E QUANDO A CRIANÇA NÃO TEM QUARTO? por clara castilho

Uma das queixas frequentes das famílias relaciona-se com a dificuldade que algumas crianças têm em dormirem sozinhas nos seus próprios quartos. Para algumas a dificuldades diz só respeito ao adormecer – mais fácil de solucionar, com o acompanhamento no ritual de que necessita. Mas para outras, é o levantar-se a meio da noite para se irem enfiar dentro da cama dos pais. E muitas vezes, o prolongar desta situação gera uma falta de equilíbrio relacional e de boa distância entre gerações.

Dormir na cama dos pais pode levar a uma confusão interior na criança, com falhas de limites, regras, ficando sem saber qual o seu papel, quem “manda” em quem, quem lhe vai trazer a segurança e protecção de que necessita.

No seu próprio espaço, e não na cama de um adulto, a criança pode desenvolver os sonhos apropriados à sua idade, resolver os seus medos. No quarto dos pais, em que se passam coisas que a criança só deverá imaginar, para que possa construir a sua própria intimidade e fantasiar sobre o que será a vida íntima dos adultos.

Este problema nem se põe quando a criança dorme permanentemente no mesmo quarto dos pais, por falta de condições habitacionais. Recebi há pouco tempo uma família que se percebia, logo à primeira vista, de origem muito modesta. Com o avançar da conversa, fiquei a saber que estavam ambos desempregados, um deles recebia rendimento social de reinserção. Ao serem questionados sobre o desenvolvimento do filho, fiquei a saber que tinha enurese nocturna. A determinada altura a mãe contou que ele a dormir lhe dava murros… Tive que precisar: de facto dormiam os quatro, mais a filha pequenita na mesma cama. Em conversa com a criança, ela desenhava, sem lhe ser pedido, os quatro a dormirem na mesma cama – as crianças aos pés dos pais, ele abraçado à irmã para a não deixar cair.

Há uns tempos que não deparava com uma situação social tão difícil. Acrescentava ao já contado, o analfabetismo dos pais, o facto de viveram em casa de ascendentes, com quem tinham conflitos, devido ao alcoolismo de um deles…Mas eram um casal desejoso de encontrar alternativas, de aprender como ajudar os filhos. Muito trabalho pela frente!

Para este menino, as questões estavam aquém da situação abordada no início do texto. Não admira que a escola não lhe diga nada, que com sete anos mal saiba desenhar a figura humana, que não distinga letras de números. Não admira que os olhos lhe brilhassem a falar de namoros, de gravidezes, de bebés que vão nascer. Enquanto os aprenderes da vida lhe ocuparem tanto o pensamento, não terá espaço para os aprenderes escolares.

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