REFLEXÕES SOBRE A MORTE DA ZONA EURO, SOBRE OS CAMINHOS SEGUIDOS NA EUROPA A CAMINHO DOS ANOS 1930

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

A crónica de Martin Wolf: mudança de política, e rapidamente

Martin Wolf, Le Monde Économie

A recuperação continua, mas ela diminuiu. Nos países desenvolvidos, o crescimento agora é muito baixo para ter um impacto significativo sobre o desemprego. “E nas principais economias emergentes, o crescimento, embora forte, também diminuiu,”  é o que se  lê na última edição de  As  perspectivas para a economia global publicadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

O FMI reviu as suas previsões de crescimento para 2013 nas economias avançadas, baixando  a taxa inicialmente prevista de 2% em Abril para 1,5% agora.

Em relação aos países em desenvolvimento, considera agora uma taxa esperada de 5,6%  contra os  6%  da sua anterior previsão anunciada em Abril. O desempenho dos Estados Unidos, com uma previsão de crescimento de 2,1% para o próximo ano (0,1% a menos  do que a taxa esperada em Julho), deve ser muito melhor do que na zona euro, onde o crescimento   não deverá atingir mais de  0,2% no  próximo ano (ou seja,  0,5% a menos do que o que se esperava em Julho), e isto depois de ser de  0,4% em 2012.

Mesmo a economia alemã deve crescer apenas 0,9% em 2012 e 2013. Quanto á economia espanhola, é esperado que venha a descer  1,5% em 2012 e 1,3% em 2013.

A razão pela qual o crescimento desacelera nos  países de alto rendimento  não é nenhum segredo: isto é devido à austeridade orçamental, à fraqueza dos sistemas financeiros e a uma incerteza generalizada .

MIX TÓXICO

Esta mistura tóxica é particularmente ameaçadora  no seio da zona  euro, onde ainda e sem nenhuma surpresa,  os  países dependentes da exportação são afectados pela contracção das economias dos  seus principais parceiros comerciais.

Como se mostra no mais recente relatório sobre a estabilidade financeira no mundo publicado pelo FMI, as fugas acumuladas de capital dos países periféricos da zona euro representam mais de 10% do seu produto interno bruto (PIB). Na verdade, se estes países  não tivessem sido  apoiados, principalmente pelo Banco Central Europeu (BCE), as economias periféricas  teriam que impôr controles cambiais. Elas teriam mesmo deixado a zona euro. O medo da ruptura, do  break-up,  permanece bem vivo.

Até agora, nada de muito brilhante. Mas mesmo estas previsões pessimistas baseiam-se sobre duas hipóteses  que se podem revelar optimistas. A primeira é que os Estados Unidos vão evitar o precipício “orçamental”  que as querelas entre os  seus legisladores correm o risco de não impedir. Se os Estados Unidos não lhe podem escapar   isto significará uma redução do seu PIB na ordem dos 4%.

As pessoas conscientes  sabem  o que isso significa: uma profunda recessão e, talvez mesmo,  a  deflação pura e simples.  Os legisladores americanos serão estúpidos a este ponto? Mais vale pensar que não.

A segunda hipótese optimista é a de que  os “decisores políticos europeus irão tomar medidas adicionais para promover  o ajustamento  ao  nível nacional e a integração ao  nível de toda a  zona. (…) Assim, a credibilidade das políticas  adoptadas e a confiança irão  melhorar gradualmente”.

Determinação

Mas os decisores  europeus mostram-se à altura dos problemas? Nós podemos  fazer a pergunta, mesmo que recentemente tenham mostrado uma  maior determinação.

O FMI também diz, com alguma audácia e de maneira controversa, que os multiplicadores   orçamentais  têm  agido a  uma escala muito maior do que o normal durante a grande recessão de 2009-2010.

Esta recessão seria dificilmente surpreendente, dado que as políticas keynesianas das taxas de juro perto de zero e de fortes restrições de crédito aplicam-se hoje. O FMI conclui assim que os multiplicadores estão localizados entre 0,9 e 1.7 em vez do factor geralmente estimado que foi de 0,5.

Isso também significa mais austeridade, digamos, 5% do PIB, o que corresponde aproximadamente à política de austeridade ciclicamente ajustada  para a Espanha entre 2009 e 2013, que seria de reduzir o PIB na faixa de 5% a 9%, com tudo o resto constante . Se tal fosse esse o caso, o défice orçamental não melhoraria devido à baixa das receitas e ao  aumento das  despesas…

Uma política de austeridade  orçamental demasiado apressada  pode, portanto, ser extremamente prejudicial.  Num  mundo sensato, os responsáveis políticos dariam  um poderoso apoio orçamental à  economia e desenvolveriam   grandes esforços para ajudar o sector privado, agora enfraquecido e sobre-endividado . Eles empenhar-se-iam  na  consolidação estrutural a longo prazo. Além disso, eles iriam definir objectivos orçamentais em termos estruturais e não em termos  nominais.

Risco  de  “Abismo  orçamental”

Para os Estados Unidos, isso implicaria fazer desaparecer o risco de “abismo  orçamental”, enquanto elaborariam  um plano  para um apoio orçamental a curto prazo e para uma melhoria no orçamento estrutural.

Essa combinação poderia  gerar um crescimento surpreendentemente forte, porque o mercado imobiliário tem-se  estabilizado,  o desendividamento do sector privado cresceu e a  Reserva Federal prometeu um suporte sustentável para o crescimento. Daí a importância da eleição presidencial dos EUA.

No que respeita à área do euro, o primeiro passo seria o de prosseguir reformas de longo prazo, e nestas a   mais importante é a União de bancos, que pretende cortar as ligações entre os Estados enfraquecidos e os bancos.

O segundo passo seria o de muito rapidamente estabelecer um programa com a Espanha. O BCE poderia implementar a sua nova política de “operações monetárias directas” para reduzir a taxa de juros sobre as dívidas públicas para 3%. Por agora, a Alemanha parece fazer da   Espanha um prisioneiro   do  progresso realizado na Grécia.

Este é um mau caminho para prosseguir.  A zona  euro não poderá  realmente cuidar da Grécia a não  ser quando ela terá reforçada as defesas dos outros países, incluindo os seus principais membros. Na Grécia, uma nova e vasta reestruturação de dívida é claramente necessária. Esta operação deverá, desta vez,  incluir a reestruturação dos empréstimos do sector público.

Última etapa

O FMI não deve lançar nenhum novo programa para a Grécia, se com este  não se é capaz de levar a Grécia a ter  um perfil de dívida sustentável. Caso contrário, o país não terá nenhum investimento privado.

A última etapa deve ser o ajustamento e o crescimento. Uma número significativo das Perspectivas para a economia mundial mostra que os desequilíbrios das contas correntes dos países em défice devem desaparecer à medida que as suas economias se contractam. Mas se os excedentes de países credores não diminuírem, isso resultará completamente num generalizado proteccionismo.

É portanto essencial para a zona euro e para o mundo que a procura europeia permaneça num nível elevado. A economia global só poderá reforçar-se se aqueles que têm os meios para agir agirem passarem a agir na verdade.

A responsabilidade é o fardo do poder. Por isso, temos de agir agora (esta coluna é publicada em parceria exclusiva com o “Financial Times”.

Martin Wolf, La chronique de Martin Wolf: Changer de politique, vite !, Le Monde,  22.10.2012

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