CENAS DA VIDA FAMILIAR
A família jantava tranquilamente quando, de repente, a filha de oito anos exclama:
– Tenho uma má notícia. Já não sou virgem! Sou uma vaca! – E desata a chorar
convulsivamente, com as mãos cobrindo o rosto.
Silêncio sepulcral na mesa! De repente, explodem as acusações mútuas. Diz o pai para a mãe:
– Estava-se mesmo a ver! Andas por aí vestida como uma galdéria a fazer olhinhos aos idiotas
que vês na rua. Claro que isto tinha que acontecer, com os exemplos da mãe que a menina vê
todos os dias… – Depois, o pai aponta também para a outra filha de 18 anos:
– E tu também, que ficas no sofá com o palhaço do teu namorado em poses indecentes com
a menina a assistir…
A mãe não aguenta mais e grita:
– Ai é?!…E quem é o idiota que gasta metade do ordenado com as putas e se despede delas à
porta de casa? E quem é o tarado que passa horas a ver vídeos pornográficos no portátil, com
as meninas a ouvirem os gemidos e os grunhidos…? Pensas que eu e as meninas somos cegas
e surdas? – Desolada e à beira de um colapso, com os olhos cheios de lágrimas e a voz
trémula, a mãe pega na mão da filhinha e pergunta-lhe baixinho:
– E como é que isso aconteceu, minha filha?
Entre soluços, a menina responde:
– A professora mudou o meu lugar no Presépio! A Virgem agora é a Luísa. Eu vou ser a vaca!!!
E não só os lugares no presépio foram mudados – houve mais
mudanças:
E agora dá-se o inevitável (pensavam que escapavam?):
O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO
«Filipe Marlove, o discreto e eficaz investigador privado e o inspector Pais chegaram a Sobral de Monte Agraço em busca de Paralelo de Sousa, que ali é conhecido por «o pastor alemão». Mas hoje é dia de São Martinho – em Sobral de Monte Agraço há a Feira das Tasquinhas – o inspector, Filipe e Marília, que os conduz no seu pequeno Citroën, procuram pela feira o «pastor alemão». Para a semana saberemos os resultados desta diligência. Para já, cansados de procurar o suspeito, estão numa das tasquinhas da feira com um prato de castanhas assadas e um jarro de água-pé. »
Assim rezava a informação da semana passada sobre a deslocação a Sobral de Monte Agraço do inspector Pais e de Filipe, conduzidos no velho 2 CV de Marília que ia ao volante.
Na estrada iam silenciosos. Até que o Pais perguntou:
– Como é se chama o gajo dos patos, o australiano que ganhou o prémio Nobel?
-Konrad Lorenz, austríaco. E não eram patos, mas gansos – respondeu Marlove pacientemente.
– Foi o pintas que descobriu a tal treta do emprintingue, não foi?
– Imprinting.
– Foi o que eu disse.
Filipe explicou:
– Konrad Lorenz foi o fundador da moderna Etologia…
– Eto quê?
– Etologia…
– E isso faz bem a quê?
– É o estudo comparativo entre os comportamentos humano e animal…
– Estrordinário – o Pais cabeceava, mas ainda filosofou: – É uma comparação porreira para estudar as claques do futebol.
– Talvez. A observação dos hábitos dos animais e a comparação do seu instinto de agressão com o comportamento humano foi a grande preocupação dos cientistas para explicar a agressividade humana.
– Pois é – os sacanas partem tudo.
– É aí que entra em cena a tese do imprinting…
O Pais já não ouviu. Ressonava.
Estavam a chegar a Sobral de Monte Agraço.
A seguir – Uma surpresa entre castanhas e água-pé

