertido em tonéis.

Plantaforma, em vez de plataforma.

Hádem, em vez de hão-de (inesquecível).

Festival de Beirute, em vez de Festival de Bayreuth (inesquecível).

Precaridade, em vez de precariedade (corrente).

Mandado, em vez de mandato.

Mandato, em vez de mandado.

Desvastação, em vez de devastação.

Beneficiência, em vez de beneficência.

Os Mídia (inglesada), em vez da expressão latina os Media

Errar Humanus Es, em vez de Errare Humanum est (presunção ridícula).

Zero graus negativos, em vez de Zero graus.

Saine Daie (à inglesa), em vez da expressão latina Sine Die. ( a mais parvo-estrambólica de todas até hoje ouvidas).

Nota: O autor deste texto agradece vivamente que o chamem à atenção, sempre que cometa alguma calinada.

1 Comment

  1. Pois aí vai uma chamada… de atenção.
    Apesar de contagiar gente com bons sistemas imunitários e ser já acolhida por dicionários prestigiados (que, coitados, têm o dever de aceitar o que se vai incrustando na língua falada, de tal modo que, como sabemos, há palavras cujo sentido actual é o oposto do original) nunca ninguém me ouvirá a expressão “chamar à atenção” – nem a lerá, por mim escrita. O que aprendi (e bem) a dizer foi “chamar A atenção” DE alguém, no caso desta construção frásica, referindo-se, em geral, a algo de mais ou menos censurável. De facto, chama-se “A atenção” de alguém PARA um comportamento incorrecto, um erro, etc. O professor chama A atenção DO aluno que se distrai ou se “porta mal” PARA as consequências desses “desvios”; mas “chama-o AO quadro” (pior quando é chamado AO Director, por alguma maroteira ou assunto grave…) O árbitro chama “A atenção” DO jogador PARA a possibilidade de ser castigado se repetir uma acção faltosa ou que contrarie as regras do jogo (embora o “à atenção” tenha alastrado como escalracho com a afanosa estrumagem dos relatores e comentadores dos futebóis). Quando alguém se refere a uma “chamada à atenção”, pergunto sempre onde é que ela fica, ou mora, ou onde é o local de trabalho da dita cuja, que é para eu ir ter com ela e perguntar-lhe, finalmente, que cargo ocupa, que funções exerce para ser tão procurada, ou mandarem-lhe tantos clientes…
    Enfim, embora saiba que já não é erradicável, recusar-me-ei sempre a usar essa expressão até que me expliquem, palavra por palavra e de acordo com a lógica, o que querem dizer com tal construção frásica.
    Tal como, embora “toda a gente use”, jamais proferirei o neologismo (e estrangeirismo) “implementar”, substituível por talvez dezenas de palavras que transmitem com muito mais rigor o que se pretende dizer (já que “implementar” dá para tudo, desde a fase da vaga ideia – “pensamos implementar…” – até à “obra acabada” – “implementámos…”, substituindo programar, projectar, idealizar, implantar, instaurar, edificar, realizar, pôr em prática, organizar, estruturar, etc., etc.). Qualquer dia comemoraremos a implementação da Pátria ou a sua reimplementação (a 1 de Dezembro, com ou sem feriado), ou a implementação da República (idem); e falaremos da implementação do remédio no doente, da implementação do goooooolo da vitória e sabe-se lá que mais.
    Também não me ouvirão jamais falar em “pró-actividade”, quando já tenho no alforge linguístico um termo como “iniciativa” e uma expressão como “tomar a iniciativa”.
    Não que eu seja contra a evolução da língua ou os neologismos. O que recuso são neologismos desnecessários – em geral mal importados (“implemento” tinha um significado em português, restrito a um uso meramente eclesial, e equivalia a “complemento”!) – estrangeirismos inúteis e frases absurdas, destituídas de lógica, como “chamar à atenção”. Estes monstrinhos são distribuíveis por duas origens: ou a ignorância e ausência de pensamento analítico; ou o pedantismo, sobretudo a “insinuação displicente” de que se sabe línguas, se estudou “lá fora” e lá se vai a muitos congressos, seminários e “uarquexópes”, de tal maneira que só se sabe nomear as coisas em “inglês” (das docas, modernamente denominado “técnico”) – o qual se pronuncia e traduz mal, gerando preciosidades reveladoras da miséria intelectual do falante – sobretudo quando ambas as origens confluem -, como os “aicones” e os “aitemes” e os “acáuntes” e os “CÉUS” das administrações (que devem de ser quem s’assenta à direita de deuspaitôpedroso) e…
    Eu sei que há coisas que morrerão comigo e mais uns quantos teimosos, mas, lá está, sou completamente intolerante com a asneira, sobretudo quando bem nutrida, na tripa e na jactância…

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