O PATO ALGEMADO – XI – por Sérgio Madeira

 

 

 

 

 

CENAS DA VIDA FAMILIAR

A família jantava tranquilamente quando, de repente, a filha de oito anos exclama:

– Tenho uma má notícia. Já não sou virgem! Sou uma vaca! – E desata a chorar

convulsivamente, com as mãos cobrindo o rosto.

Silêncio sepulcral na mesa! De repente, explodem as acusações mútuas. Diz o pai para a mãe:

–  Estava-se mesmo a ver!  Andas por aí vestida como uma galdéria a fazer olhinhos aos idiotas

que vês na  rua. Claro que isto tinha que acontecer, com os exemplos da mãe que a  menina vê

todos os dias… – Depois,  o pai aponta também para a outra filha de 18 anos:

– E tu também, que ficas no sofá com o palhaço do teu namorado em poses indecentes com

a  menina a assistir…

A mãe não aguenta mais e grita:

– Ai é?!…E quem é o idiota que gasta metade do ordenado com as putas e se despede delas à

porta de casa?  E quem é o tarado que passa horas a ver vídeos pornográficos no portátil, com

as meninas a ouvirem os gemidos e os grunhidos…? Pensas que eu e as meninas somos cegas

e surdas? – Desolada e à beira de um colapso, com os olhos cheios de lágrimas  e a voz

trémula, a mãe pega na mão da filhinha e pergunta-lhe baixinho:

– E como é que isso aconteceu, minha filha?

Entre soluços, a menina responde:

– A professora mudou o meu lugar no Presépio! A Virgem agora é a Luísa. Eu vou ser a vaca!!!

E não só os lugares no presépio foram mudados – houve mais

mudanças:

 E agora dá-se o inevitável (pensavam que escapavam?):

O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO

«Filipe Marlove, o discreto e eficaz investigador privado e o inspector Pais chegaram a Sobral de Monte Agraço em busca de Paralelo de Sousa, que ali é conhecido por «o pastor alemão». Mas hoje é dia de São Martinho – em Sobral de Monte Agraço há a Feira das Tasquinhas – o inspector, Filipe e Marília, que os conduz no seu pequeno Citroën, procuram pela feira o «pastor alemão». Para a semana saberemos os resultados desta diligência. Para já, cansados de procurar o suspeito, estão numa das tasquinhas da feira com um prato de castanhas assadas e um jarro de água-pé. »

Assim rezava a informação da semana passada sobre a deslocação a Sobral de Monte Agraço do inspector Pais e de Filipe, conduzidos no velho 2 CV de Marília que ia ao volante.

Na estrada iam silenciosos. Até que o Pais perguntou:

– Como é se chama o gajo dos patos, o australiano que ganhou o prémio Nobel?

-Konrad Lorenz, austríaco. E não eram patos, mas gansos – respondeu Marlove pacientemente.

–  Foi o pintas que descobriu a tal treta do emprintingue, não foi?

– Imprinting.

– Foi o que eu disse.

Filipe explicou:

– Konrad Lorenz foi o fundador da moderna Etologia…

– Eto quê?

– Etologia…

– E isso faz bem a quê?

– É o estudo comparativo entre os comportamentos humano e animal…

– Estrordinário – o Pais cabeceava, mas ainda filosofou: – É uma comparação porreira para estudar as claques do futebol.

– Talvez. A observação dos hábitos dos animais e a comparação do seu instinto de agressão com o comportamento humano foi a grande preocupação dos cientistas para explicar a agressividade humana.

– Pois é – os sacanas partem tudo.

–  É aí que entra em cena a tese do imprinting…

O Pais já não ouviu. Ressonava.

Estavam a chegar a Sobral de Monte Agraço.

A seguir – Uma surpresa entre castanhas e água-pé

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