Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
A crónica de Martin Wolf: mudança de política, e rapidamente
Martin Wolf, Le Monde Économie
A recuperação continua, mas ela diminuiu. Nos países desenvolvidos, o crescimento agora é muito baixo para ter um impacto significativo sobre o desemprego. “E nas principais economias emergentes, o crescimento, embora forte, também diminuiu,” é o que se lê na última edição de As perspectivas para a economia global publicadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
O FMI reviu as suas previsões de crescimento para 2013 nas economias avançadas, baixando a taxa inicialmente prevista de 2% em Abril para 1,5% agora.
Em relação aos países em desenvolvimento, considera agora uma taxa esperada de 5,6% contra os 6% da sua anterior previsão anunciada em Abril. O desempenho dos Estados Unidos, com uma previsão de crescimento de 2,1% para o próximo ano (0,1% a menos do que a taxa esperada em Julho), deve ser muito melhor do que na zona euro, onde o crescimento não deverá atingir mais de 0,2% no próximo ano (ou seja, 0,5% a menos do que o que se esperava em Julho), e isto depois de ser de 0,4% em 2012.
Mesmo a economia alemã deve crescer apenas 0,9% em 2012 e 2013. Quanto á economia espanhola, é esperado que venha a descer 1,5% em 2012 e 1,3% em 2013.
A razão pela qual o crescimento desacelera nos países de alto rendimento não é nenhum segredo: isto é devido à austeridade orçamental, à fraqueza dos sistemas financeiros e a uma incerteza generalizada .
MIX TÓXICO
Esta mistura tóxica é particularmente ameaçadora no seio da zona euro, onde ainda e sem nenhuma surpresa, os países dependentes da exportação são afectados pela contracção das economias dos seus principais parceiros comerciais.
Como se mostra no mais recente relatório sobre a estabilidade financeira no mundo publicado pelo FMI, as fugas acumuladas de capital dos países periféricos da zona euro representam mais de 10% do seu produto interno bruto (PIB). Na verdade, se estes países não tivessem sido apoiados, principalmente pelo Banco Central Europeu (BCE), as economias periféricas teriam que impôr controles cambiais. Elas teriam mesmo deixado a zona euro. O medo da ruptura, do break-up, permanece bem vivo.
Até agora, nada de muito brilhante. Mas mesmo estas previsões pessimistas baseiam-se sobre duas hipóteses que se podem revelar optimistas. A primeira é que os Estados Unidos vão evitar o precipício “orçamental” que as querelas entre os seus legisladores correm o risco de não impedir. Se os Estados Unidos não lhe podem escapar isto significará uma redução do seu PIB na ordem dos 4%.
As pessoas conscientes sabem o que isso significa: uma profunda recessão e, talvez mesmo, a deflação pura e simples. Os legisladores americanos serão estúpidos a este ponto? Mais vale pensar que não.
A segunda hipótese optimista é a de que os “decisores políticos europeus irão tomar medidas adicionais para promover o ajustamento ao nível nacional e a integração ao nível de toda a zona. (…) Assim, a credibilidade das políticas adoptadas e a confiança irão melhorar gradualmente”.
Determinação
Mas os decisores europeus mostram-se à altura dos problemas? Nós podemos fazer a pergunta, mesmo que recentemente tenham mostrado uma maior determinação.
O FMI também diz, com alguma audácia e de maneira controversa, que os multiplicadores orçamentais têm agido a uma escala muito maior do que o normal durante a grande recessão de 2009-2010.
Esta recessão seria dificilmente surpreendente, dado que as políticas keynesianas das taxas de juro perto de zero e de fortes restrições de crédito aplicam-se hoje. O FMI conclui assim que os multiplicadores estão localizados entre 0,9 e 1.7 em vez do factor geralmente estimado que foi de 0,5.
Isso também significa mais austeridade, digamos, 5% do PIB, o que corresponde aproximadamente à política de austeridade ciclicamente ajustada para a Espanha entre 2009 e 2013, que seria de reduzir o PIB na faixa de 5% a 9%, com tudo o resto constante . Se tal fosse esse o caso, o défice orçamental não melhoraria devido à baixa das receitas e ao aumento das despesas…
Uma política de austeridade orçamental demasiado apressada pode, portanto, ser extremamente prejudicial. Num mundo sensato, os responsáveis políticos dariam um poderoso apoio orçamental à economia e desenvolveriam grandes esforços para ajudar o sector privado, agora enfraquecido e sobre-endividado . Eles empenhar-se-iam na consolidação estrutural a longo prazo. Além disso, eles iriam definir objectivos orçamentais em termos estruturais e não em termos nominais.
Risco de “Abismo orçamental”
Para os Estados Unidos, isso implicaria fazer desaparecer o risco de “abismo orçamental”, enquanto elaborariam um plano para um apoio orçamental a curto prazo e para uma melhoria no orçamento estrutural.
Essa combinação poderia gerar um crescimento surpreendentemente forte, porque o mercado imobiliário tem-se estabilizado, o desendividamento do sector privado cresceu e a Reserva Federal prometeu um suporte sustentável para o crescimento. Daí a importância da eleição presidencial dos EUA.
No que respeita à área do euro, o primeiro passo seria o de prosseguir reformas de longo prazo, e nestas a mais importante é a União de bancos, que pretende cortar as ligações entre os Estados enfraquecidos e os bancos.
O segundo passo seria o de muito rapidamente estabelecer um programa com a Espanha. O BCE poderia implementar a sua nova política de “operações monetárias directas” para reduzir a taxa de juros sobre as dívidas públicas para 3%. Por agora, a Alemanha parece fazer da Espanha um prisioneiro do progresso realizado na Grécia.
Este é um mau caminho para prosseguir. A zona euro não poderá realmente cuidar da Grécia a não ser quando ela terá reforçada as defesas dos outros países, incluindo os seus principais membros. Na Grécia, uma nova e vasta reestruturação de dívida é claramente necessária. Esta operação deverá, desta vez, incluir a reestruturação dos empréstimos do sector público.
Última etapa
O FMI não deve lançar nenhum novo programa para a Grécia, se com este não se é capaz de levar a Grécia a ter um perfil de dívida sustentável. Caso contrário, o país não terá nenhum investimento privado.
A última etapa deve ser o ajustamento e o crescimento. Uma número significativo das Perspectivas para a economia mundial mostra que os desequilíbrios das contas correntes dos países em défice devem desaparecer à medida que as suas economias se contractam. Mas se os excedentes de países credores não diminuírem, isso resultará completamente num generalizado proteccionismo.
É portanto essencial para a zona euro e para o mundo que a procura europeia permaneça num nível elevado. A economia global só poderá reforçar-se se aqueles que têm os meios para agir agirem passarem a agir na verdade.
A responsabilidade é o fardo do poder. Por isso, temos de agir agora (esta coluna é publicada em parceria exclusiva com o “Financial Times”.
Martin Wolf, La chronique de Martin Wolf: Changer de politique, vite !, Le Monde, 22.10.2012
